Aventuras de outros

A imagem de um documento, relativamente antigo de preferência, não vale as propaladas mil palavras mas sempre ajuda um bocadinho.
Esta aqui remete-me para memórias difundidas, difusas também, com origem em primeiro lugar na minha Mãe e, posteriormente, no meu irmão Zé Maria – responsável também pela imagem que abre esta louca aventura dos meus pais, vivida nos meses imediatos ao fim da II Grande Guerra.
É disto que se trata, só soube destes acontecidos por via de uma caseira tradição oral com que a minha Mãe me foi brindando até um dia a brisa a levar.
Não é pieguice, acho mesmo que se lhe pode chamar diversão, e tem como protagonista principal uma das mais importantes personalidades da minha vida: o meu Pai.
Faziam uma parelha de estrondo, no seu tempo, embora tudo isso não tenha então contribuído particularmente para a felicidade de ninguém.
A verdade é que ele era um bocado galaréu, como dizem os nossos amigos brasileiros, além de artista de várias artes, como exemplifiquei em tempos no sempre amado ETGM – em duas situações bem diferentes (aqui e aqui).
De repente, talvez por um toque de nostalgia, lembrei-me de alguns dos factos então ocorridos. E como a Mãe não está, tive de me socorrer do meu irmão mais velho – que há época já era senhor de um par de anos (não é muito, eu sei, mas ele começou a ouvir esta história bem mais cedo que eu).
Vamos até ao fim da guerra de 45, a uma tentativa de emigração para o Brasil – que em Portugal a vida não estava nada fácil. Tratava-se de viagem prospectiva, enfim, estribada em alguns relacionamentos específicos que permitiram de algum modo uma estadia de boa qualidade: alta-sociedade do Rio de Janeiro, Real Gabinete Portuguez de Leitura, Copacabana Palace, passeios de barco e tudo o mais que se possa imaginar.
Sei que as coisas se passaram com imensa cor (a imaginação dará asas ao galaréu-Pai vezes suficientes, que o Brasil nessas coisas não brinca, as brasileiras ainda menos, e ele não ajudava nada…).
Estamos em pleno consulado de Getúlio Vargas, que conta com perigosa trupe governamental e respectiva nebulosa de altos-funcionários na maioria dos casos corruptos e traidores – que o levarão mais tarde ao suicídio, como é sabido.

Um destes funcionários de topo é nada menos que Benjamim Vargas, o irmão playboy do presidente brasileiro.

uma dupla de estrondo

Na memória da minha Mãe: «Um ser repelente, sebento, perigosíssimo. No casino do Copacabana ele às vezes chegava, sacava do revólver, e perguntava ao croupier: ‘Quanto vale isto aqui?…’ E imediatamente o homenzito, coitado, lá dizia que ‘para si, senhor Vargas, vale cem dólares’. Então ele pegava na pistola e punha-a num número qualquer e mandava a roleta girar. Quando a bola parava, «Beijo» Vargas (era assim que se auto-intitulava) perguntava em que número saíra. A resposta era simples: ‘Para si saiu no seu número, senhor Vargas’».

É que o tal «Beijo» Vargas era apenas o chefe da polícia política brasileira, apresentando-se em tudo o que era lado na companhia de uma guarda pretoriana com o péssimo aspecto e a pior fama que se poderiam encontrar em todo o continente sul-americano.
Era, portanto, um abusador perigoso, com a faca e o queijo na mão.
Um certo dia (ou noite, será mais certo), o já famigerado «Beijo» Vargas descobre a minha Mãe – e resolve investir, pois claro!
E, claro também, galaréu-Pai não gostou mesmo nada da brincadeira.
De tal forma que ali, em pleno Copacabana, pregou-lhe duas murraças. Em frente de toda a gente. Ao chefe da polícia política brasileira.
Meia hora depois ficou a saber que era um tipo com uma sorte espantosa: tinha o tempo necessário para abandonar o Brasil a correr, ou, garantiram-lhe, seria morto.
Mala feita à pressa para uma fuga estratégica rumo a Buenos Aires (o meu irmão diz que ele foi de comboio, mas a minha Mãe dizia que foi num ‘Dixie Clipper’), onde, passados alguns dias, ela se lhe juntou, embarcando então ambos rumo a Portugal num navio que cruzou o Panamá – escalando então Curaçao antes de se fazer ao Atlântico.

Esta escala em si é um caso à parte.

A viagem tinha sido muito desagradável, um homem suicidara-se depois de perder todo o dinheiro a jogar, houvera mesmo enterro no mar – se tal se pode dizer.
Para cúmulo, ao entrar no porto de Curaçao o paquete não fez a manobra de atracação bem e entrou proa adentro pela cidade, provocando imensos estragos.
Palavras da minha Mãe: «Foi uma coisa estranhíssima olhar pelas vigias e ver as janelas das casas a um palmo do nosso nariz, com as pessoas a olhar para nós muito espantadas…».
Além de que, naturalmente, o capitão do porto apreendeu o barco enquanto não lhe garantiram que os estragos seriam pagos.

Porque é que isto é uma história em si?

Bem, por uma razão estranha que passo a explicar: um dia contei isto a um amigo e ele disse-me que esta cena do barco a abalroar Curaçao encontrava-se contada num livro de um escritor conhecido, porventura sul-americano, talvez Garcia Marquez, ou Vargas Llosa

Infelizmente não consegui descobrir qual é esse livro.
Alguém sabe?…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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33 respostas a Aventuras de outros

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    antónio,o relato tem charme. na verdade, benjamin vargas levava a alcunha de ‘bejo’, que soa menos carinhosa a um chefe de polícia. a nomeação dele como chefe da polícia do rio de janeiro, aliás, foi o estopim dos acontecimentos que conduziram à renúncia de getúlio vargas, em 29 de outubro de 45, que marca o fim do ‘estado novo’ no brasil. e, logo, essa rusga entre seu pai e ele deu-se só uns poucos dias antes da queda de vargas, seguindo a data de expedição do visto de sua mãe: 22 de setembro. presume-se, assim, que seus pais passaram, tirando os dias da travessia, cerca de um mês no rio. no máximo. a não ser que a briga tenha se dado quando vargas já não estava mais no poder, e, portanto, benjamin não era mais o chefe da polícia, o que também não se pode descartar. é, não devia ser fácil a vida naqueles tempos — e dos dois lados da lagoa…também é a primeira vez que dou com este termo: ‘galaréu’ (rs. muito bom!). e fico imaginando a aventura que era fazer rio-buenos aires por terra àquela altura. até hoje não há uma ligação ferroviária regular e decente entre essas cidades… vai-se de avião ou ônibus, hoje em dia. àquele tempo, de navio (ou eventualmente no ‘clipper’ proposto por sua mãe).
    mas esses relatos em família são fascinantes!

    • Tem razão, Ruy, eles passaram pouco tempo lá, isso eu sei. Mas sei que G. Vargas ainda estava no poder e o afinal «Bejo» também. Quanto à viagem, a minha Mãe dizia-me que ele fez a viagem até Buenos Aires num hidrovião «Dixie Clipper» da TWA. O meu irmão é que diz que foi de comboio…
      Olhe que galaréu é um termo brasileiro…
      Ainda bem que gostou, isso é que interessa!

  2. Linda a sua mãe, António, mas isso já eu sabia. E quem o veja ali, de perfil bem-comportado a assinar o assento de registo, não imaginaria o senhor seu pai galaréu de bem dadas murraças no lounge do Copacabana. Vou procurar-lhe a histónia pelos sul-americanos, porque assim de memória …

  3. Pedro Bidarra diz:

    Uma belísima crónica biográfica muito bem iluminada a preto o branco.

  4. nanovp diz:

    Que bela história com política e coragem à mistura, agora sobre em que livro aparece o episódio não lhe sei dizer…!!

  5. Adorei a história, não sei de que livro se trata e… o que será que quer dizer galaréu? Em que parte do Brasil será que isso se usa? Nunca ouvi e acho que nunca tinha visto nem escrita…

  6. mariabrojo diz:

    História nesta maravilhosa estória. Quando a tradição familiar alimenta contos e reconta proezas ou retalhos de ancestrais, é proibida a distração do ouvinte das gerações que a seguir foram engendradas. No todo, são a espinha que constitui o dorso da família.

  7. amo diz:

    Barco que entra pela cidade: ocorre-me ISTAMBUL de Orhan Pamuk.

  8. Diogo Leote diz:

    Bela história, António. A do barco a entrar pela cidade, não consigo ajudar. O mais próximo que me ocorre é o barco do Fitzcarraldo do Herzog a escalar o monte ou o barco do Comandante Vasco Moscoso do Aragão (do Jorge Amado), atracado ao cais por centenas de cabos, que sobreviveu intacto enquanto a cidade se desmoronou à volta dizimada por uma brutal tempestade.

  9. Maria João Freitas diz:

    António, que história tão fabulosamente literária E que fotografias tão verdadeiramente belas.

  10. GRocha diz:

    O património da Oralidade é muito rico. Esta história é deliciosa, digna de um livro, já começou a escreve-lo?! Eles (os seus pais) merecem-no! 🙂

  11. Um livro não dá, GRocha, acabaria por mentir ou escrever o que não queria. Tenho é várias pequenas histórias com eles. Se quiser ver, estão duas com o link sinalizado neste texto, é só clicar em cima.
    Aconselho a primeira.
    Ainda bem que gostou.

  12. Panurgo diz:

    Grande texto, António. Olhe eu cá acho (a gente acha sempre qualquer coisa) que uma história muito semelhante a essa é contada pelo André Kedros. A memória é que me falha 🙁

  13. Panurgo, ainda bem que gostou. E vou investigar o Kedros, pois claro!
    Obrigado pela dica.

  14. … e o António, poder contar tão bem.

  15. Com um tema destes não é complicado…
    Obrigado, Rita, gosto muito que tenha gostado.

  16. Lira Neto diz:

    Antonio, meu caro; Estou escrevendo a biografia de Getúlio Vargas, uma trilogia. O primeiro volume saiu este ano (veja aqui: http://www.biografiagetuliovargas.com). Gostaria de fazer contato com você. Caso seja de seu interesse, peço-lhe que me mande um e-mail, por favor, para o seguinte endereço: [email protected]. Cordialmente, Lira Neto

  17. Olinda diz:

    porque é contada por ti. 🙂

  18. Maria Leao diz:

    Linda Mãe, lindas palavras, tão bonitas e tão especiais que nem ouso dizer nada, a não ser bem haja. Quando a Memória dos afectos e dos bonitos sentimentos, fazem nascer frases tão especiais, é licito louvar quem faz as palavras terem alma. Parabéns .

  19. Guilhermina diz:

    As mais belas histórias de amor são mescladas de mil tons, aromas e sabores. Tenho a certeza que os Senhores seus pais foram felizes.

  20. ana maria coelho diz:

    Gostei muito. Em relação ao Eça de Queiróz, qual é a relação de parentesco deste casal? Sou uma apaixonada por tudo o que diga respeito ao meu amado Eça. Obrigada, António Eça de Queiróz.

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