Cheira um bocadinho a pivete

Democracia, Michel Luc Bellemare

Quem é que não sabe e repete que o Ocidente falhou? Decadente há séculos, decadente para sempre, libidinoso a contemplar o seu próprio crepúsculo.
Quando fui anarquista, embora anarquistas eleitos achassem que eu não o era verdadeiramente, o desiderato era destruir o Estado, fazê-lo desaparecer como se cada homem fosse o próprio Houdini. O Estado, persistente, inflexível, continua em cima do palco, dando-se ares de protagonista. Essa anárquica democracia não se cumpriu.
Quando eu era marxista, qualidade que os teóricos que verdadeiramente o eram sempre me negaram, tinha febre a pensar nessa democracia em que, extirpada a luta de classes, Oeste e Leste se fundiam e a todos os homens assistia só a fruição de um prazer sem necessidades. Lamentavelmente, o barbudo Ocidente falhou a a fusão a quente (ou a frio) das classes e a democracia de São Marx.

Nova Democracia, Siqueros

Quando fui católico, de coração querubínico a que os mais apocalípticos sempre apontaram insidiosa mancha, deixei-me levar pelo êxtase espiritual de uma humanidade que a Segunda Vinda (fosse qual fosse a forma, fosse em pura luz ou línguas de fogo) conduziria à democracia de plenitude e Bem. Infelizmente, o Ocidente falhou também a arrebatada e teocrática democracia.
Foram esses os meus pantagruélicos repastos, mas à hora da sobremesa ainda me passaram pela frente pratinhos de democracia directa e de democracia popular. De tão açucarados, nem provei. Fiz consultas recentes aos Menus e já não constam.
Resta sempre e só a ideia de uma democracia imperfeita, work in progress (às vezes às arrecuas), frágil, insatisfeita, como insatisfeitos somos nós mesmos, no amor, no sexo, na vida profissional, na posse dos bens materiais, na confusão entre sermos orgulhosos e humildes, orgulhosos ou humildes. Teremos falhado assim tanto?
Temo, aliás, pela democracia em que esta pergunta, num ou noutro momento, não surja. Vivemos em democracia? Hmmm, cheira um bocadinho a pivete. Sim, de vez em quando cheira um bocadinho a pivete, vivemos em democracia.

O carnaval da Democracia, Richard Hubal

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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13 respostas a Cheira um bocadinho a pivete

  1. Panurgo diz:

    Obviamente que cheira. Nem outra coisa que se podia esperar duma ideia inglesa. Um nojo.

    Se o mundo começou em 1789, não falhámos em nada. Só podia dar nisto. E deu.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Panurgo, mas afinal a culpa é dos ingleses ou é dos franceses e americanos?
      Só um ponto, vá lá, um nadinha mais pessoal: acho que um bocadinho de nojice é parte integrante da vida. O que seria do amor e da boa cama sem uma nojicezita, aqui e ali, por baixo ou por cima…

      • Panurgo diz:

        Isso é verdade. Mas está a confundir. Uma coisa é meter o dedo no cu duma mulher naquela tesão do amor ou da paixão, o que seja, outra coisa é fazer uma população inteira sangrar pelo dito pela mais pura ganância. Creio que foi o Pessoa que viu e bem que a Revolução Francesa não era mais do que o triunfo das ideias (porcalhonas) inglesas em solo francês. Entre americanos, ingleses, franceses, liberais, marxistas, anarquistas e restantes aleijados mentais não há diferença na substância – são todos filhos da mesma porqueira. Há somente nas circunstâncias. É como nos jogos olímpicos para deficientes – só muda a modalidade e o local da deficiência. O aleijanço está lá sempre. Isto atesta a História. E os nossos dias comprovam-no. Aliás, basta comparar o Manifesto Comunista com o Sistema Americano. Bate tudo certinho. Ou o Nazismo com o Sionismo. Ou o Islamismo com o Judaísmo, enquanto sistemas políticos. Etc., etc., etc. Caramba, acabei de falar com uma mulher linda e até parece que estou mal disposto. Manuel, meta aí uma rockada como deve ser, que estas coisas não interessam a ninguém.

        • O aleijanço está lá sempre, diz o meu caro Panurgo?! Se calhar está. Mas há duas coisas que tenho de lhe perguntar, e estou, Panurgo, a falar-lhe desportiva e filosoficamente:
          1. o que é o aleijão? Se é essa maldita singularidade dos humanos, não vejo que haja grande coisa a fazer!
          2. donde é que vê o aleijão? Se o vê de um absoluto exterior a tudo o é a humana concreção, também não há nada a fazer.

          • Panurgo diz:

            (Ah! Finalmente dá para responder). O aleijão é como o Inominável – está em toda a parte em todo o Tempo. E não há mesmo grande coisa a fazer, visto que a maioria dos seres humanos não passa de gado apoiado em duas patas. Aristóteles já tinha notado isso. O aleijão não o vejo nem da esquerda, nem da direita – vejo-o do alto, que é para lá que me ensinaram a caminhar.

            • Manuel S. Fonseca diz:

              Tinha, e felizmente tenho, espero que por muitos anos, um amigo meu, desbocado, que dizia sempre: “Não sou de esquerda, nem de direita, sou de cima”. Mas acho que digo sempre isto para poder lembrar a mais célebre frase dele, uma coisa de salão: “O que é preciso é um gajo vir-se, nem que seja entre as pernas de uma cadeira”.
              Pois sim, caro Panurgo, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

  2. Sem dúvida que cheira, e por vezes muitíssimo mal – não a pivete mas a esterqueira a sério.
    Ontem a Dilma Roussef anunciou um plano logístico para o Brasil assente numas PPP’s do tipo que nós já conhecemos. O gajo mais rico do Brasil não foi de poupar nos comentários: «Isto é um autêntico ‘kit’ de felicidade».
    Cheira mal e em todo o lado – democrático ou não.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      É da nossa condição, mas não é necessariamente um mal. Um paraíso branco, inodoro, asséptico, era cá um pincel, meu caro António. Deus nos livre…

  3. Grande escolha de ilustrações, já me esquecia…

  4. Manuel fez-me lembrar o Gore Vidal em Lisboa que á pergunta se ” Mesmo com todas os seus defeitos e críticas, não acha que a Democracia é ainda o melhor sistema que conhecemos?” responde sem hesitar : ” Não posso responder, nunca vivi numa!!”

    • Manuel S. Fonseca diz:

      O Gore Vidal era felizmente aforístico. Quando numa discussão o Mailer lhe enfiou um pão e o estendeu no chão, ele, sem se levantar, disse: “como sempre faltam-te as palavras, Norman!”

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