Como me tornei homenzinho

 

 O livro era a História da Minha Vida (Story of my life), de Jay McInerney, e contava as deambulações pelo mundo do sexo e da droga, entre LA e NY, de uma jovem de 21 anos, Alison Poole, fisicamente irresistível como se impunha e sempre pronta a debitar o cartão de crédito que seu abastado lhe confiava sem hesitar. Contado na primeira pessoa pela própria Alison, uma predadora sexual de respeito apesar da sua juventude, reduziu a zero a todos os estereótipos da masculinidade com que o marialvismo dominante me emprenhava pelos ouvidos e que eu – muito ingenuamente naqueles tempos de pós-puberdade – recebia sem questionar. A verdade é que Jay McInerney contribuiu para fazer de mim um homenzinho, no melhor sentido da palavra, que pouco tem a ver com a ideia que um marialva tem do sexo masculino. E eu que desconhecia tudo sobre ele. Nem sequer sabia que Jay era nome de homem, quanto mais um macho comparsa do wonderboy Brett Easton Ellis e um dos mais destacados membros da geração less than zero que despontara anos antes no meio literário americano. Ignorava tudo sobre Jay como ignorava que um homem pudesse fazer tanta figura ridícula na cama sem disso fazer a mais pálida ideia. Se não acreditam, basta que leiam as páginas hilariantes de tão mordazes e certeiras como Alison descreveu a pirueta com que, desajeitadamente, os seus parceiros sexuais estragavam o momento de puro prazer do cunnilinguis só para terem direito, em simultâneo e rapidamente, ao fellatiozinho da ordem. Mais útil do que qualquer livrinho de educação sexual da Verbo, não só para os jovenzinhos que se quiserem iniciar nos mistérios da sedução feminina como para os entradotes que nunca se olharam ao espelho. E, por favor, não me acusem de falta de fair-play, pois foi o livro que mais ofereci, quando tinha a idade da Alison, a meninas da idade da Alison.

 

P.S. De tanto oferecer e emprestar o livro (esquecendo que nunca se devem emprestar livros, pois livro emprestado é livro perdido), não fiquei com nenhum exemplar comigo. E o problema é que a edição antiga da Quetzal está esgotada há mais de uma década. Não haverá nenhuma simpática leitora que o tenha para vender? Prometo que continuarei a usá-lo em benefício da erradicação de marialvismos bacocos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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14 respostas a Como me tornei homenzinho

  1. mariabrojo diz:

    Por acreditar nos bons propósitos do Diogo que bela prosa remata com um pedido, julgue certo alerta meu.

  2. Astrid diz:

    Tivesse eu o exemplar e atravessaria o oceano para lho oferecer!

    ( Ultimamente noto em mim algumas dificuldades a nível da hermenêutica. Ou será que embirro com anástrofes, hipérbatos, sínquises e o diabo a sete? Tanta pomba assassinada…Obviamente que esta minha assumida fraqueza nada tem que ver com a prosa do “nosso homenzinho”)

    • Pedro Bidarra diz:

      As anástrofes e Cia são, se calhar (olha escapou-me uma), sinal que vivemos tempos disléxicos.

  3. MJC diz:

    Prometo que se encontrar, nalgum alfarrabista, compro e lhe ofereço mas primeiro vou lê-lo. Só de imaginar a descrição da pirueta já me escangalhei a rir 😉

    • Cara Maria João, agradeço-lhe a simpatia mas prometa-me que, se encontrar o livro, não mo vai atirar à cara com ares trocistas! 🙂

  4. Por quem sois, Astrid, eu como homenzinho que já sou, não a deixaria atravessar o oceano por tão pouco. Mas agradeço-lhe a simpatia do gesto!

  5. Diogo Leote diz:

    E eu agradeço-lhe o alerta, cara Maria do Céu, que muito faz aumentar a responsabilidade dos meus apregoados nobres propopósitos.

  6. Ou de tempos disléxicos… ou de tempos que aconselham a que se volte a falar em código.

  7. Astrid diz:

    Não foi necessário atravessar o oceano, limitei-me a umas sarfadelas e descobri que pode obter o saudoso ( e, pelos vistos,saudável) livro na Amazon.com, novo ou em várias mãos, ou ainda sob a forma de e.book.
    Possivelmente, e de acordo com a tónica deste blog, estarei a ser uma triste, ou seja, o Diogo já teria percorrido essa rota.

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, as palavras latinas percebi, mas o que é uma pirueta? Cheira-me a perversão…
    (O Jay é de boa memória, meus primeiros tempos da cinemateca!) Bem trazido!

  9. Não é justo! Então e a banda sonora… faz-me falta! lol

  10. Diogo Leote diz:

    Olhe que não, cara Astrid, eu é que sou um grande triste e sofredor que ainda não me tinha ocorrido espreitar a versão original na Amazon, de tão fixado estava na edição da Quetzal. Quanto ao e-book, agradeço também a lembrança mas ainda não aderi à coisa. Lá chegarei! Muito obrigado.

  11. Rita, banda sonora para a pirueta? Talvez o “Je t´aime moi non plus” do Serge Gainsbourg e da Jane Birkin…

  12. Manuel, não me perguntes que eu nunca cheguei a fazê-la. Felizmente, li o livro antes e parece que me safei a tempo de me transformar num gajo perverso…

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