Corte & Costura

Sobre Foto original, Atelier Paraíso

«se eu quero encontrar aqui em Lisboa a escola com que sonho, porque não criá-la eu?  Um sítio rodeado de texturas e cores, onde as pessoas possam dar asas à imaginação e aprender a arte da costura, descontrair, trocar ideias, sempre em boa companhia? Uma espécie de “espaço suspenso” nas suas vidas, onde não há obrigações, filhos, maridos, patrões, onde tudo é positivo e possível?»

Foi o que me respondeu quando lhe perguntei: – Uma escola? Como, porquê? E continuámos à conversa.  Explicou-me que o nome «Atelier Paraíso» ainda esteve para se chamar “Escola do Paraíso”, como o livro que o José Rodrigues Miguéis escreveu sobre a sua infância nessa rua. Mas ficou Atelier em homenagem a uma professora franco-russa que dizia ter aprendido com uma costureira da Coco Chanel tudo o que sabia e Paraíso porque, para além de ser o nome da rua, reflecte o estado de espírito que quer que prevaleça.

Lembrámo-nos depois do frasco gigante de licor de frutos que emborcámos, durante os nossos ensaios, na cozinha de casa da sua mãe. A Cristina tinha uma voz igual a da Kate Bush e antes, durante e ao mesmo tempo que fazíamos os nossos trabalhos de casa, os acordes arranhados à viola, pareciam dar-nos o acompanhamento perfeito, fazendo-nos sonhar com uma vida de palco e glamour.

Quem sabe se agora com um ‘star’s wardrobe ‘ não retomamos os nossos ensaios e estreamos numa sala perto de si. ‘Props’ não nos faltam!

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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4 respostas a Corte & Costura

  1. fernando canhão diz:

    Escola do Paraiso de José Rodri­gues Miguéis. Muito obrigado pela recordação.

    • Rita V diz:

      um autor maravilhoso ‘ligeiramente’ esquecido ou ‘trocado’ pelo barulho das luzes. obrigada pelo seu comentário

      • fernando canhão diz:

        Não se pode trocar ou esquecer o que se desconhece. Semanas após a morte do meu pai, que me deu a conhecer Rodrigues Miguéis, ligou-me um senhor com um orçamento para uma lápide de pedra para a campa. Declinei a oferta, e com esse dinheiro comprei um sistema de amplificação da Quad (patrocinador do “Em órbita”) com colunas Rogers LS6, um som muito inglês ao gosto do meu pai. Inclui a chave da urna do meu pai no meu porta-chaves mas depois tirei-a. Furava-me os bolsos. Ao fim destes anos todos continuo a sonhar com o meu pai e a acordar bem-disposto. Também tive uma mãe mas não gosto de misturar pessoas.

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