De dia lá dentro

 

Passar ali uma tarde inteira tem de ser um tempo solitário. 

Ninguém tem paciência para me acompanhar. E quando gosto não consigo apressar-me. Há sempre um olhar trocista que me apanha e convida a ficar.

Eu sei, é sacrilégio insistir no olhar. E no registo.

Mas como resistir a um canto da casa que é só deles?

Como não tentar escutar o que dizem, já que não se dão conta da minha cera em lápis, e conversam como se ninguém mais ali estivesse?

Gosto de passar e rir-me das pombas que não podem sujar-me o vestido.

E gozar a roda da saia rodada que gira sem mim.

O prazer é ficar frente ao pintor e interrogar-lhe os traços.  De onde vem a luz.

Por onde seguiu o movimento da mão dele nos quadros que me tocam. 

Desenhar é tentar tocar de longe. Mesmo quando as tentativas não vão longe.

Mesmo quando há um olhar desconfiado.

A viagem a Barcelona não tinha esse objectivo. Mas o Museu Picasso acabou por ser uma tarde inteira. Cinco, dez, quinze minutos em frente a uma pintura, um esboço, um desenho.

Ninguém aguenta.

Só o meu caderno.

Felizmente chegaram uma mãe e uma filha com vontade de passear.

                             E finalmente lá fui eu para o pé do mar. 

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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7 respostas a De dia lá dentro

  1. riVta diz:

    MAIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    🙂

  2. Teresa Conceição diz:

    Rita, que boa disposição:) Mas poupo-a.
    Este caderno saiu de um baú já velhote. Os outros esboços estão piores ainda. Mas aquela tarde chegou-me inteira através deles,
    por isso não resisti.

  3. Bolas Teresa, é tão bonito. Também ficava aqui a olhar mais umas horas. Y con un vaso de vino, nem se se fala

  4. Teresa Conceição diz:

    Que bom ter gostado, Manel.
    O Picasso himself fica bem com vinho tinto, parece-me.
    As tentativas de cópias devem ser mais água-pé.

  5. Ver TV sempre é melhor que ver Picasso, a não ser que se more para os lados de Avignon 🙂

  6. Táxi, que alucinação de vídeo! Arigato por mais esta descoberta.
    Et tout en rond on y dance, on y dance sur les ponts…
    logo, se mademoiselles, podem ser mais arredondadas, por favor.

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