Decálogo matissiano

1. Lembra-te, ele é Matisse, o deus que livrou os teus olhos da casa da servidão.

2. Não tomarás a mão de Matisse em vão, porque Matisse não toma por inocente a mão que segure um lápis.

3. O que se faça lá em cima nos céus, em baixo na terra, ou nas águas debaixo da terra são apenas imagens sem semelhança com a criação de Matisse.

4. Tem sempre Matisse a um clic, num ipad, para o santificar.

5. Honra a Bracque e Man Ray e a  Picasso pai de todos, a fim de que os teus dias se prolonguem na pintura que Matisse te dá.

6. Não matarás desfechando Dalis ou Warhols nem mesmo sobre os teus inimigos.

7. Não cometerás adultério nem sequer com a luxúria dos pré-rafaelitas.

8. Não levantarás falso testemunho contra a luz de  de La Tour que se move na noite escura.  

9. Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem a mulher de Modigliani, nem seu escravo, nem o leque da sua escrava, nem o seu touro ou o seu jumento, nem qualquer coisa que pertença ao teu próximo, com excepção de tudo o que pertença ao Musée Matisse e à agrilhoada arte que nele sofre.

10. Ao sétimo dia, os teus olhos descansarão sobre Matisse, teu senhor, teu deus, e não farás nenhuma obra, nem tu, nem tua filha, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a Decálogo matissiano

  1. Mas o calor deste Verão estimula-lhe a inspiração…! Que coisa. São textos (e imagens) fantásticos, uns a seguir aos outros.

  2. É a mansidão do Verão, cara Um Jeito…

  3. Nem de propósito: pintura. Aqui mais outro grande verso:

    “(Wild, go wild) / Go wild in the country / Where snakes in the grass are absolutely free / (Wild, go wild)”

    Notarás que a capa do disco é um refazer do déjeuner de Manet. A Annabella, na altura da foto, tinha 14 anos e a capa foi proibida, só quando fez 16 é que pôde assinar a autorização. E este foi o segundo ataque à pop do herdeiro da Internacional situacionista, Malcolm McClaren:

  4. JP Guimarães diz:

    Modigliani, “a son of the stars for whom reality did not exist”. Pelo menos foi o que li numa biografia.
    Abraço,
    JP

  5. Um “monstro sagrado” intocável, o homem que quando já não podia desenhar fazia maravilhosos recortes…honra lhe seja feita….

  6. Teresa Conceição diz:

    Manel, que bela visita guiada.
    Gostei muito.

Os comentários estão fechados.