Deglutir a dura velhinha

Nada lá vai sem algum macabro. Sem o horrível e o mórbido, boa noite estética. E para irmos já à destrunfa nem é preciso bater muita estrada, basta tropeçar nos contos para crianças. Nos europeus ou africanos, asiáticos ou ameríndios, não há maravilhoso sem macabro.

Que raio de drama é que viveria a querida Capuchinho Vermelho se o Lobo não lhe estripasse a querida Avózinha? Que graça teria o nefando bicho deglutir a dura velhinha se depois não viessem os salvíficos caçadores estoirar a cabeça ao Lobo e, rasgando-lhe as entranhas, retirassem lá de dentro a Avó de boca pequenina, sã e salva para poder viver feliz e para sempre com a rubra netinha?

No tantas vezes desdenhado e ofendido  macabro o que se esconde e se revela é um belíssimo esconjuro artístico do vale de lágrimas e do cortejo de horrores que é este tão belo, tão feio mundo. Há pessoas que só são capazes de ver isto pelos óculos da fúria política e do manifesto social; há outras que tudo cristalizam (quer dizer: fantasiam, riem, escarnecem) em tela, literatura, cinema e pintura. Sais e pixels.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Deglutir a dura velhinha

  1. Carla L. diz:

    Tenho acompanhado a série televisiva Once Upon a Time. Embora eu não tenha lá muita paciência, me surpreendi com o episódio sobre a Chapeuzinho Vermelho. Deixo-lhe aqui uma imagem da mocinha em dois momentos:

    http://babistargirlie.blogspot.com.br/2012/01/chapeuzinho-vermelho-da-vida-real.html

  2. manuel s. fonseca diz:

    A mocinha, estimada Carla, foi muito apreciada pelo Lobo e sua matilha, a todos parecendo bastante mais tenrinha do que a, sem dúvida querida, avózinha…

  3. Teresa Font diz:

    Pois é isso mesmo! Depois de ler, até parece uma daquelas coisas que sempre soube. Mas não, foi-me preciso que o Manuel o escrevesse – e assim tão bem.
    Ando muito arredada da vossa companhia, é o que é. Vou tratar do assunto.
    E esta Capuchinho é mesmo um (outro) desastre à espera de acontecer. Até apetece roubá-la…
    Vou espreitar a mocinha da Carla.

    • manuel s. fonseca diz:

      Teresa,
      nem sabe a falta nos tem feito quem, por tão bem escrever, nos leia como a Teresa nos lê com olhos magnânimos. Apareça muito mais vezes.

  4. fernando canhão diz:

    There was a boy whose name was Jim
    His friends were very good to him
    They gave him tea and cakes and jam
    And slices of delicious ham
    And chocolate with pink inside
    And little tricycles to ride
    They read him stories through and through
    And even took him to the zoo
    But there it was the awful fate
    Befell him, which I now relate
    You know (at least you ought to know
    For I have often told you so)
    That children never are allowed
    To leave their nurses in a crowd
    Now this was Jim’s especial foible
    He ran away when he was able
    And on this inauspicious day
    He slipped his hand and ran away
    He hadn’t gone a yard when BANG
    With open jaws a lion sprang
    And hungrily began to eat
    The boy, beginning at his feet
    Now just imagine how it feels
    When first your toes and then your heels
    And then by varying degrees
    Your shins and ankles, calves and knees
    Are slowly eaten bit by bit
    No wonder Jim detested it
    No wonder that he shouted “Ai”
    The honest keeper heard his cry
    Though very fat, he almost ran
    To help the little gentleman
    “Ponto,” he ordered as he came
    For Ponto was the lion’s name
    “Ponto,” he said with angry frown
    “Down sir, let go, put it down!”
    The lion made a sudden stop
    He let the dainty morsel drop
    And slunk reluctant to his cage
    Snarling with disappointed rage
    But when he bent him over, Jim
    The honest keeper’s eyes grew dim
    The lion having reached his head
    The miserable boy was dead
    When nurse informed his parents they
    Were more concerned than I can say
    His mother as she dried her eyes
    Said “It gives me no surprise
    He would not do as he was told.”
    His father who was self-controlled
    Bade all the children round attend
    To James’s miserable end.
    And always keep ahold of nurse
    For fear of finding something worse.

    Hilaire Belloc

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