Filhos dos que ficaram

Quando estive em Angola o ano passado pasmei-me com a grandiosidade daquela terra.

Penso no que terão sentido os nossos patrícios quando há séculos chegaram a estas terras, depois de viagens totalmente no desconhecido. Sem saberem ao certo se algum dia chegariam se algum dia regressariam.

Todos nós já pensámos muito nesta coragem lusitana, nem que fosse por obrigação escolar – nos heróis que foram. Nos que nos desenharam a distância. Nos que provocaram as lágrimas salgadas que criaram o mar. Nos que nos conduziram á saudade e ao destino tão fatal.

Foram-se embora homens bravos e deixaram-nos com saudades até hoje.

Intriga-me como é que este povo que somos foi capaz de uma audácia tão bem sucedida como a aventura dos mares nunca antes navegados e hoje se encontra tão afundado em dor. Do que foi feito de tal engenho, luta e bravura? Parece impossível que partilhemos da mesma cultura e que sejamos filhos desses que foram. Eles foram e não voltaram. Levaram outros e outras com eles mais tarde. Misturam-se e fascinaram-se com estranhos. Criaram novos mundos.

Ao passear com uma angolana branca com idade para ser minha mãe pelas ruas de Luanda, vi os restos de uma boa vida. Uma vida que de repente tive vontade de viver. Tive saudades de uma vida que não conheci. Que já não existe mas que se encaixaria bem numa cena de cinema americano, de uma qualquer década dourada – Talvez dos anos 50 e do seu conservadorismo promissor.

Pude ver sem medos, que fora deste rectângulo que tanto nos oprime, fizemos já grandes feitos. Promovemos grandes vidas e até arrisco dizer grandes países – Brasil, Angola, Moçambique são exemplos de uma grande potência.

Graças á nossa secular incapacidade de gestão, muitos ficaram em maus lençóis. Somos assim desde que os corajosos partiram em barcos e abandonaram o país. Bravura não faltou para ir. Mas faltou destreza e rigor para cuidar do que já existia e manter o novo mundo. Agora afogados falta-nos tudo.

Ao passear nas ruas de Luanda, nas cidades de Namibe, nas praças do Lubango – reconheço traços de uma cultura. Um cinema abandonado aqui. Umas bombas de gasolina dos anos 50 mais além. Um “School Bus” da década de 60 todo partido pelo tempo e onde já se expande uma flora diversificada. A calçada portuguesa descontinuada. As praças, as igrejas, as escolas, casas – tudo, ou quase tudo, ainda existe. Algumas apenas para contar história. Outras já recuperadas e em bom funcionamento.

Enquanto me passeio pelo tempo, consigo ver bem claro que somos filhos dos que ficaram. Dos que ficaram a chorar. Dos que invejaram novas vidas. Dos que nunca viram nada mas que julgam como se já tivessem feito tudo. Dos que se lamentam dos tempos gloriosos do passado, dos tempos difíceis do presente e de tudo e mais alguma coisa.

Ficámos com os passeios, com os nomes das ruas e com os cinemas em ruinas. Com o português falado pelo mundo cantado de várias maneiras. Quando estive em Macau, a senhora macaense que trabalhava nos correios vendeu-me selos e envelopes em português. Recentemente na India, vários foram os Indianos que me falaram em Vasco da Gama.

Viajar pelo mundo é ir desempacotando as caixas de cartão quando fazemos uma mudança: em cada caixa há sempre uma coisa qualquer que não pertence ali, mas que ficamos a olhar até nos perdemos na sua memória.

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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15 respostas a Filhos dos que ficaram

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Tocam-me duas destas tuas caixas de cartão.
    O meu pai foi dos que um dia partiu. Tinha uma vida razoável e algumas propriedades, mas queria mais, e eu julgo que era sonho, e partiu. Gosto de ver o meu pai alinhado com os que tiveram a coragem de partir.
    E depois há a segunda caixa, a da vida boa (por generosa) que souberam construir. Entre justiças e injustiças, as burrices e as canalhices que com a vida fazem cortejo, há uma caixa de cartão que vale a pena revisitar.
    Obrigado Sandra pelas caixas e sê, Triste, muito bem vinda.

  2. Sandra Barata Belo diz:

    Pedi licença à tia e já comecei a dançar.
    Uma dança tão triste…

    Fico contente Manel, que tenha caixas para contar. E por contar, talvez.

  3. Rita V diz:

    Nada como começar com uma bela tristeza ou … Sandra não tem aí nada mais triste?
    😛 Welcome!

  4. Maria João Freitas diz:

    Sandra
    Gostei de ser levada a passear entre as ruínas de um tempo e de um espaço que nunca percorri. As suas memórias guardadas em caixas de cartão também pertencem um pouco a quem as espreita.

    p.s. – se pudesse, colocava o comentário em postal no marco do correio vermelho da imagem

  5. Sandra Barata Belo diz:

    ainda bem que gostou Maria João! a ver se a levo mais vezes a passear!

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    uma peregrinação às peripécias da língua. delícia. e assim, você nos mata.
    bem-vinda, sandra!
    *
    p.s. — mas me diga, mr diga (e só a mim!) você é mesmo bonita como na foto (abaixo)? ou vai aí algum photoshop, maquiagem ou luz? puxa, custa crer…

    http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=288708100

    que bondade vida concede a certas pessoas. às pessoas certas, eu diria.

    ass. um filho que foi. ou melhor, tem ido por aí
    (e, inclusive, recém-ficou solteiro. just saying).

    • Sandra Barata Belo diz:

      fiz uma plástica há pouco tempo …
      muito obrigada pelos elogios!

      • Ruy Vasconcelos diz:

        de nada.

        e não me diga! foi mesmo?
        pego depois consigo o endereço desse monstro enluvado.
        e, veja, compartilho ardorosamente de sua filosofia: não há nada que não possa ser melhorado (ainda que, tenho certeza, só um pouquinho!) neste mundo de demasiados contratempos, lenhas, smartphones e pesares…

  7. Depois das flores do Ruy, que lhe hei-de dizer, Sandra? Gosto dos textos de viagem e o seu é um belo texto.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Viajei consigo sem sair do sofá. E que viagem! Senti o cheiro da terra após uma chuvada em que todo o vapor de água do céu desaba. Breve. Vi o encarnado da terra à chegada. Tive saudades de tudo o que não vi, mas vi.

  9. Sandra Barata Belo diz:

    obrigada pelo seu comentário Maria Do Céu!
    temos as saudades tão entranhadas que até temos saudades do que não sabemos.
    fico muito contente por lhe ter proporcionado uma viagem “tão económica” …

  10. Jorge António diz:

    Gosto do teu texto Sandra. Percebo as vidas e curiosidade que tens dentro das caixas que vais (vamos) desempacotando quando viajamos pelo mundo. E em relação a Angola, é claro que temos inveja de uma vida que não vivemos (por mais leituras e discussões exarcebadas que uma frase dessas possa suscitar). Mas viver é descobrir novas vidas e a coragem é saber desfrutá-las. P.s – gostei da tua plástica. Bjs.

  11. Que venham então novas aventuras aí da banda!

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