Gabinete de curiosidades

Quem não deixou um pouco da sua alma, em Campo de Ourique, na cave da Casa Pélys? Durante décadas, era aqui que se tiravam as fotografias para o B.I. e para o passe social, mas também para cartões de Boas Festas ou de Páscoa Feliz. Um dia, há muitos anos, a porta não se voltou a abrir, como se o dono tivesse saído para comprar tabaco e se esquecesse de voltar. Os dias e os anos foram passando e a montra manteve-se intacta, com uma pequena nuance. O bebé fotografado ao lado de um ovo gigante foi desbotando. O tempo amareleceu o sorriso das noivas (provavelmente, a vida fez-lhes o mesmo). O penteado do rapaz dos óculos foi ficando cada vez mais fora de moda, assim como os próprios óculos. A farda orgulhosamente exibida pelo jovem tropa foi ganhando rugas. Anos a fio, tudo ficou quase na mesma, porque as fotografias envelhecem muito mais devagar do que os seres fotografados. Sempre que passava na montra, perguntava-lhes o que era feito deles e à medida que não respondiam, foram-se transformando em fantasmas. Quantos ainda estarão vivos?

Há uns meses, a Helena e o Cláudio, dois livreiros que gostam de tudo o que esconde uma história, fizeram o que parecia impossível: convenceram o filho do dono da loja a abrir-lhes a porta deste depósito de memórias e transformaram o espaço num gabinete de curiosidades. Mantiveram o nome da casa ( Pélys tem a ver com uma história pouco interessante passada em África e que mete animais). Esperaram pacientemente pela conclusão das obras e foram trazendo caixotes repletos de livros, brinquedos antigos e curiosos objectos, que desde o primeiro dia se sentiram em casa junto do cartaz da menina da Agfa, das fotografias armazenadas em gavetas e dos rolos de negativos empilhados.

Aqui fica uma pequena lista com algumas das muitas curiosidades deste gabinete, onde nos sentimos no sotão da nossa infância:

Livro de leitura da primeira classe, com ilustrações de Maria Keil e Luís Filipe Abreu

Caixa de lápis de cera para clima tropical

Bilhetes da TAP com talão de excesso de carga

Baralho de cartas com pin-ups

Diversos números da Crónica Feminina

Livros da Anita, para as meninas

Máquinas de escrever Hermes Baby e Contessa

Exemplares da revista erótica francesa Plexus, dos finais dos anos 60, para maiores de 18 anos

Tinteiro Cisne com tinta verde

Mala de piquenique parecida com as que aparecem nos filmes a preto e branco

Despertador azul céu que ainda dá as horas e acorda

Jarras e candeeiros da Secla

Yellow Submarine, single dos Beatles

Cinzeiro em cerâmica da TAP

Calendário perpétuo com a bandeira inglesa

Jogo Vamos ao Supermercado, da Majora

Serviço de chá para bonecas

Torradeira a sério

Binóculos que já viram e ouviram a ópera no São Carlos

Cartas de Amor para namorados, daquelas que vão como setas direitas ao coração

Telefone em baquelite cor de champagne

Livro francês de receitas de cocktails e bebidas refrescantes dos anos 50

Caixa de pó de arroz Tokalon por estrear

Frasco de Bien-Être com 58 gotas de perfume

O Meu Primeiro Livro de Cozinha, da Verbo

Aventuras do Grichka, para os meninos

Lata de chocolate Toddy

Dicionário de Esperanto com gramática incluída

Manuais de fotografia para amadores

Catálogo de exposição de Arpad Szenes na Gulbenkian, assinado pelo pintor

Plantas de construção do Hospital de Santa Maria

Caixa de chapéus com chapéu

Livro de taxidermia com um insecto espalmado entre 2 folhas

O Lobo das Estepes, de Herman Hesse, edição Livres de Poche

A Gata, de Colette, Estúdios Cor, com capa de Paulo-Guilherme

Guia para amantes de gatos dos anos 20

Antologia do Conto infantil ilustrada por João da Câmara Leme

O Desconhecido do Norte Expresso, de Patricia Highsmith, Colecção Vampiro

Ventoinha que dá vento

Mala de mão do tempo da bisavó

Garrafa térmica com padrão vermelho escocês, que já se reformou

Cassette VHS (ainda fechada) com entrevista de Bernard Pivot a Marguerite Duras

Caixa de talco Ausonia

Atlas Escolar de João Soares

Viewmaster com filme da Branca de Neve e os 7 Anões

(…) entre muitas coisas mais, que pareciam desaparecidas do sotão da nossa memória. Pequenos mundos passados contidos no nosso presente, graças a este gabinete de curiosidades.

Casa Pélys – Books and Vintage
Rua Tomás da Anunciação, nº 62 B/C  1350-330 Lisboa
Telefone (é daqueles pretos de parede, com toque antigo): 213 887 408
Horário: Terça a Domingo: 10 h > 20h

 

 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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18 respostas a Gabinete de curiosidades

  1. Eduardo Homem diz:

    Escrever é triste, porque o passado passou. Ia a dizer que a ficção científica tem por tema o futuro, mas logo compreendi que esse futuro é inevitavelmente uma projecção do passado. Era uma vez…e aí temos a tristeza, a nostalgia a conduzir a escrita. A nossa casa da infância é uma Casa Pélys.

    • Maria João Freitas diz:

      Olá, Eduardo. Que surpresa e que gosto, lê-lo por aqui. Tenho pensado muito por que motivo nunca fui grande adepta da ficção científica. Parece que ela se comporta como se a memória não contasse, esquecida de que será sempre uma projecção desta no desconhecido.
      Tem razão, é o era que nos torna tristes. A nós e a todos os objectos com histórias.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    O Grichka! Um dos meus heróis preferidos!…

    • Maria João Freitas diz:

      António, estão lá uns poucos de livros do Grichka na cave, na enorme estante dedicada às leituras da infância, com o toque inconfundível daquelas edições com capas de papel forte e mate, da Editorial Notícias.

  3. Rita V diz:

    Uma capa do Paulo Guilherme! Alguém se lembra do espectáculo que ele montou em Cascais, Cabaretíssimo? Oh! E de tantas outras coisas.
    http://aventar.eu/2010/10/10/paulo-guilherme-deca-leal-1932-2010/

    bem trazido Maria João
    tudo

    • Maria João Freitas diz:

      Rita, imagine que o Paulo-Guilherme (tem mesmo hífen, fui confirmar na capa de A Gata, onde o nome dele surge de lado, assinando a bela ilustração) morava em Campo de Ourique (desconfio que ele também deixou um pouco da sua alma na Casa Pélys) e me cruzei com ele muitas vezes, sem nunca ter metido conversa com ele.

      • Rita V diz:

        É um lugar comum dizer que ele era um cidadão do mundo, muito especial. Tive a sorte de o conhecer numas férias de Verão nos anos oitenta. Recomendo o livro «O Dilúvio de Quéops
        Novas Comunicações Sobre a Esquecida Ciência Egípcia» , um livro muito especial.

  4. Pedro Lupi Caetano diz:

    Eu ainda tenho um livro do Gri­chka bem guardado para ir recordando os tempos em que escrever não era triste.

    • Maria João Freitas diz:

      Pedro,
      Nesses tempos, ler era feliz. Felizmente ainda é assim, com outros livros nas mãos, ou na recordação desses. Lembro-me que em criança não acreditava que um dia já não ia querer ler Os Cinco, o Tintim e o Sandokan. Talvez não acreditasse que ia crescer..

  5. manuel s. fonseca diz:

    Maria João, mas que post tão bonito. Temos de ir lá pôr à venda as nossas Hermes baby… eu, como quem não quer a coisa, ainda compro o baralho de cartas com pin-ups.
    E não me parece nada que a história em Áfricaq que mete animais seja assim tão desinteressante… Venha de lá um segundo post.

    • Maria João Freitas diz:

      Manuel, a eventual beleza do post decorre da tristeza disfarçada que os objectos trazem consigo, lembrando-nos quem já não somos (ou nunca fomos). Já sabia que o ia deixar com a pulga atrás da orelha, com a alusão a África… Amanhã prometo ir à Casa Pélys pedir para me explicarem de novo o era uma vez do nome e vir a correr contar. Mas duvido que dê para um post…

    • Maria João Freitas diz:

      Manuel, a história é tão pequena que coube no bolso das minhas calças de ganga e conta-se em poucas linhas: um dos sócios do fundador da casa costumava ir a África fazer caçadas, e no regresso trazia as peles dos desgraçados animais. Como tinha uma pronúncia esquisita, chamava-lhes pêlis, e alguém decidiu substituir o i por um y e baptizar assim a casa de fotografias que, é certo, fotografava peles humanas, mas em busca da revelação da sua alma.

  6. O antigo é vintage, o vintage é desejado pelas pessoas. Não posso deixar de pensar no vocalista dos Heróis do Mar, (também vintage), a vender conservas, (algo vintage), na Praça do Comércio.

    Algo ainda mais antigo, música cajun:

    • Maria João Freitas diz:

      táxi pluvioso,
      Esse espaço de que fala, o Can The Can, do Rui Pregal da Cunha, é delicioso. E só podia ser de um herói do mar como o Rui.Aconselho-o a todos os loucos por atum e outros petiscos vindos do reino de Neptuno.

      • Pois é, mas a abertura fácil matou as latas de conservas. Quando tínhamos que não nos esquecer da chave ou colocá-la na posição correta, ou ficávamos atirados na nossa iniciativa para alcançar o interno manjar. Manjar mais delicioso, porque fruto do suor do rosto, calos nas mãos e trabalho do cérebro. Agora é só puxar e já está emborcado no prato, perdeu-se a poesia e a possibilidade de não se conseguir abrir a lata.

  7. E logo no “meu bairro”, o Grichka que andei anos à procura….que belas memórias e curiosidades….

  8. Carla L. diz:

    Que delícia de descoberta!!! Meus livros da Anita não sei aonde foram parar, mas o View­mas­ter ainda tenho aqui, na cor beje e com os disquinhos do Robin Hood.

  9. Teresa Conceição diz:

    Maria João, que bom ter trazido tantas coisas boas para este nosso canto.
    É uma lista abre-memórias, abertura nem sempre fácil.
    E a história das pélis é muito engraçada. Há bolsos de calças com sorte.

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