Ilda David

Não sei, nunca saberei falar da estranha arte a que a Ilda David se dedica. Sei que a Ilda me encheu a casa de bichos. Tenho em casa um elefante e um comprido focinho de lobo (ou será um raposinho?) que não me saem da parede. Atrás dos bichos, uma linha de serras europeias em África. São quatro pequeninas telas em que se alinham cinzentos matinais, cores-de-rosa e laranjas, talvez roxos, brancos que o fim de tarde sujou.
Para quem sabe e pode, deve ser exaltante invocar Heidegger, Nietzsche, para se falar de um pintor, de Ilda David, por exemplo. Não sei nem posso. Olho, com esta minha tristeza de Triste, e parece-me que a pintura dela vem de uma floresta de faunos e deusas, Diana e corças. Aliás, a memória física que tenho de Ilda David é sempre a de a ver entre as árvores. Um floresta encantada, por vezes. Outras vezes, uma convulsa floresta de tempestade. Da floresta, diria, romântica, não andasse o conceito tão estragado e mal servido, à míngua de ventos uivantes.

Às vezes pode segurar-se a Ilda numa só mão: ela vem nas ilustrações de um livro. Ponho-me a pensar, mas que Ilda terá desenhado estas ilustrações que a Ilda desenhou? Sei que estou enganado, mas parecem ilustrações de uma menina alimentada a Carroll, poetas e mitos. Muita, mas não toda a pintura dela, é pintura de era uma vez. Traz fragmentos de histórias, se por fragmento entendermos só um bocadinho de um fragmento, como se um braço representasse melhor um corpo do que um corpo, ou uma arqueada sobrancelha fosse mais rosto do que todo o rosto, uma gota uma fonte, um caule toda a árvore.

Há outra pintura da Ilda David que é de uma menina de mão chinesa. Tem muitos traços delicados, uma instável textura que não sabemos se está a formar-se ou já a desagregar-se.

Por ser muitas coisas, pode ser também uma pintura de lugares sombrios. Mesmo quando se suporia haver muita luz, há uma névoa que corta os brilhos. É uma pintura de anjos, de homens e de animais e já vi, numas Tábuas de Pedra, um céu vermelho, tão vermelho, que talvez não seja o céu.

Céu azul, sim, é o que, lá em cima, a Ilda é agora, no Escrever é Triste. Escrevemos nas nuvens.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Ilda David

  1. Maria João Freitas diz:

    Depois de ficar nas nuvens com o texto do Manuel, apetece mesmo ser nefelibata no céu da Ilda David.

    • manuel s. fonseca diz:

      Maria Jão, é ou não é bom ser Triste? Que sorte que temos a Ilda ter-nos dado o céu.

  2. Teresa conceicao diz:

    Ainda bem que não trouxe filósofos para esta conversa, Manel. Ficamos tão mais bem servidos com este seu voo por florestas de ninfas e faunos, dianas e alices. Gostava de aprender a voar consigo, para saber bemvoar nesta magni’fico céu de Ilda David. Que sorte que no’s temos.

    • manuel s. fonseca diz:

      Teresa, se há alguém que entre nós saiba, como a Ilda, andar em florestas, és mesmo tu. A sorte que nós temos.

  3. Rita V diz:

    O texto é de ficar nas nuvens e o nosso cabeçalho lembra-nos tão bem a tristeza de ser triste.
    Obrigada Ilda David por ‘enBluar’ o nosso céu e obrigada Manel pela calote de palavras que o protege.

    • manuel s. fonseca diz:

      Rita, se temos, e temos, de agradecer a alguém, é a si que pensou, engendrou (engendrar é uma linda arte) e persistiu na escolha dos artistas que já por aqui passaram e, também agora, convidou a Ilda de que eu muito gosto.
      Thanks minha querida parceira.

  4. Ana Vidal diz:

    Lindo, este céu azul-Triste! E o seu belíssimo texto, Manuel, prova de uma vez por todas – se é que alguém tinha dúvidas – que as palavras têm cor. Obrigada a ambos por tão elevadas sensações que nos deixam aqui, onde escrever pode ser triste, mas é de uma tristeza luxuosa.

    • manuel s. fonseca diz:

      Ana, pintar como pinta a Ilda é a coisa mais baudelairianamente Triste que se pode felizmente encontrar. E que bom sentarmo-nos um bocadinho consigo.

  5. Apre, q bem escrito! Ler um texto destes é como extasiar com um prato sublime. Complimenti.

    • manuel s. fonseca diz:

      Tamborim, de tão bem pintado lá em cima é mais fácil escrever cá em baixo.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Não sei se sabes mas sou um bocado fanático pelo Azul (a sério!…)
    E também adoro florestas, talvez conseguisse sobreviver numa com muito pouca coisa – acho que sim.
    O novo banner com que a Ilda David tão generosamente nos brindou só podia ter um texto destes a estreá-lo.
    Parabéns aos dois!
    E obrigado, claro.

  7. manuel s. fonseca diz:

    you’re right man, a Ilda foi generosa connosco nos azuis.

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