Isto está preto

Aqui deixo um texto todo em preto
só sombra, negrume, trevas sem luz.
Escuro como breu e em forma soneto,
um soneto enfiado num capuz.

Interior de caixão, cárie, bemol,
buraco de furão, carvão num silo,
cor de entranha onde não brilha o sol,
tão preto como o sovaco dum grilo.

Preto de nuvens pretas, depressão,
e por isso se diz neste soneto
muitas e repetidas vezes, preto.

Preto como… sem qualquer solução.
Cor do futuro visto do presente
independentemente da geração.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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24 respostas a Isto está preto

  1. o futuro vira uma mancha de Rorschach e este poema legenda-nos. Ao nosso futuro, digo.

    • mariabrojo diz:

      Dizem o negro a cor que reune todas. Por isso rica, impressiva. Na pintura é acusada de facilidade inaceitável. Discordo. Todo o arco-irís que contém explode nas telas e nas palavras.

      • Pedro Bidarra diz:

        Na verdade o preto absorve toda a luz. Mas o melhor do preto é o buraco negro, Uma estrela com uma densidade tal cuja força impede até a luz de sair da sua orbita. É esse o buraco negro do pessimismo

    • Pedro Bidarra diz:

      Sim, ao nosso futuro que o preto não passa de moda

  2. GRocha diz:

    “Preto como quando não há solu­ção. Cor do futuro visto do pre­sente inde­pen­den­te­mente da geração.”

    Pedro, esta visão é demasiado crua…. mas tenho de concordar consigo!
    O presente é preto e do futuro não se vislumbra côr alguma 🙁

  3. Marta Elias diz:

    Não há preto mais preto que o deste soneto. Ainda bem. Daqui para a frente é só abrir janelas, persianas, frinchas, pálpebras e deixar a luz continuar a história.

    • Pedro Bidarra diz:

      Faltava aqui um comentário luminoso e optimista, um comentário sorridente. Obrigado

  4. Pedro Lupi caetano diz:

    Um artista, Pintor português, chamado Tomás Cunha Ferreira, tem uma série de pinturas com frases escritas. Uma delas diz” STARTING FROM BLACK OR FINISHING WITH IT”. Do preto pode-se sempre começar alguma coisa… e eu tenho esse quadro em minha casa, para que sempre que a coisa esteja preta, sei que posso escolher entre o começar e o acabar.

  5. Astrid diz:

    Preto é o agora, não sei se estarei no amanhã. Este soneto exarceba o meu lado gótico…até me dá ganas de morder o pescoço do autor. Delicadamente, acrescento.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Esta´um tempo escuro que só pede sonetos. Talvez, também, uma elegia.

    • Pedro Bidarra diz:

      Tenho algumas na gaveta. Um dia destes brindo os tristes com uma tristeza verdadeira

  7. blimunda diz:

    o preto foi sempre a cor da minha roupa desde os tempos em que punk gritava no future e não há pão pra malukos. nasce-se com uma asa de corvo encostada e assim se vive, mesmo nos intervalos das crises. ” toda a paisagem não está em parte nenhuma” como diz o pessoa…

    • Pedro Bidarra diz:

      Como disse mais acima, o preto nunca passa de moda. Volta sempre e cada vez mais preto

  8. Maria Lima diz:

    …aqui deixo o branco duma fe lavada…sorriso aceso, na cinza negra dum ontem nao negro…talvez tao so cinzento azulado, cor do ceu, antes da aurora!

  9. Maria diz:

    “No escurinho do cinema
    Chupando drops de anis
    Longe de qualquer problema
    Perto de um final feliz…”

    • Pedro Bidarra diz:

      A não ser que seja um filme
      Dos tristes com pouca luz
      Onde tudo é muito feio
      Cheio de chagas e pus

  10. Tão preto, ohh Pedro, que as palavras fazem sombra…

  11. uhm! mesmo a precisar de uma supernova
    😀

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