Little Wing

O espírito idiossincrático de um génio que morreu antes do seu tempo. Negro, como só alguns podem ser, de anos passados  em estágios de campos de algodão molhado nas dores da vida.

Uns vibrantes acordes, a raspar o céu, um “blues” celeste. É o que é a introdução majestosa, antes de se adiantar a voz…

A guitarra ressoa por um amplificador de órgão, a distorção perfeita, num trio que parece ser orquestra.

Um texto caótico,  “butterflies and zebras and moonbeams and fairy tales…”, como numa simples história para crianças.

O solo melódico, translúcido e prístino, mas agreste.

Tudo isto e muito mais é “Little Wing” uma das grandes invenções de Hendrix, que para nosso bem estar foi gravada em várias versões e copiada centenas de vezes…

Aqui fica uma do mestre,

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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9 respostas a Little Wing

  1. Boa B.
    Voodoo child a minha favorita

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    e ficou bem depois das suas breves palavras.
    arrasto uma asa por ‘purple haze’.

    • A primeira vez que ouvi Purple Haze foi no filme woodstock, onde entrei miúdo e saí deslumbrado adulto….aquilo vinha do espaço….por isso é mesmo muito difícil catalogar Hendrix, quase tudo é muito bom…gostei do “arrastar uma asa”, bela expressão que fica bem ao mestre, um verdadeiro “anjo negro” da música…

  3. mariabrojo diz:

    ‘Blues’ é paixão que não desminto. Hen­drix outra no mesmo. Muito bom este presente.

  4. mariabrojo diz:

    Nem calcula o ror de tentativas feitas para botar «faladura» escrita num comentário. Comecei de manhãzinha. A ideia era aproximadamente esta: “Blues é paixão que me embriaga, Hen­drix outra do mesmo”.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Obrigado, Bernardo.
    E vá lá, há alguma coisa mais intensa do que o Hey Joe dele? E se formos à destrunfa com àlbuns tenho ali, guardado há um século, o “Electric Ladyland” a mais absurda coisa boa que um gajo pode ouvir.

  6. Hey Joe ao vivo no Olympia em Paris, 1966 ……Eletric Layand e Room Full of Mirrors inimitáveis…

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