O fruto proibido

 

É muito perturbante o desafio de escrever sobre esta imagem que me acorda memórias que eu julgava adormecidas para sempre. É que em 1976 eu conheci a Lucy e o seu companheiro dentro de uma gruta que ficava nos baldios que então havia entre Chelas e o Areeiro. Vinham de Amesterdão e eu nunca os tinha visto antes: nem no liceu, nem nos Olivais.

A primeira memória é sensorial, dos padrões do xaile de Lucy que durante horas, 24 para ser mais preciso, não me saíram da cabeça, ou melhor, dos olhos. Cada pequeno elemento daquele padrão era como um pedaço de vidro colorido às voltas dentro de um caleidoscópio, uma espécie de filtro através do qual vi o mundo durante horas a fio até ao ponto de já não ver mundo e apenas ver padrões. O filtro da realidade tinha passado a ser a realidade propriamente dita. Quando o caleidoscópio parou começaram os efeitos especiais que desaguaram na paranóia que teve o seu pico quando fiquei deitado na cama a falar comigo mesmo; eu sentado na cadeira da escrivaninha e deitado na cama em simultâneo. Não era uma coisa mental, ou melhor era, mas a sensação era muito real, com nitidez de efeito especial dos bons, daqueles premiados pela Academia.
O mais vívido dos efeitos especiais foi no autocarro, o 10 que se apanhava no Areeiro até aos Olivais e que era verde de dois andares e porta aberta atrás. Depois de ter deixado a gruta – por um triz não estive presente quando a judiciária a tomou de assalto e levou os que restavam para o calabouço até serem presentes ao juiz – e andado até ao Areeiro pelo meio de baldios alegres e coloridos ao som do Soul Sacrifice de Carlos Santana, apanhei o 10 de volta aos Olivais e sentei-me no segundo andar. O autocarro estava quase vazio. Agarrei-me à pega metálica do banco da frente e comecei a olhar para as minhas mãos que não pareciam as minhas mãos. Estavam inchadas, sapudas e iam aumentando. Quanto mais olhava para eles mais elas aumentavam como se a minha atenção as fizesse engordar. Tirei os olhos delas e olhei para a fila de assentos vazios à minha frente. De imediato começaram a mover-se na minha direcção chegando-se mais a mim num movimento que acabaria, inevitavelmente, por me esmagar. O banco à minha frente começou então a apertar-me até que o meu externo deu de si. Os ossos começaram estalar e o ar foi-se dos pulmões. Quis mexer as pernas, sair dali, mas estavam presas, prensadas entre os bancos. Sem conseguir mexer-me olhei para cima onde estava uma campainha vermelha e redonda à volta da qual rodopiava a frase “”There must be some kind of way out of here”. A música tinha mudado. Ouvia-se Hendrix na minha cabeça. Toquei na campainha e os assentos voltaram ao mesmo sítio. Saí e não me lembro de ter andado nem do caminho que fiz. Só lembro de estar deitado na cama a falar comigo mesmo, sentado na cadeira ao lado da escrivaninha, durante oito horas. Aparentemente eu era dois.
Tudo isto aconteceu depois de ter conhecido Lucy e o seu companheiro na gruta.

A ida à gruta tinha sido combinada uns dias antes, à boca pequena, entre todos os freaks do liceu e arredores. Entre Chelas e o Areeiro havia só baldios; a gruta era o sítio certo para passar um dia OUT.
O consumo de drogas na época era uma actividade de cariz iniciático, com uma sucessão de rituais e patamares para os adolescentes mais intrépidos. Começava-se no boi e, quando se conseguia controlar as mocas (e que mocas) passava-se ao ácido e daí ao topo da pirâmide com o chuto. Nem todos lá chegavam, felizmente. Mas a droga era principalmente o boi, a boa erva que vinha de Angola e Moçambique e que os nossos queridos e repatriados compatriotas traziam. Muitas vezes fui com amigos ao aeroporto abordar a boa gente que vinha de lá: “Tens boi” perguntávamos aos que chegavam, meio atarantados, à Portela. Quando alguém dizia que sim esperávamos por ele encostados à Gilera amarela. Era grande o sentido de impunidade talvez por crescermos no meio de uma revolução; tempos de grande lata. Ser-se adolescente durante uma revolução é uma experiência perigosa mas também enriquecedora e criativa. Fica-se, para o bem e para o mal, com a sensação que tudo é possível, que está tudo em aberto que só há futuro; não há presente nem passado. Foram tempos inesquecíveis para aqueles que conseguiram, apesar de tudo, manter a funcionar a parte do cérebro responsável pela memória.
Quando fui à gruta só fumava boi mas sentia-me pronto a passar para outro estádio. Já tinha bebido uns chás de erva do diabo, alucinado ao som do Dark Side of the Moon e de muito Hendrix e sentia-me por isso preparado para a viagem. No entanto não tinha planeado nada, nem levava nada comigo. A coisa aconteceria quando tivesse que acontecer, quando o cosmos me fizesse chegar às mãos a tal dietilamida do ácido lisérgico.
Foi o que aconteceu na gruta. O cosmos mandou-me Lucy e o seu companheiro que me disse “Hey Oscar, take an orange”. E eu tomei.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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15 respostas a O fruto proibido

  1. blimunda diz:

    🙂 isso é que foi uma lucy in the sky with diamonds… nós era mais os bungalows da orbitur da caparica…

  2. Quem diria que a Lucy tinha vindo de Montmartre para Chelas. E aviou bem o narrador: já não me lembrava do quarto encolher e o corpo crescer até já não caber e, vice-versa, do quarto e a cama crescerem tanto que o corpo fosse só um átomo.
    GRande banda sonora, Pedro.

    • Pedro Bidarra diz:

      E ainda é mais extensa: Doors, J. Joplin, Stones… tudo ouvido num gravador de cassetes mono.

  3. Ivone Costa diz:

    Ora bem, grande história e respectivo acompanhamento, Pedro.

  4. Maria diz:

    Estes padrões geométricos, em sequências repetidas até ao infinito sempre me encantaram …

  5. vertiginoso, uma curta de museu com prémio.

  6. Pedro Bidarra diz:

    A 24 hour vertigo

  7. fernando canhão diz:

    Sempre que me sentava no piso superior do 27, agarrar a pega metá­lica do banco da frente era uma acto compulsivo. Manter a mão agarrada com alguma elegãncia é que se tornava dificil. Ou se ficava com mãozinhas infantis, lado a lado, ou crispadas como um idoso carenciado. Julgo que se passaria o mesmo com uma bengala.

    • Pedro Bidarra diz:

      Na época não havia germofobia. Punha-se a mão em todo o lado

      • fernando canhão diz:

        Sou oriundo da industria pesada. Sempre lavei cuidadosamente as mãos antes de entrar num urinol. Depois ao sair depende da companhia.

  8. Maria João Freitas diz:

    Pedro,
    Mas que grande viagem… E pensar que a Lucie e o seu partner estão tão sossegados e sérios em São Petersburgo, enquanto a tua imaginação nos leva de delírio em delírio.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Que história! Que tela acabou de pintar rivalizando com a da ilustração! Motivou-me a pintar telas pintadas.

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