Paralelipípedos

 

 

O cheiro a maresia lembra-me sempre os paralelepípedos molhados de Alfama.

Aquele chão negro, húmido, brilhante da água que escorria das bancadas do peixe da rua de S. Pedro – Alfama cheirava a maresia.

Todos os sábados de manhã da minha infância o mesmo ritual: ir lá acima às compras com a minha mãe.

Começávamos no talho, que estava sempre à pinha. Ainda me conseguia entreter a olhar para o coelho esfolado durante alguns segundos mas o cheiro deixava-me muito mal disposta e a minha mãe dizia para esperar lá fora. O Sr. Zé guardava a carne que a minha mãe escolhia e no regresso para casa passávamos por lá para a levar. Às vezes calhava-me a mim essa tarefa enquanto a minha mãe ia comprar num instante alguma coisa esquecida. Lá tinha eu que enfrentar de novo o olhar do coelho esfolado e o cheiro que me dava vómitos. A minha mãe dava-me uma laranja, das que já tínhamos comprado, para eu descascar e não sentir o cheiro. As mulheres, que esperavam a sua vez no talho, olhavam-me de lado e diziam abanando os ombros o pescoço – “Esquezitinha!”

Descíamos a Rua dos Remédios e passávamos pela confusão do peixe. A minha mãe só o comprava no regresso, para o peixe não ficar todo amassado. Continuávamos assim pela calçada até chegarmos à menina São, mulher feita e rouca que vendia fruta e hortaliças. Por ser para nós estava tudo sempre “bem pesado” e de preços arredondados – “é por causa dos trocos, filha”. Seguíamos com a minha mãe desconfiada a balbuciar umas coisas que eu não entendia lá muito bem. Parávamos mais à frente nas flores. A maior parte das vezes, a minha mãe escolhia cravos. Brancos. Tinha ficado farta dos vermelhos. Normalmente quem vendia flores, também vendia limões, ou laranjas. O burro também costumava estar por ali parado com a carroça. Não me lembro ao certo do que o senhor do burro vendia, hortaliças, provavelmente. Mas sei que me entretinha a dar-lhe cenouras. E ele comia. O Jaime do peixe estava logo no final desta rua estreita das flores, já como quem entra em S. João da praça. Ele fazia boicote à rua de S. Pedro e vendia o peixe numa motorizada. A minha mãe preferia comprar o peixe à mulher dele em S. Pedro, vai se lá saber porquê. A mulher dele era a mais jovem e bonita das peixeiras. Tinha pele branca aveludada e olhos pretos rasgados. Eu tinha muito gosto em vê-la amanhar o peixe.

Em S. João da praça, vendiam-se muitas coisas e havia muita azáfama matinal. Como o próprio nome indica a rua abria em forma de praça. Vendia-se de tudo um pouco, mas a roupa interior e de casa predominava nesta zona do bairro. Uma das minhas camisas de dormir veio do estendal onde uma das vendedoras pendurava, cuecas, camisolas interiores, camisas de noite…

A primeira vez que vi um judeu, também foi em S. João da praça. Vi-o por lá várias vezes. Não sei se estava acompanhado. Os homens judeus, aos olhos de uma criança, dão muito mais nas vistas que as mulheres.

-“Porque tem aquele homem as barbas tão grandes, mãe?” – “Porque tem uma religião diferente”. Pensei que certamente não era amigo de Jesus e que essa seria a razão pela qual se vestia de preto. Jesus também não devia gostar muito dele.

Já com a alcofa cheia voltávamos para trás e parávamos no peixe. Era um dos meus momentos preferidos. Aí sim, a agitação era mais que muita. Todas as mulheres queriam o peixe mais fresco e se não tivesse sangue na guelra e olhos de vidro nem olhavam. A minha mãe costumava comprar ou à Feliciana ou à mulher do Jaime. Ela lá devia ter os seus critérios porque a escolha era difícil -porta sim, porta sim, na rua de S. Pedro havia uma bancada de peixe. As peixeiras eram todas muito desembaraçadas, roucas e todas usavam bastante ouro. Cordões ao pescoço, anéis e pulseiras que, misturados com o vermelho do sangue davam a sensação de poder. Como se não bastasse, os bolsos dos aventais estavam cheios de notas. – “São ricas” – pensava eu.

Elas não se calavam nunca. Tinham resposta para tudo. Negociavam com as freguesas, davam bocas à vizinha do primeiro andar, raspanetes aos filhos e mandavam o marido dar uma volta – “deixa-me trabalhar, pá!” isto tudo enquanto escamavam o peixe. Enquanto lhes arrancavam as guelras. Por toda a parte havia escamas. Saltavam em todas as direcções, à semelhança de um fogo de artifício. Eu tinha uma certa tendência para ficar a olhar para os bichos. À semelhança do coelho no talho, aqui fascinavam-me os peixes. A curiosidade em tocar neles era mais que muita. Mas antes de lhes levar a mão aos olhos já levava com a da minha mãe em cima. – “Tá quieta Sandra!” restava-me ficar sossegada a observar aquele oficio e pensar: -“Quando eu for grande quero ser peixeira.”

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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17 respostas a Paralelipípedos

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Sandra, o que é que tu trouxeste hoje? Uma dúzia de sardinhas e um robalo? Tenho de começar a ir ao mercado contigo: quero ir ver esfolar coelhos no talho e comprar ceroulas na desembaraçada corda da tua lingerie. Mas que bela caminhada: nem sei se riem ou se choram os teus paralelípedos.

  2. Frescas e cheirosas, as memórias, porque estão vivas nas palavras, mesmo com coelhos esfolados…

  3. Sandra vou acabar uma coisa que ando a fazer. Nem de propósito. Depois aviso.
    😀

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    agora, sem brincadeiras: o texto, simples, sinestésico, é um vivo cromo de infância, esse país onde a intensidade de tudo seria insuportável, se não tutelada por uma razão posterior. e, então, mais que suportar a visão e o cheiro do coelho esfolado, é necessário acolhê-los.
    ainda hoje.
    “oh, abre os vidros de loção/ e abafa/ o insuportável mau cheiro da memória”, diz drummond.
    aliás, esse desafio de encarar ou não o escatológico – na forma do olhar de um coelho morto – está também no ‘journal d’un curé de campagne’, de bernanos. e depois dele no filme de bresson.

    p.s. – e, sem embargo, tenho certeza que se a menina sandra ainda deseja ser peixeira, fará estrepitoso sucesso entre os piscianos brasileiros. detalhe: sem ficar rouca.

  5. mariabrojo diz:

    Maravilhosa viagem num tempo que foi meu noutro lugar. Um destes dias, brindá-la-ei com caminhada noutro espaço: o rural.

  6. Maracujá diz:

    A beleza pura na simplicidade das suas palavras, cara Sandra. Fez-me recordar a minha infância também, por sua vez bem mais a norte, numa cidade piscatória onde um cenário idêntico poderia ser descrito, com a adjuvante de podermos assistir à xávega e comprar o peixe acabadinho de sair do mar, assim mesmo! Obrigado por esta terna recordação.

  7. Tiago Lima diz:

    Soa familiar pela descrição, apesar de desconhecer Alfama fisicamente.
    Gostei, ficarei atento ao blogue.

  8. A menina por acaso não se chama Amália? Podia ter sido ela a escrever isto, no rasganço infantil de há setenta anos. Benvinda a menina Sandra, pois.

  9. Olinda diz:

    por cá, pelo norte, ainda há muitos desses – e que felizes são por serem calcados tanto na ida como na volta. porque amanhar o peixe fresquinho não é triste. e como sabem eles, ai!,os da calçada portuguesa, disso.

  10. Luis Dias diz:

    Eu também não gosto de ver coelhos esfolados, mas agora, para mal dos nossos pecados, estamos a ser esfolados por um coelho!

  11. Pedro giro diz:

    Para entendermos de facto os momentos verdadeiros de felicidade, por vezes temos que estar e ser tristes.

    http://reflexoesdispersas.blogs.sapo.pt/
    Visitem!

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