Quando o miúdo aqui ao lado for à lua

 

Há dias, morreu o primeiro homem que, por tê-la pisado, viveu na Lua. No passo dele, primeiro passo de um homem, tão diferente do passo lunar que Georges Méliès no começo desse século filmara, morreram sonhos, nasceram sonhos. E nasceram histórias, lendas, mentiras, tremendas polémicas, como a que o meu inteiro bairro de Luanda teve contra o obstinado taxista da rua Fernando Pessoa que negava a plausibilidade da coisa. Eram, mentiras, lendas, ilusões e eu tive várias, todas mais  bonitas do que o raio da verdade.

A verdade não tem, desgraçadamente, graça nenhuma. Já lá vou à inóspita objectividade: deixem-me antes contar-vos uma história.

Quando Neil Armstrong pisou pela primeira vez a lua, para além da famosa frase “one small step for a man, one giant leap for mankind”, o astronauta acrescentou, quase em surdina, como se falasse só para o vizinho do lado: “Good luck, Mr. Gorsky!

E estava mesmo a falar com o vizinho. Quando era miúdo, Neil ouvira Mr. Gorsky, o vizinho, implorar a Mrs. Gorsky um estranho favor que a senhora rejeitou, sem apelo, com um “sexo oral? queres? só quando o miúdo aqui do lado for à lua”.

Vivi anos na crença sólida de que a história era verdadeira e que Armstrong a contara num encontro com jornalistas em Tampa Bay, já lá vão 15 anos. Descubro, aqui e agora, que tudo foi magnificamente forjado, com pormenores de conferência de imprensa, datas, nomes de vizinhos e afins (apetecia-me antes dizer, assins), por “net con-artists”, ou seja, e em razoável português, por “manipuladores da rede”. Odiei saber a verdade. E pensei que já não voltaria, nunca mais, a olhar para a lua com a mesma sonhadora ternura.

Mas agora que Armstrong morreu, quer dizer, se dispersou em fina poeira na vastidão cósmica, estou certo de que a verdade pode ser relevada. Mr. Gorsky e Mrs Gorsky, onde estiverem e quem sejam, vão agora voltar a ouvir o jovem e audacioso astronauta dizer: “Now, it’s up to you. Good luck Mr. Gorsky.” E a honestíssima Mrs. Gorsky, com um sorridente “o raio do miúdo, ah“, cumprirá a velha promessa.

Mr. e Mrs. Gorsky estão talvez no céu, dizem-me. So what? Se não é isso o que se faz no céu, para que é que queremos o céu!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

12 respostas a Quando o miúdo aqui ao lado for à lua

  1. «Se não é isso o que se faz no céu, para que é que que­re­mos o céu!»
    – Para gozar a Lua Azul de hoje, Mr. Fonseca.

  2. fernando canhão diz:

    Lua no céu, 1983, 19:30, Estaleiro naval, 350 DWT Tanker vessel, Portugal, salários em atraso, Toyota Corolla quase pago.
    Tripulante filipino entusiasmado, com possível desempenho viril de operário metalúrgico, grão com bacalhau, e um ovo, ao jantar na cantina da empresa.
    – You Sir, you come to my cabin, I will give you two bottles of Whisky.
    Olhadela ao Casio preto, 19:32, 10 minutos antes de na cantina ser a confusão. Num estaleiro a pederastia activa vale o que vale. 10 minutos são 10 minutos, hence, no time any kind of fake sexual intercourse.
    Rather surprised Filipino claiming – Oh, No good, no good, stop, stop!
    A honestidade e competência profissional acima de tudo, estamos em Portugal.
    – No good, uma porra, agora vais ter de o goodir.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fernando, estou eu a falar da Lua e o meu amigo traz-me para aqui um filipino a ver estrelas? É que não é mesmo a mesma coisa…

      • fernando canhão diz:

        Dar-lhe razão é um luxo. Não sei onde tinha a cabeça.
        “Filipino a ver estrelas”, por outro lado será um nome soberbo para um Wine Bar, a abrir e sob a sua exclusiva orientação, se possível ainda antes do Natal. Nesse presépio, o Dry Martini será servido na receita de Don Luis Buñuel, Gin muito gelado, um raio de luz ao pôr do Sol através de uma garrafa de Noilly Prat, antes de iluminar o copo. Sem azeitonas ou cebolinhas.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Donde se conclui que promessas/augúrios requerem cuidado. E sim, no em cima desconhecido, o casal Gorsky terá encontrado um canto de veludo propiciado pela benevolência de São Pedro. Sabendo porquê, imagino o santo como idoso simpático, cofiando a barba alva que não esconde sorriso cúmplice.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Maria, então agora São Pedro é voyeur… Está lindo, o céu. Como diria a Ivone: “o tempora o mores”.

  4. João Pessoa diz:

    O casal, mr Gorsky e mrs Gorsky, é claro…

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Então João, isto agora comenta-se em suaves prestações? Cheira-me que escreveste qualquer coisa antes, mas arrependeste-te depois… O casal Gorsky teria, de facto, viajado muito. Só lhe faltou existir…

    • João Pessoa diz:

      Manuel, na verdade não sei o que se passou, mas devo ter trocado as mãos, porque o meu texto desapareceu.
      Vou tentar recriá-lo.
      Abraço

  6. Pois é , a verdade é sempre menos interessante que a nossa imaginação…espera-se que agora não nos tirem os sonhos em Marte….!

Os comentários estão fechados.