Robert Hughes

As vastas orelhas e o nariz de boxeur estavam de acordo com o físico australiano. Esperava-se tudo menos que o homem fosse um crítico de arte. Mas era o que melhor se lia na “Time”, numa prosa com músculo, quando a “Time” era uma coisa que tão bem se lia.

O heterodoxo, “radical conservative”, Robert Hughes morreu agora, no passado dia 6. Não o li só na coluna sagrada. Comprei, num frio inverno de NY, o “Culture of Complaint” onde inteligente e divertidamente, nos primeiros anos da década de 90, desarmava, mais do que desfazia, o galopante “politicamente incorrecto” e as algemas mentais que o multiculturalismo prodigalizava. Sem condescendência, recusava a tribalização postmoderna por que pugnavam feminismos, gender e african-american studies.

Tenho pena de não ter comprado o monumental “American Visions: The Epic History of Art in America” que acompanhava a fabulosa exposição no Moma. Nesse livro Hughes paga tributo à América que o recebeu e que ele adoptou como segunda pátria.

O Guardian dedica-lhe um honesto obituário. E fui buscar à Time este artigo sobre as mulheres de Goya. RIP.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Robert Hughes

  1. JP Guimarães diz:

    Meu caro Manuel,
    Absolutamente de acordo quanto ao Robert Hughes e quanto à Time. O obituário no NYT também vale a pena ler.
    Um abraço do João Pedro

  2. JP, mas que saudades de umas prosas a fumo e jazz tuas. Não achas que Escrever é Triste?

  3. De facto tem um ar bovino, estes é que são típicos australianos:

  4. hernani teixeira diz:

    também deve gostar desta ligação
    http://www.escreveretriste.com/2012/08/apaixonei-me-pela-free-spirited-georgia-e-ela-por-todos/
    eu… adoro ler o escrever é triste…
    cumprimentos.
    hernani teixeira

  5. hernani teixeira diz:

    desculpe.
    esta. é que o escrever é triste, é tão triste, que a ligação saiu truncada.
    é esta:
    http://www.fastcodesign.com/1670477/remembering-robert-hughes-the-art-world-s-guardian-of-rage

  6. JP Guimarães diz:

    “Aos pés da cama
    Pediu-me para pôr um disco. KD Lang. Eu também queria música. Qualquer coisa para abafar os gritos dados por um coração que nada sente sem amor.
    – É o máximo não achas?
    – Acho.
    Foi uma noite bêbada em que o álcool mandou às urtigas a repugnância que me dava o seu riso ordinário.
    Mais tarde, sóbrio, a repugnância abraçou-se à vergonha.
    Hoje o disco lembra-me uma promessa que fiz e não cumpri. Uma promessa de amor.
    Naquela noite a solidão passou-me à frente. Beijei-a e, triste, descalcei o amor aos pés da cama”.

    Se escrever é triste? A vida é triste (ou pelo menos tem dias).
    Abraço do JP

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