“Segue em resposta um cheque todo branco”

 

segue em resposta um cheque todo branco,

alvo feito arminho ou terra de esquimó,

ainda que o cheque quando chegue ao banco

traga ao luto e luso, mesmo quiproquó.

pois há motivos para engrossar o pranto,

se a nação das quinas abotoa o paletó,

por mãos do filósofo que, por quebranto,

antes de beber cicuta, deita-a ao urinol.

mas faz de conta que tragou-a em cheio

para não mal passar nas fotos dos jornais,

mesmo que aquele que beba cicuta

morra de causas menos parciais

que a farra feita com  dinheiro alheio

por brancas nuvens e cifras astutas.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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21 respostas a “Segue em resposta um cheque todo branco”

  1. A nação das quinas a abotoar o paletó é a mais bonita e aflitiva das imagens… e por onde é que anda o Pedro, o nosso Bidarra, para sem mais quiproquós começar já e com garra a bela desgarrada…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      o bandarra deve estar fazendo melhor coisa hoje à noite. deixe o bandarra em paz. (e guerra!)

  2. Rita V diz:

    eu eu que fiquei na dúvida sobre o cheque que nunca chegue

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    nada disso, rita. você leu mal. seus olhos estão gralhados. o verso é: “embora o chegue quando cheque ao banco”

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    ainda, não. foi pura desatenção minha. escrita automática, rita. faltou revisão. sabe como é. aquele verso que se modifica e a gente esquece da desinência e do verbo. e lê passando por cima, com já estivesse no indicativo. excesso de walter ego. mas também leia-se: “embora o xeque quando cheque ao banco” ou quem sabe “ainda que o xeque enquanto cheque em branco” ou, por fim, “ainda que o xeque dançando um xaxado brabo na boate korsakow”.

  5. Maria diz:

    Bem que gostava de ler aqui uma desgarrada, os rapazes parece terem jeito para a coisa. Um deles afianço que tem 🙂 🙂 🙂

    • Ruy Vasconcelos diz:

      jeito para a coisa? uhmm. percebo. você deve referir-se ao pedro bidarra (ou bandarra, lá sei), que quebra menos os pés do que eu jogando sonetobol. este meu, pobre atentado contra a forma soneto!
      mas, enfim, ela está mesmo precisando de atentados.

  6. Maria diz:

    uhmm uhmm. Isso agora é cá comigo e mais não digo 🙂 🙂

    Mas que era giro essa da desgarrada era! 😉

  7. E cifras astutas sob batutas… Béla Bartók:

  8. Astrid diz:

    … Bidarra, garra e desgarrada, acho que só falta mesmo a guitarra para entristecermos baixinho e felizes.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      sim. entristecer, assim às avessas, astrid! vamos tocar um samba violento, uma batucada avassaladora. de acordar todos os que repousam nos cemitérios da aurora

  9. Pedro Bidarra diz:

    Oh Ruy que belíssima continuação. terei que pensar… terei que pensar… Um foi negro, outro branco. Talvez cinzento o próximo.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    E veio o branco quando o negro se abriu e soltou as sete cores do visível que havia aprisionado. Desde Newton e o disco que congeminou e pôs a girar, que foi feita luz sobre a luz. Desta, os fotões sem massa, energia pura, marcham em carreira até obstáculo interposto. Se arrebanhados os sete comprimentos de onda, fica o cheque em branco.

  11. nanovp diz:

    Da “crise” já se disse quase tudo, gostei da ideia de, parafraseando o seu belo poema, podemos “morrer pela farra feita com dinheiro alheio”….é que podemos mesmo!!!

    • Ruy Vasconcelos diz:

      sem dúvida, bernardo. se tiver um tempo, escute a ‘fotografia’ aí na versão do césar camargo, dois posts abaixo. você que aprecia jazz há de curtir.

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