Táxi Pluvioso

A blogosfera é um bairro ou talvez Istambul. Uma espécie de Campo das Cebolas ou Feira da Ladra, com pontinha de Feira das Vaidades quando calha ser Nova Iorque.

Ali para cima, numa espécie de Supremo Tribunal Militar, estão os blogs políticos. Alinham-se, desalinham-se e replicam o nosso sistema político-partidário, mas idealizando-o e antecipando com ligeira euforia um futuro que não chegará. É que, e simplifico, são liberais ou socialistas, mas com embrulhos e celofanes que nem Washington, nem Paris viii Vincennes Saint-Dennis seriam capazes de digerir.

Eu disse Supremo Tribunal Militar e tenho as minhas razões. Era, claro, um Tribunal, mas diferente dos outros: ao abrirem-se, desse Supremo, as amplas portas, suspendia-se o direito que o Estado civil consagrava. Assim, também eu, diria qualquer um. Eram juízes a julgar em causa própria, com regras próprias. Uma boa parte dos nossos blogs políticos são como o Supremo Militar: sujeitos às regras a que, mesmo na sua santa arbitrariedade, os políticos se submetem ou ao escrutínio com que a Imprensa leva em cima, sobrariam dois, talvez três. O Supremo, se bem me lembro, foi extinto vai para uma década.

Vamos ao que interessa, à inteligente pobreza dos blogs que estão cá em baixo, na Feira da Ladra, a vender discos velhos, botas da tropa, de vez em quando uma belíssima antiguidade. É nesse fascinante bazar que o Escrever é Triste quer entrar. A partir de hoje, para ver se nos deixam entrar e comprar o que eles andam a comer ou a fumar, viremos aqui protestar admiração e uma desalmada inveja pelos que julgamos distintos. E a distinção pode ser um fulgurante post, uma descontrolada blasfémia, a coragem de alguma desordem amorosa. A beleza também.

Ia queixar-me do Cabeça de Cão já há uma semana nem tão, nem balalão, mas Agosto é Agosto e toda a gente, mesmo os génios, tem direito a férias. Falemos, por isso, de quem nos escreve das Seychelles. Pensado e escrito para damas snobs e para surrealistas, o Pratinho de Couratos está sediado no blogspot. Pede-se às damas visitantes que se vistam de cretone sórdido para evitar surpresas. Apesar de Taxi Pluvioso, o autor, insistentemente apontar a vocação blasfematória do Pratinho, cavando-se os baixos fundos chega-se a outra conclusão. Em primeiro lugar, há poucos posts. Mas cada post é um tratado, no melhor sentido do termo. A maioria tem mais investigação e profundidade intelectual do que 100 teses de mestrado e doutoramento actuais, e recuso-me a piadas fáceis com ministros ou secretários de estado.

Por exemplo, o post que o Táxi escreveu a 11 de Agosto. Começa-se com Beethoven e Goethe. E quem não mataria para ter escrito esta frase tão sustentada e audível: “A mouquice está tão bem repartida que as orelhas mais são enfeite que valhacoitos de som. Do lapantana ao sabedor, do ricalhouço ao pobretanas, do pedestre vivente ao desumilde ensolarado petisca-se de opilação timpânica…” Desumilde ensolarado? Eh pá, deixem de fazer blogs políticos, aprendam mas é com quem é capaz de, em duas palavras, fazer um relatório do trânsito classista da sociedade portuguesa!

O trânsito no Pratinho não é só sociológico. Quando lhe dá, e dá-lhe muitas vezes, há engarrafamentos sexuais. Dança-se sobre vaselina, e olhem que estou a citar.  E tanto se dança com o pop that do French Montana como com os êxtases do wild wongo cheesecake de Rita Alexander.

Se andam à procura de desenjoar. Se estão disponíveis para “a espantosa vida quotidiana no Portugal moderno” e para um rollerblade filosófico, literário, musical (incluindo algum canto gutural), as Seychelles são já aqui.

(Não há fotos, porque no Pratinho de Couratos não há cá fotos. Texto bom e em barda e links. Aguentem-se!)

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Táxi Pluvioso

  1. Não gostaste daquela do Camilo, que um grande patife, no estrangeiro, é sempre um grande patriota? E o papel de demiurgo de Salazar, e não era só ele, os ministros também, que pensava que os lusos foram tão valentes, na Índia, em Aljubarrota, que bastava discursos para a realidade acontecer, isto nunca me deixa de espantar. E o pior é que ainda hoje se pensa assim. (O passado é sempre um lugar brilhante, onde coisas mágicas aconteceram, e não foi só a idade do ouro de Marx e Engels, é a história que é esse lugar mítico dos povos).

  2. Boa. Vou já lá acima ‘postar’ em resposta. Boa, boa!

  3. Teresa Font diz:

    Saved by the bell. Já embirrei com esta viatura duas vezes hoje.
    Taxi Pluvioso, vou ver. Na onda do Camilo, vamos nessa vanessa, deixo já aqui dito que me considere uma descompassada besta, que só percebe quando lhe fazem um desenho.

  4. Panurgo diz:

    O taxi é o maior. É gajo que se fosse mais novo, era menino para ter uma banda com ele, E no estado em que eu estou, nem o Cintra, o Lindley, não o mariconço do irmão, me vinha dar lições de gramática.

  5. Panurgo diz:

    Taxi, arranjamos uma gorda e vamos tocar esta merda a um bar qualquer

  6. Não é má ideia. E parece que o mercado está sensível a esse produto. Há um estudo – como o capitalismo comprimiu o trabalho, não há trabalho, estuda-se – que “prova” que a crise está a atirar os homens para as mulheres roliças, talvez por terem reservas de gordura, saem mais baratas, e podem ficar os últimos dias do mês sem comer. Mas se não houver gordas, engorda-se a Miley Cyrus, ou contrata-se a Brittney que já deve estar engordada. Gilrs não faltarão, o filho do major proverá:

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