The end of the affair

aviso prévio: caro leitor, não acredite na fotografia que tem diante dos seus olhos. E por duas ordens de razão: este casal nunca existiu, é uma ficção encenada, e mesmo que tivesse existido, já não existiria, pois separou-se ao fim de 4 anos de relacionamento.

Esta fotografia é a contracapa de um livro sui generis, editado nos EUA em 2009 e traduzido para português no início deste ano. Se virarmos esta imagem lemos o longo título da capa: Artefactos Importantes e Objectos Pessoais da Colecção de Leonore Doolan e Harold Morris, incluindo Livros, Roupa e Acessórios (Sábado, 14 de Fevereiro de 2009, Nova Iorque). Dezoito palavras, fora o subtítulo, para dar nome a uma original (e não o são todas?) história do coração e do insidioso desgaste do quotidiano na vida de um casal.

Como acaba um amor (será que acaba?). E alguém sabe dizer ao certo como começa? Qual o prazo de validade de uma relação? Em que momento desaparece o espanto do outro existir e começa o hábito de ele ser? Como se escreve a palavra fim? O que fazer aos despojos de uma relação? Será que alguma destas perguntas alguma vez terá resposta? Com o nosso voyeurismo espreitamos um casal que nem sequer existe. Um homem e uma mulher que viveram uma história de amor durante quatro anos colocaram os seus objectos mais íntimos e pessoais em leilão. O leilão fictício realizou-se, conforme anunciado na capa do livro, no dia 14 de Fevereiro de 2009, dia de São Valentim.  Ao todo, são 332 objectos reproduzidos em fotografias a preto e branco, sem qualquer ambição artística e desabitadas de afecto, numa apresentação meramente factual e com a linguagem própria dos leilões. Cada fotografia é acompanhada pelo número do lote e por uma descrição rigorosamente objectiva das características, estado de conservação e preço sugerido. Num corpo de letra bem mais pequeno surge, volta e meia, uma voz que fala em nome do coração e da história, como se sussurrasse um episódio invisível, mas decisivo, relativo a essa peça. Pegamos nos fragmentos deste discurso amoroso, frágil, desordenado (não obstante toda a ordem implícita num catálogo deste género, assim como a sequência cronológica mantida), instável e enternecedor

Duas personagens de ficção são-nos apresentadas com tantos pormenores, peculiaridades e pedaços de vida que quase entendemos as suas vozes, escutamos os seus passos, ouvimos os seus risos e sentimos o seu cheiro. Lenore Doolan é canadiana, tem vinte e muitos anos e escreve uma coluna sobre culinária no The New York Times. Harold Morris é um fotógrafo inglês de 40 anos, que viaja pelos quatro cantos do mundo. Ambos moram em Manhattan e conheceram-se no final de 2002, numa festa de Halloween. Na ocasião, Harold estava vestido de Harry Houdini (seria uma promessa de magia na vida de Lenore?). Essa fotografia que testemunha o primeiro encontro deles é o lote 1005, a que se juntam muitos outros lotes, todos numerados. Como o convite para a festa de Halloween onde o acaso ou o destino os apresentou. Bilhetes escritos à mão e um guardanapo com o e-mail dela do The New York Times. A caneca do Groucho Marx com uma mensagem de boas-vindas. A primeira declaração de amor dela, transformando com a sua letra o título do livro Kinds of Love em I Kind of Love You. O lote 1052, uma fotografia de Harold com 22 anos de idade, acompanhada por um bilhete escrito à mão tem resposta no lote 1053, onde uma fotografia mostra Lenore em criança. No verso da fotografia lê-se: “quando tinhas 22 anos, eu tinha apenas 9”. Ao longo das fotografias vamos reconhecendo os universos deles. Ele, fotógrafo, tem uma câmara Hasselblad, livros sobre fotografia de Duane Michaels e 150 cartões de quartos de hotel. Ela, colunista de gastronomia, tem formas de bolos, utensílios e livros de culinária, aventais, uma batedeira. Os livros de culinária da biblioteca de Lenore estão avaliados em apenas $ 80 – 105, os de Harold sobre fotografia valem muito mais: $ 1000 – 1500.

E assim, de página em página, saltando de um objecto para o outro, tentamos compreender a história deles. Como começou? Porque acabou? O que lhes foi acontecendo? O casal é constituído por duas pessoas que parecem ser bem reais. Têm corpo, fazem poses para fotografias, partem canecas, declaram fraquezas. Mas não serão eles fantasmas? O que se vê realmente deles? Os objectos e as imagens chegarão para contar a história? Vamos descobrindo peças de Scrabble que formam as palavras Thank You. Polaroids, DVDs, bilhetes de cinema não utilizados para Annie Hall, de Woody Allen. As dedicatórias e notas nos livros que trocavam, postais com reproduções de quadros de Balthus, Richter, do Beijo de Rodin e de fotografias de Nan Goldin. Um VHS do filme The Party, de Blake Edwards e colectâneas de música gravadas por ela para ele. E roupa, muita roupa. Guarda-chuvas, pijamas, sapatos, colecções de t-shirts, um vestido John Galliano, uma écharpe Christian Dior, o casaco de astracan de Elsa Schiaparelli. As peças de roupa são frequentemente acompanhadas de fotografias de ambos, servindo como um comprovativo da verdade. Um par de fotografias dela tiradas por Harold, na sua dupla vida de dona de casa a lavar loiça ou como mulher sedutora, em fato de banho, deitada numa toalha na relva.

Nesta relação feita de altos e baixos, aparecem noutra fotografia com um grupo de amigos a jogar Trivial Pursuit e noutra ainda, tirada pela mãe de Lenore, com um sorriso verdadeiramente solar. Os objectos sucedem-se: uma Olivetti de 1968. Uma caneca com a asa partida e um bilhete dela, a dizer: “H., lamento. Sei que era a tua preferida. Vou colá-la, prometo”, ainda por colar.  Um despertador de viagem oferecido por Lenore a Harold, pedindo-lhe para manter sempre a hora de Nova Iorque (talvez na ilusão de assim terem os corações acertados). As viagens de trabalho constantes dele, traduzidas em emails e postais da Islândia, Grécia, Londres e Bruxelas. Há muitos objectos idênticos, aos pares, como se através deles quisessem assegurar a sua existência como casal. Pares de sapatos (por onde andaram eles?) ou os candeeiros de mesa de cabeceira (o que poderiam contar, se falassem?)

O lote 1280 é constituído por uma série de fotografias em que reproduzem fotografias de casais famosos, como Ted Hughes e Sylvia Plath, Woody Allen e Diane Keaton ou Ernest Hemingway e Martha Gelhorn. Quem sabe, os casais que eles sonhavam ser. Qual deles terá comprado o esquilo empalhado (lote 1303) na loja de velharias? Há fotografias de ambos com o esquilo: Lenore dando-lhe de comer e Harold jogando Scrabble com ele. Ambos fingem a vida deste ser morto (quem sabe se estariam a fazer isso com a sua própria relação). Muitos livros, de autores como Henry James, Virgínia Woolf, W.A. Auden, Françoise Sagan.  O livro The Couples, de John Updike (será que o liam um ao outro em voz alta?). Uma nota dela a queixar-se por Harold ter entrado no seu email. O relógio Hermès oferecido por ele como pedido de desculpa pela forma como reagiu à suspeita de gravidez (não confirmada) dela. Receitas de chocolate para o pequeno-almoço. O Pragmatismo de William James, com um bilhete onde ficamos a saber que Lenore se sente muito perturbada com a voz de Harold, por isso lhe pede para respeitar o silêncio dela e o seu afastamento. Últimas páginas: flores guardadas por ele talvez num acesso de romantismo, no lado esquerdo. E do lado direito, trevos de quatro folhas guardados por ela, simbolizando, quem sabe, o optimismo em relação ao futuro.

Em cada objecto, além do seu discurso amoroso, podemos ler o prenúncio do desfecho da história, antecipamos o final da relação, espreitamos a palavra fim. Tudo isto esteve em leilão. Mas como leiloar os beijos, as lágrimas, as discussões, os momentos de paixão, a saudade, os silêncios cúmplices, os ciúmes, as cartas que não se chegaram a enviar, as palavras caladas? Como leiloar o que ficou por fazer, como os frascos de compota de morango de Lenore para oferecer aos amigos no Natal? Quem dará mais pelas duas garrafas de vinho Château Calon Ségur de 1989 oferecidas por Harold a Lenore em 2005 com um bilhete (desaparecido) em que a convidava a ir viver com ele?  E a quem mais poderão interessar os bilhetes trocados, as ementas do Dia de São Valentim ou as colectâneas de música home-made?  Quem mais poderá entender esta linguagem?

O que acontece a eles é-nos familiar: as pequenas coisas que o quotidiano amplia, as grandes coisas que o tempo torna invisíveis. Se ao menos um cinzeiro da colecção, o esquilo empalhado, os bilhetes trocados ou até as fotografias tiradas no Photomaton pudessem falar. Como escreveu Novalis, citado em epígrafe, procuramos o absoluto um pouco por todo o lado, mas só encontramos coisas. Por mais que espreitemos à janela, nunca saberemos, realmente, o que se passou. O que aconteceu aos sorrisos das fotografias? Para onde fugiram as palavras escritas à mão, em bilhetes surpresa? O que fizeram os dois com as declarações de amor (primeiro) e com os pedidos de desculpa (depois)? Mesmo suspeitando que os sentimentos que habitaram estes objectos estão a desaparecer, apetece comprá-los todos e colá-los, como se fossem pequenas partes de um coração despedaçado e assim, ressuscitar este amor. Porque a morte de um amor é sempre, um pouco, a morte do amor. Todos nós temos, no fundo do coração, uma caneca partida que nunca voltou a ser colada, uma fotografia rasgada, uma carta desbotada de tanto ser lida, uma história que teve de ocupar o sótão ou a cave do coração, para que a vida continuasse. É com um nó na garganta que chegamos à última página do livro e testemunhamos the end of the affair. Não o de Graham Greene, um dos livros preferidos de Lenore, mas o deles. Narrado e vivido por nós, mesmo sabendo que nunca conseguiremos tocar no coração desta história. Neste catálogo de perguntas, talvez tudo se possa resumir a esta: quanto vale hoje o amor? As primeiras palavras do livro reproduzem uma carta de Harold para Lenore, informando-a sobre a sua estadia próxima em Nova Iorque, onde mostra vontade de a ver e confessa ter-lhe escrito várias cartas, todas por enviar. Recorda ainda o encontro fortuito de ambos no Oyster Bar e admite que o relacionamento deles foi o único na vida cujo fim lamentou. Como ele e a sua namorada actual estão a dar um tempo à relação, anuncia que está de novo só. A última imagem, recordamos, são os trevos de quatro folhas secos por Lenore. Haverá neste início e neste fim uma esperança elíptica? Quem sabe, eles estão neste momento a jantar num restaurante em Manhattan, segurando este livro na mão.

 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.

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10 respostas a The end of the affair

  1. Grande post, a todos os títulos, Maria João.
    Fartei-me de gostar e permito-me ser arrogante e julgar: é um amor com pistas a mais. Um amor é como um fugitivo, deve esconder-se, ser escasso, ganhar direito à sua solidão. Este amor, como amor fugitivo, seria logo apanhado pelo primeiro pisteiro: nem era preciso um pisteiro índio, um navajo. Talvez seja esse o mal dos amores que vivemos: estão cheios de tralha e vazios de ar e água. É que nem os trevos nos salvam. Por onde anda, por que montanhas, um canyon ou um arroyo, o amor que por ser amor nunca acaba?

    • Maria João Freitas diz:

      Manuel, tem toda a razão nesta matéria do coração. Já o Barthes nos dizia, no final dos anos 70, que o amor (o discurso amoroso) estava fora de moda. Hoje, talvez esteja em saldos permanentes. Como a Lenore e o Harold têm corpos de papel, não lhes poderemos perguntar por que motivo quiseram leiloar o seu amor (por exibicionismo? por motivos financeiros? por terapia?). Mas como leitora, quero acreditar que o amor deles, que afinal nunca chegou a começar, não acabou.

      • Maria João, mil vezes de acordo: um amor que não começa nunca acaba. Com essa é que abananávamos o Nelsinho Rodrigues, esse carioca que por tudo do amor saber, de amor não sabia nada.

  2. Rita Tormenta diz:

    Os vestígios dos amores são internos, o resto são pistas para que os de fora comprovem a existência ou a morte do amor. E não se trata de exibicionismo, é apenas a necessidade absoluta de um terceiro excluído .
    Fantástico texto

    • Maria João Freitas diz:

      Rita Tormenta:
      É por isso que as pistas, muitas vezes, deixam despistado quem está de fora.
      Lembrei-me agora que ofereci o livro a uma amiga e ela me fez esta curiosa pergunta: mas como foi que eles juntaram tantas peças?
      Muito obrigada pelo elogio (exagerado, é certo) ao texto.

  3. Amor é… uma batata:

  4. uma autópsia amorosa esta … muito boa!
    (estou a falar do post claro) 😛

  5. O amor não morre mas pode secar, o que é mais dificil com estas memórias dum amor imaginado, talvez não consumado…mas que ainda não terá acabado….

  6. fernando canhão diz:

    Um texto seu acerca de uma loja de Campo de Ourique, levou-me a pensar o motivo que nos leva a comprar o passado dos outros, pois mesmo que View masters, Colettes, Grishkas, etc. etc. tenham existido nas nossas vidas, os em venda, salvo coincidências invulgares, serão sempre de outras. Eu próprio caio nesse logro, mas gostava de ter a sua explicação para tal comportamento. Faço notar que os objectos mencionados em nada se comparam com terrinas chinesas, papeleiras antigas, contadores revestidos a tartaruga, etc. etc. objectos muito bonitos seja de onde vierem..
    Acerca do motivo que leva os dois a vender, não faço ideia, mas uma vez que não sou eu que os sustento não me preocupo, para já.

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