Um abraço de água e vento

Não sou leitor de Jonathan Coe, mas li a entrevista que Pedro Mexia lhe fez no Actual. Fiquei a saber que Donald Crowhurst inspirou o seu “The Terrible Privacy of Maxwell Sim”. Pareceu-me boa altura para recordar a história desse sonhador infame.

Foi a primeira coisa que vi na manhã de 1 de Janeiro de 2011. O mar, obstinado, na praia de Sagres. Quando me virei para terra, na direcção da ligeira colina onde se ergue Vila do Bispo, a outra invisível água que paira no ar desenhava a bom traço um curto arco-íris. Atrás de mim, a metros da linha de costa, uma dezena de centauros negros pregava-se às ondas, à espera de uma que viesse irregular, arrogante, ofensiva, para lhe cavalgar a curva, a crista, a espuma jubilatória e obscena. Quantas horas ali ficam, enfiados num fato de borracha negra? Uma vida? Nascem ali e, se lá voltarmos, dias depois, para o ano, ali estão, os mesmos, flutuando nas mesmas ondas, à espera, à procura do mesmo prazer, montar a mesma onda, sobre ela menos de um minuto, fundir-se depois engolido no seu abraço de água e vento. Terá sido essa, igual paixão, de eterna espera e glória efémera, que arrastou Donald Crowhurst para uma infame, marítima aventura, em 1968, quando em terra, em toda a terra, a humanidade vivia convulsões utópicas e sonhos de sous les pavés la plage?

A história de Crowhurst, pequeno industrial inglês, casado e pai de quatro filhos, velejador amador, já foi glosada, em tom épicos ou elegíacos por cineastas (2 filmes, fora a desistência de Nicholas Roeg), por dramaturgos, poetas e músicos – agora por Jonathan Coe. Inspirou uma ópera.

Sem imaginar o que estava a desencadear, quem começou a história foi o Sunday Times. Ao longo de 1967, o jornal fartara-se de vender relatando o périplo solitário de Francis Chichester que dera a volta ao mundo, tripulando o seu veleiro. Era a primeira vez que um homem, um só homem, errava meses pelos oceanos, repetindo a viagem de Magalhães. A chegada foi apoteótica. Tumulto popular em Plymouth; em Buckingham Palace a Rainha fez dele cavaleiro, Sir Francis. E o Sunday Times, na semana seguinte, ficou sem assunto. Os directores do jornal decidiram então lançar o desafio de uma regata que repetisse o feito de Chichester, mas com uma exigência suplementar. Os competidores, ao contrário de Sir Francis, que fizera uma paragem em Sidney, não podiam tocar em terra durante toda a viagem: era uma volta ao mundo non-stop. A partida teria lugar, conforme opção de cada concorrente, entre 1 de Junho e 31 de Outubro desse lendário 1968 e haveria dois prémios: para o primeiro que completasse a viagem e, principal prémio pecuniário, para o que fizesse a viagem mais rápida. Inscreveram-se 8 profissionais reputados. Os de costume: ingleses, franceses, um italiano. A surpresa foi Donald Crowhurst, desconhecido, obscuro engenheiro electrónico, proprietário de uma pequena empresa em crise. Era o competidor romântico que logo apaixonou os leitores do Sunday Times. E um milionário que decidiu patrociná-lo. Com uma condição: se Crowhurst desistisse, teria de pagar o investimento com a execução da hipoteca da sua empresa.

Crowhurst apostou num trimarã veloz a que deu o nome de guerra “The Teignmouth Electron”. E, quase no final do prazo, partiu, com preparativos tão românticos e mal amanhados como a sua candidatura. O Atlântico Norte foi-lhe padastro: dos maus. Castigou-o, atrasou-o e mostrou-lhe a vulnerabilidade do trimarã. Instável, se se virasse já não haveria hipótese de o fazer voltar a uma posição normal: era naufrágio garantido quando chegasse aos mares do sul. Mas Crowhurst tinha apostado tudo na aventura para ganhar notoriedade, salvar o seu negócio periclitante e projectar o futuro da família. Desistir estava fora de causa: o terrível multimilionário desfaria a sua vida e nem a sua empresa ficaria de pé. Continuou e disse a primeira mentira no dia em que forneceu pela rádio – o seu único contacto com o mundo e com os mentores da corrida – coordenadas de um percurso que imediatamente lhe deu o record de distância percorrida num só dia. As mentiras são como as cerejas. Donald Crowhurst sabia que o “The Teignmouth Electron” seria desfeito por um oceano cruel e implacável. Faltavam-lhe também equipamentos vitais que a partida apressada não lhe permitira reunir. Tinha de percorrer o Índico e o Pacífico e voltar a subir aquele Atlântico que agora descia. Tomou uma decisão: para quê navegar duas vezes as mesmas águas, sobretudo quando se sabe que essa é uma impossibilidade heraclitiana.

A solução era simples: fingir que navegava. Crowhurst nunca terá lido Pessoa, mas o seu projecto teria agradado ao autor da Ode Marítima. Viajar sem sair do porto. O inglês procurou um local recôndito na costa brasileira e ali ficou por meses. Todos os dias ou todas as noites dava pela rádio as coordenadas, mas cada vez com mais interferências e insólitos ruídos que ele mesmo, engenheiro electrónico, forjava, até avisar de que ia ficar sem rádio e durante meses não comunicaria.

Três meses depois, Crowhurst, que continuava a acompanhar todas as incidências da regata no afinadíssimo rádio, voltou a entrar em contacto. Primeiro a partir, Robin Knox Johnston ganhara a regata com um tempo pavoroso, mas o francês Bernard Moitessier e o britânico Nigel Tetley já tinham reentrado no Atlântico a caminho de casa, com tempos profissionalíssimos. Todos os restantes tinham desistido. Crowhurst deu, por isso, sinal de vida. Anunciou que estava atrás dos outros, como convinha ao seu plano simples. Queria chegar em último para que o júri não esmiuçasse o diário de bordo que laboriosamente escrevera em terra, inventando uma viagem completa, com coordenadas falsas, descrições de condições atmosféricas com dados que recolhera como pudera e pormenores anedóticos para camuflar a escroquerie um manto de credibilidade. De repente, eis senão quando de repente, tocado por salgada misantropia, o francês anuncia que não regressará a terra: o mar chama-o, vai voltar para o Pacífico, competições e prémios parecem-lhe ridículas vaidades humanas. Crowhurst está agora em segundo e é esse o lugar que reza por conservar. Assusta-se e manda cautelosas coordenadas. O suficiente para que o Sunday Times e o cidadão comum lhe cantem a audácia. O necessário para que Nigel Tetley mantenha o sentimento de vitória e o coração ao alto. Mas Crowhurst não contou com o exacerbado espírito competitivo de Tetley. O seu compatriota quer ganhar sem margem para dúvida, força o veleiro ao máximo e parte o barco a 30 de Maio de 1969. Cruel ironia, Crowhurst está agora sozinho no meio do Atlântico e a vitória para a viagem mais rápida é inescapável. Inglaterra espera-o como Atenas ao seu melhor herói. Crowhurst sabe, no entanto, a infame mentira que arquitectou e antecipa o sabor do opróbrio. Ao longo de poucos dias escreve e delira, delira e escreve. Descobre-se filósofo ou um outro Pessoa: Deus e o cosmo, a natureza humana e a sua salvação impregnam as 25 mil palavras que deixou escritas. Descobre-se, ele mesmo, o Filho de Deus: “I have become a second generation cosmic being, I am conceived in the womb of nature, in my own mind… In the womb of the universe.“ E depois, outra vez o silêncio. A 10 de Junho, um navio, o Picard, encontra o veleiro de Crowhurst à deriva. Dele nenhum sinal de vida. Apenas o diário verdadeiro de bordo, nem sequer o falso que Crowhurst terá levado consigo no mergulho para o pacífico fundo do mar.

Como os centauros de Sagres, Donald Crowhurst montou a onda, sentiu glória e angústia efémeras, e deixou-se ir, depois, engolido no seu abraço de água e vento.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a Um abraço de água e vento

  1. Ivone Costa diz:

    Ver centauros no primeiro dia do ano é bom presságio.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Também acho, cara Ivone. 2011 foi um estampanço de todo o tamanho. Mas atendendo ao que aocntecdeu ao país, se calhar nem me posso queixar.

  2. É uma historia incrível de loucura, mas há algo de impressionante e forte nesta corrida para a morte…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bernardo, O Donald, acho, eu, nunca deve ter enlouquecido, resolveu a coisa com um transe metafísico, cheira-me.

  3. Pedro Bidarra diz:

    E eu que sou do mar não conhecia a história do Donald Crowhurst. Obrigado.

    P.s. E já agora digo-o, e nunca o disse porque toda a gente o diz, mas tu escreves mesmo bem, caramba.

  4. mas que história
    ( tinha que meter água a certa altura)
    e tão bem contada!

  5. Um anúncio de rádio dos anos 60:

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Táxi, A Remington é um monumento. GRande Zappa.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    O que aprendo aqui, deuses! Fazia lá a menor ideia do existir de Donald Crowhurst e suas proezas? Que para sempre ouça a música dos oceanos.

Os comentários estão fechados.