Um poeta, Ruy Duarte de Carvalho

Em 72, numa Luanda que tinha sonhos de século XX, a editora Culturang, na colecção “O Livro de Angola”, publicou “Chão de Oferta” primeira obra de Ruy de Carvalho, que em livros posteriores assinaria Ruy Duarte de Carvalho. A poesia dele combinava léxico africano com estética modernista que viria, em anos seguintes, já bem depois da independência, a contaminar-lhe os filmes que também fez e a valer-lhe encómios da fase mais maoísta e militante dos Cahiers du Cinéma.
Aquele livro, que sobreviveu aos 3 anos mais transumantes da minha vida (fui onde havia pasto), comprado na Lello por 37 angolares e 50 centavos, guardo-o ainda hoje. É o mais próximo de Herberto a que, com esoterismo vocabular, um poeta impregnado de Angola chegou.

Adoço-te as costas
com licor de acácia.
Espremo-te os rins:
um favo de dem-dém.

Vou fundo em ti
feroz
e oiço-te um ai:
faz eco em mim
a voz
do meu país in-tacto.

O livro é um falso quadrado (18×19) com a imagem das patas de animais (cavalos?) e barra branca de fundo. Título a bold, partido em 3 linhas e todo em minúsculas. Noutra linha, em baixo, em maiúsculas, letras finíssimas em corpo reduzido com nome do autor.
Não encontrei imagem da capa de que tão bem me lembro, e já não me lembrava mas começa assim o último poema:

PORQUE O DESERTO É MACHO
E AVARO DE GESTO
E SE PROJECTA EM JULHO
TRIUNFANTE
TANGENDO A SOMBRA DOS REBANHOS TRANSUMANTES

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a Um poeta, Ruy Duarte de Carvalho

  1. Rita V diz:

    gostei de conhecer

    • A divulgação é fraca, mas vale mesmo a pena, Rita

    • Rui de Carvalho diz:

      Rita, estás pronta para o reconhecer, porque o Ruy é imenso, infindo, desconcertante, mesmo. “Uma lezíria no deserto”, e como era de seu dever, morreu no deserto, em Swakopmund, Namíbia, partiu num Agosto de incerto dia… “Vou lá visitar pastores”_antropólogo, escritor, poeta, cineasta, aguarelista e desenhador soberbos, em tudo, moldado por poderosa e imaginosa ficção!

      • Eva diz:

        É rui….as saudades apertam de vez enquando……chegava e falava e falava, bastava sabermos que estava vivo…………….no sul. a noroeste a sedoeste não importava……………………………..estava presente…..quem sente é filho de boa gente…………

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Eva, nós sentimos: escrever é triste. Por isso é que vale a pena.

          • eva diz:

            começo a escrever minhas tristezas…………..
            e minhas angústias, em relação ao Ruy…………sem serem pessoais, porque nesse campo não tenho nada a dizer………………..

            • eva diz:

              Essa foto é bem recente……………..

              • eva diz:

                Quem é o Manuel S. Fonseca????????????? eu não sei………………..

                • eva diz:

                  Um poema para o ruy-
                  OLHA, O SAL DO SUL
                  MISTURADO COM AS AREIAS DO SAL DO SUL
                  O SAL DO SUL É BRANCO, É A MENSAGEM DO SUL
                  O SUL SOBE SOBRE AS MARGENS DO SAL E OCUPA TODA A VIDA EM AREIAS EM QUE TRANSMITEM UMA ILUSÃO……………………DAÍ VEM A SENSACÃO ANCESTRAL DE LIGAR A CROSTA TERRESTE E IMAGINAR E NÃO ATINGIR………….

                  eva

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