Um Verde Cheiro no Vento

Paul Gauguin, Seashore, Martinique,1887

Uma leve brisa levantou-lhe os cabelos. Suavemente, ao de leve, com cheiro a folhas verdes, sumarentas. O sol ardia na pele.

Havia uma algazarra de vozes que atravessava o jardim e misturava-se no ar. Vinha dos cafés da rua, em frente ao cais dos pescadores. Com os anos notava as conversas mais tristes do que as caras e as vozes.

Chamou Ana para descerem até lá abaixo, qualquer local à sombra, conquistar um pouco de fresco, o calor deixava-o letárgico, denso. No primeiro café, no meio da rua, sob uma pérgula de canas, pratos sujos e garrafas vazias cobriam os tampos de madeira, circulares. A empregada gorda, de avental listrado, carrega um tabuleiro para levantar a mesa,  um pano húmido que empurra migalhas e miudezas de sujidade. Lá dentro as paredes  desfazem-se em pó, esfarelam-se. Do tecto em vigas de madeira pendem duas grandes ventoinhas prateadas, uma não trabalha, provavelmente nunca deve ter trabalhado. Pouco ajudam ao sentimento de falta de ar, com todas as janelas e portas abertas.

Sentou-se virado para o cais e pediu uma bebida fresca. O sol forte riscava o chão de terra, em linhas de luz, reflexos dos ramos das árvores imobilizadas no calor da tarde, os troncos secos e rugosos que lembravam carapaças de um qualquer réptil gigante, os passeios delineados por uma fiada de pedra vermelha, onde pousavam folhas e agulhas de caruma.

Puxou a pala do boné para baixo, cortar a luz quente que queimava.

Ana tinha-se sentado, também. A sua cabeça parecia adormecida e pesada, mexia-se devagar, em lentos gestos. Uma pequena motoreta passou à frente do café, deixando um rasto de fumo cinzento, com sabor a gasolina. Quatro homens, cabelos brancos, as mãos cruas, nodosas, jogavam cartas e bebiam aguardente com gelo. Falavam devagar e pouco se ouvia com o barulho vindo das outras mesas. Gaivotas voavam em círculos sobre o último barco que entrava na baía em direcção ao cais.

Em sua casa eram cinco irmãos, mas ele sempre fora o mais complicado. A mãe ficou meio atarantada com a perda do emprego do marido, e na mudança para o campo. Passeava-se pela casa em roupão com um copo de álcool na mão, abrindo as janelas de sacada das salas e do corredor, de par em par, deixando o frio ou o calor entrar livremente nas divisões encarriladas da casa. Não chateava ninguém e após alguns anos a família tratava-a como mais uma peça de mobília. Lembrava-se de que o calor do verão não chegava ao norte, com o vento da tarde a obrigar a camisolas e chapéus.

Tinha largado tudo isso, trocado uma segurança ténue pela incerteza constante.

Olhava o mar com o sol a descair no horizonte, e as rochas. Sem saber bem porquê, e muito devagar, pegou na mão de Ana. Sentia que lhe era difícil pensar, agir. Uma sensação de mágoa que não entendia. A luz descaída pintava as paredes do café, mais fraca, menos calorenta. Continuava a beber, sem parar. Entrou num estado de torpor e imaginou-se longe, na esperança de, só, ter coragem de tomar a decisão.

Um vento quente, a cheirar a sal, abanava as folhas largas das palmeiras e as agulhas lisas dos pinheiros, junto à água. As ondas salpicavam o ar de maresia.

Ela olhou-o nos olhos, olhos castanhos vidrados, ausentes.

Acho que para já, não tenho nada que me faça ficar. Sentia que os prédios tinham perdido as cores, as árvores as folhas, ele o amor que surepticiamente se tinha escondido, como que para sempre.

Ana acendeu um cigarro e serviu um copo, líquido transparente em vidro baço e gasto. Percebeu que nada se ia alterar, mas não queria desistir.

Sinto que já parti, que já me fui embora. Voltava a falar baixo, como se estivesse sozinho.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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4 respostas a Um Verde Cheiro no Vento

  1. De vez em quando, quase sem sabermos e muito devagar, pegamos na mão de alguém

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