Viagens pela minha estante II

 

Caspar Friederich. Wanderer above sea of fog.

Por alguma estranha razão que só eu sei, arrumo os livros por editoras. Não há cá autores,  géneros, nacionalidades. É uma desordem sem nexo muito minha. Por isso entreguei uma das minhas prateleiras mais recentes a um marinheiro com perna de pau. A Ahab é – a par doutra que não vou nomear – a editora mais interessante que deu à costa em Portugal nos últimos anos. O gosto irrepreensível das escolhas, a obsessão pelo menos óbvio, o aprumo gráfico, chegam a ser irritantes. Se eu fosse livro queria ser editado pela Ahab.

Tudo isto para vos dizer que foi o marinheiro de cartola que me apresentou à ilha de David Vann. Ou, talvez seja mais rigoroso, às ilhas de David Vann. Sukkwan primeiro, Caribou, à deriva, logo a seguir. São ilhas geladas da cor do desespero. Brancas a soar a imensos silêncios interiores. De um cinzento carregado para usar quando a alma se faz só luto. São murros no estômago rodeados de água translúcida.

Vão por mim. Vão à confiança. Este rapaz vai ser gente grande.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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7 respostas a Viagens pela minha estante II

  1. Ivone Costa diz:

    Oh, sim, Pedro, David Vann é tudo isso. Deixo-lhe aqui o início de um texto, já antigo, da Rachel Cooke, do The Observer, que considero a abertura ideal para falar dele:

    “In England, writers tend to be pale, unworldly creatures, with hunched shoulders, a lump on their noses where their spectacles sit, and a tendency to feel the cold. They like libraries, central heating and gossip, and they strongly dislike DIY. Across the Atlantic, however, they come in a wider variety of shapes and sizes: a few have tanned faces and big hands, and when they leave their desks at the end of a hard day’s writing, it is not for the comfort of a sagging armchair and a first edition of Henry Green, but for a little vigorous chopping, or a quick scramble up the nearest mountain. Capable and manly, their sensitivity – their ability to look right into the souls of men (and, though less often, women) – reveals itself mostly, and in some cases exclusively, in the pages of their elemental best-selling stories.”

    • mariabrojo diz:

      Interessante o arrumo que descreve. O meu é outro: dos gostos maiores para os inferiores na escala. Intrigante o David Vann – desconhecia. O seu texto deixou-me com ‘água na boca’.

  2. Escrever é Triste diz:

    Se me volta a desaparecer cá de casa. sem me trazer miminhos destes durante semestres, quem vai lá, para essas ilhas esquisitas, escrever a Legend of a Suicide é mesmo o menino.

  3. Enquanto a Tia anda apardalada com as new (bond) girls, deixe-me dizer-lhe que giro q tá na foto! Cá em casa arrumam-se as prateleiras por temas e gostei dos silêncios interiores. Quanto ao Van(n) só mesmo o ‘Damme’ por enquanto… ( credo!!!)

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    isso de arrumar os livros por editoras é tremendo, pedro! deve causar um impacto visual e tanto. devem ficar mais bonitos, na estante.
    resta saber fora dela.

  5. Panurgo diz:

    por editoras? ahah que poseur.

    Tive de ir ao google ver quem era esse Vann. Como nasceu no Alaska, vou ver se leio uma coisita ou outra do tipo um dia destes.

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