Viagens pela minha estante

Cormac e os Coen

Dizem-me, diz-me o maçador do meu Dicionário da Academia, que não existe a palavra errância. Pois, porra. Passou a existir. Que outra palavra posso encontrar para definir a angústia extraviada de Cormac McCarthy? Tudo ali é errância, vagabundagem, extravio, perdição. Tudo ali é uma busca sem sentido, sem lugar, sem tempo, sem propósito. Errância interior, negra, desesperada, resignada, sangrada e sofrida. Errância sacrificial na “Estrada“, errância sanguinária em “Este país não é para velhos“, errância ermita em “Suttree“, errância amoral em “Meridiano de Sangue” e errância uterina no extraordinário “Nas Trevas Exteriores” que agora juntei ao meu labirinto.

Nestas coisas de gostos vale a pena ser tonitruante. Cormac McCarthy é, a par de Roth, o maior escritor americano vivo. E não é só porque Bloom diz que sim. É porque, coisa que cá em casa é francamente mais importante, eu também acho.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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17 respostas a Viagens pela minha estante

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Tetralogia vagabunda: olha-se para a fotografia e a cara de extravio do escritor faz dos Coen uns meninos de coro.

    • Pedro Norton diz:

      e ainda nao me atirei à “border trilogy”. Nem sei como se diz a soma de uma trilogia com uma tetralogia. Mas vossa eminênica, insigne editor, saberá.

  2. Ivone Costa diz:

    O Xavier de Maistre lá fazia as suas Voyages autour da chambre dele, mas cada um viaja por onde mais lhe agrada. Gosto dessa ideia de ser tonitruante em matéria de gosto e achar que se acha bem. Assino por baixo.
    Prazer em lê-lo.

    • Pedro Norton diz:

      Obrigado Ivone. É só em matéria de gosto, mas haverá mais profundamente meu do que o meu gosto?

  3. Pedro Bidarra diz:

    No Houaiss existe: Errância s.f. qualidade ou condição do errante…

  4. Panurgo diz:

    Epá bons olhos o vejam.

  5. No Aulete também
    (er.rân.ci:a)
    sf.
    1. Característica, qualidade, condição ou hábito de errante; ERRANÇA.

    Saravá!

  6. fernando canhão diz:

    é certo que geralmente less is more. E Hunter Stockton, Thompson caberia na mesma garagem?

    • Pedro Norton diz:

      Caro Fernando, podia tentar uma resposta mais inteligente e sobretudo mais culta. Mas seria pouco honesta. Não conheço Hunter Thompson o suficiente.Mas se estabelece o paralelo fico curioso. Começo por onde?

      • fernando canhão diz:

        Fear and loathing in Las Vegas, the Great Shark Hunt, Hell´s Angels, Better than sex, The Proud Highway, depois um qualquer dos outros. A Amazon entrega em casa.
        Rum Diary num fim-de-semana.
        Foi no Rum Diary, que descobri a solução para fins de tarde repetidos em varandas de Hoteis caríssimos. Uma(s) garrafa(s) de bolso (as dos aviões podem ser uma boa solução, nada de metais) cheia do álcool da sua preferência, a marca inclusive, por exemplo Gin. E depois, Cavalheiro por favor, água tónica, copo alto, nada de limão e muito gelo, mas do realmente frio (é o das arcas e parte-se na altura, eles sabem). Nunca mais as dores de cabeça usuais, como o encaixe financeiro é elevado pode-se alarvar na gorgeta. Os empregados adoram esta opção. Montes de salgadinhos e sorrisos. No caso de ser o bourbon, por exemplo, aposta-se num Genmaicha Green Tea, cria uma muito boa imagem nos presentes. Geralmente não há. Faz-se um ar contristado e aceita-se um qualquer, bem mais barato. O gelo tem a ver com um problema de saúde raríssimo e genético, que nos obriga a tê-lo por perto. Mas nada de grandes explicações. Encaixe financeiro mais uma vez excelente e boa disposição garantida. Não convém é guiar a seguir.

  7. Maria João Freitas diz:

    Tonitruante Pedro,
    Como sou quase tão curiosa como a Alice, fiquei a imaginar, numa viagem um pouco mais demorada pela sua estante, quais seriam os vizinhos do lado e de cima do Cormac McCarthy (tenho de confessar, embaraçada, que nunca o li) e do Roth (de que moram, também numa das minhas estantes, alguns belos exemplares).

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Não sou exemplo para ninguém em muito, na irreverência também. Que sejam criadas palavras, recriadas as constantes de bíblias «dicionárias».

  9. Ruy Vasconcelos diz:

    pedro, ‘errância’ é palavra corrente no brasil, vai nisso mais de uma geração. está na imprensa, nas teses acadêmicas, no dia a dia. e diz presente também em praticamente todas as novas edições dos maiores dicionários: aurélio, aulete, houaiss…ao se digitar ‘errância’ no google, a busca nos leva a 58.270 resultados.
    no mais, essa química entre maccarthy e os coen se dá muito bem em ‘no country for old men’ (o título comercial no mercado brasileiro é um tanto diverso, no entanto: ‘onde os fracos não têm vez’).

  10. JP Guimarães diz:

    Pedro, Tony Truante é um dos membros do Rat Pack?
    Abraço
    JP

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