#2, 40°48’19.776″ N, 28°37’49.335″ E

 

Zarco ia morrer. Nisso, como noutras coisas, Zarco era igual a toda a gente.

John Zarco, aka Johnny Z aka El Zarkovsky, era um advogado de origem madeirense especialista em fusões, aquisições e outras maquinações corporativas. Tinha 43 anos, saudáveis e em boa forma, e vivia entre Nova Iorque e Londres onde tinha dois escritórios e duas famílias. Era um bom advogado, muito apreciado pelos seus clientes tanto pela capacidade de resposta quanto pela descrição. A profissão levara-o a conhecer gente poderosa e algumas vezes pouco recomendável. Milionários novos, russos, chineses, azerbaijaneses, filhos de ditadores do terceiro mundo, políticos, banqueiros e homens de negócios, limpos e sujos, compunham a grande parte do seu portfólio de clientes. Talvez por isso, e para lavar a consciência, dedicava algum do seu tempo e do seu dinheiro, o que sobrava depois de descontado o dedicado às suas mulheres, à beneficência. Feitas as contas, o negócio corria-lhe bem mesmo quando corria mal, como é normal na advocacia.

A diferença entre Zarco e qualquer um de nós não estava no facto óbvio e universal de que iria morrer algures no futuro mas no de saber exactamente quando e onde ia morrer. No “diagnóstico” que recebera – na verdade fora mais uma notificação de morte que um diagnóstico propriamente dito pois nada se dizia no aviso sobre a causa da coisa –, e que lhe tinha sido entregue por correio expresso, podia ler-se a data da morte, precisa ao minuto, e as coordenadas do local, precisas ao segundo. Zarco sabia que iria morrer dia 13/12. Só não sabia onde e era por isso que precisava de um Ipad com mapas e GPS.

O “mind the gap” fez-se ouvir de novo interrompendo os anagramáticos pensamentos de Zarco, pensamentos onde se misturavam mapas, coordenadas e estrelas de nove pontas. Pela porta da carruagem, ou melhor, pelo gap, entrou então a loira mais bonita de sempre: a Brigitte Bardot de 1956. Estranhamente só Zarco reparou. Todos os outros continuaram indiferentes concentrados nos seus botões. A velha entretinha-se com o chupa-chupa que Org entretanto lhe tinha devolvido, o miúdo negro azulado lia no Pantagruel de François Rebelais o episódio em que Panurgo deita a ovelha ao mar e o miúdo indiano e obeso continuava a inchar a um ritmo programado para explodir apenas umas paragens mais à frente. Ninguém quis saber da Brigitte Bardot. Só Org sorriu e a dirigiu com os olhos para o lugar vazio ao lado de Zarco.
Claro que podia não ser a  Bardot e ser antes outra por ela, uma look alike, mas Zarco tinha a certeza que era Brigitte Bardot, a nova, a de 56, de cores saturadas e em tecnicolor.
– Olá – disse Zarco – Eu conheço-a.
– Não é o único – respondeu Bardot com um sorriso francês e em mono.
– É curioso. Ontem conheci a Gilian e hoje conheço-a a si. Conhece a Gilian Anderson?
– Não – respondeu Bardot.
– Claro que não como é que podia conhecer – disse Zarco dando-se conta que esta Bardot era 56.
– Mas não me apresentei – disse Zarco com embaraço – o meu nome é Zarco, John Zarco, sou advogado.
– Eu sou Bardot, Brigitte Bardot e sou actriz… acho eu – acrescentou sorrindo.
– Estranho vê-la aqui – comentou Zarco olhando para o chão – mas não é a única coisa estranha que me acontece desde ontem.
Bardot sorriu felinamente mas nada acrescentou a não ser um beicinho.
– Vai para onde – perguntou Zarco
– Desço em Itália na Cinecittà e depois vou para Capri. E o John?
– Ainda não sei. Estou meio perdido e sem saber o que fazer – respondeu Zarco remexendo no bolso de onde tirou um papel com números – sei apenas que a viagem termina nos 40°48’19.776″ Norte, 28°37’49.335″ Este.

Mar de marmara

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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16 respostas a #2, 40°48’19.776″ N, 28°37’49.335″ E

  1. Ivone Costa diz:

    Ai, Pedro, Pedro, e depois os do fim que segurem as pontas, não é? Lindo 🙂

    • Pedro Bidarra diz:

      Ó Ivone, amor com amor se paga. A mim entregaram-me os fios. As pontas ficam lá mais para o fim, 13/12 que é quando o Manuel tem que fechar a história.

  2. Não queremos que termine já , mas quem vier a seguir não pode desperdiçar uma noite da Bardot! A de 56!!

  3. Primeiro: vou começar a andar outra vez de metro. Tenho a certeza de que isto já aconteceu ao autor do texto, pela carrugaem dentro entrar-lhe a Garbo na Alameda e a Bergman no Marquês.
    Segundo: o autor armou-nos um grande espartilho: John Zarco vai morrer. Vai morrer um tipo que não pode morrer. Bem visto.
    Terceiro: liguem os vossos gps. Excelente narrativa – a uma velocidade de TGV.

    • Pedro Bidarra diz:

      Mas só morre a 13/12 que pelas minhas contas coincide com a data do último capítulo; que por acaso te calha a ti. Hi hi hi

  4. Panurgo diz:

    Um gajo é muito difamado; não fui eu que atirei a ovelha borda fora, foi um tal de Robin Mutton.

    • Pedro Bidarra diz:

      “Suddenly, I do not know how, it happened, I did not have time to think, Panurge, without another word, threw his sheep, crying and bleating, into the sea. All the other sheep, crying and bleating in the same intonation, started to throw themselves in the sea after it, all in a line. The herd was such that once one jumped, so jumped its companions. It was not possible to stop them, as you know, with sheep, it’s natural to always follow the first one, wherever it may go.” –Francois Rabelais, Quart Livre, chapter VIII

  5. Rita V diz:

    Um cadavre é isto mesmo, remexer e tornar a dar, um lugar, uma latitude e uma data memorável para desfalecer. Ora, ingredientes para a nossa Teresa dar seguimento sem pestanejar.

  6. Sem pestanejar, Rita? Só se for de tanto arregalar os olhos:)
    Mas isto começa a aquecer. Quem me dera ter garfinhos para brincar com o fogo.

  7. Pedro, muito bom.
    Gosto disto. Gosto destas ilhas, geográficas e femininas. Tantos caminhos que esta viagem pode ter. Assim Bardot venha comigo e me ilumine. Ou não.

  8. Ora bem: segundo os meus conhecimentos de FC* esta Bardot technicolor é um «selector» – ou seja, alguém que foi ao futuro e deixou lá um rasto do seu passado, mais ou menos fantasmagórico (que por ser apenas um rasto e fantasmagórico não está habilitado a produzir paradoxos temporais).
    Está bonito, está…
    E está mesmo.
    * (Philip Dick, já não me lembro de que livro…)

    • Pedro Bidarra diz:

      Obrigado pelo esclarecimento António. Não fosse a Teresa produzir um paradoxo temporal e depois era o cabo dos trabalhos. O próprio blogue poderia correr riscos.

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