Murakami

 

Conheci-o este Setembro. Gosto especialmente deste mês.

Não o larguei nos primeiros dias. Quanto mais me dizia, mais queria saber. Quanto mais me escondia mais queria espreitar. Vai enrolando-me com “historinhas” misteriosas. Cheias de pormenores impensáveis. Não sei para onde me leva. Vai levando-me.

Faz-me pensar.

Leva-me com ele para um Japão desconhecido mas tão perto. Pode ser Tokio, Oslo, Matosinhos.

Coincidência (ou não) –  partes de Em busca do Carneiro selvagem passam-se em Setembro.

Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.

E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar destino. O que está feito, feito está, o que tem de ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras , quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o “tudo” que ficou para trás e o “nada” que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.

Na verdade, porém, não se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferença. O que se passa – como, de resto, em qualquer confronto de opiniões – é o mesmo que sucede com certos pratos culinários: são conhecidos por nomes diferentes mas, na prática, o resultado não varia.

Pronto, acabaram-se as metáforas.

O facto de eu ter utilizado uma fotografia de carneiro para aquele anúncio publicitário, isto olhando a questão do ponto de vista a), é fruto do acaso, mas se encararmos a coisa do ponto de vista b), deixa de ser uma coincidência.

Eu andava à procura de uma fotografia adequada para ilustrar a página daquela revista. Por acaso, encontrei uma foto de carneiros na minha secretaria. E servi-me dela. É o que se chama uma inocente coincidência num mundo pacífico.

A fotografia dos carneiros estava no fundo da gaveta à espera que eu desse por ela. Mesmo que não a tivesse utilizado naquela revista, mais dia, menos dia teria feito uso dela para outro trabalho qualquer.

Agora que penso nisso, parece-me bem que esta fórmula é, sem duvida aplicável a todas as fases da vida por que passei até à data. Com algum treino, e apenas com o movimento da minha direita, talvez seja capaz de pôr em marcha um programa pessoal de vida ao estilo a), e movendo a esquerda, a mesma coisa, mas desta vez tipo b). Não que faça grande diferença. Como os buracos no meio dos donuts. Considerar o buraco de um donut como uma presença ou como uma ausência é uma questão puramente metafísica. Por mais voltas que se lhe dê, isso não irá alterar em nada o gosto do donut.”

Haruki Murakami – Em busca do carneiro selvagem

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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5 respostas a Murakami

  1. curioso (sempre) diz:

    boas receitas para um fds outonal, apesar daquela brisa primaveril já andar às voltas com as sementes aladas do verão 😉

    quantos ao buraco do donut e à semelhança doutros buracos (nas cuecas alentejanas há 3) e sem esquecer o do ozono e o financeiro do Gaspar, quanto mais pequeno melhor 😉

    os antigos diziam que há sempre um testo… aqui dizemos que há sempre um texto…

  2. Reconheço que Setembro é um grande mês para se conhecerem livros. Mas o meu é Dezembro. Sempre me encheram o Natal de livros.

  3. Nunca li o senhor Murakami, caríssima Sandra (nunca li tanta e tão boa gente…). Fiquei com mais vontade de provar o sashimi.

  4. Carla L. diz:

    Ando tentada à lê-lo. Pensei em começar por Kafka à beira mar por causa dos colóquios felinos.Mas o aura do Carneiro me balançou um bocado.

  5. Pois também eu não li, ainda… mas a pressão aumentou com este seu texto…se calhar ainda pode ser em Setembro, quem sabe!

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