A alma do segredo

 

o segredo dos depositários de segredos é serem sempre lúgubres agentes duplos

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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18 respostas a A alma do segredo

  1. GRocha diz:

    Estão constantemente no limbo, na corda bamba…. é complicadissimo! 🙂 😛 e nesses casos Manel, podem pedir equivalências com base na experiência para serem requisitados por qualquer agência policial (FBI,CIA,….) ??? 😛

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Por isso e porque o breu da duplicidade não vai bem comigo, evito ser depósito de segredos alheios.

  3. Rita V diz:

    não confiáveis portanto
    😉

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ninguém é mais fiável do que o agente duplo: só pode mentir bem se sempre disser a verdade.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    certamente, manuel. digamos, como espelhos bifaces: agentes duplos cubanos infiltrados na cia, psicanalistas lacanianos, alguns confessores da ordem dos dominicanos, uns poucos jesuítas mais impetuosos e outros tantos produtores de tv…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      … e mesmo o dramaturgo brechtiano, o escritor mágico-realista e, por fim, o nosso Larkin, agente duplo de uma certa virilidade.

  5. Maracujá diz:

    E, meu caro Manuel, não somos todos nós um pouco ou por alguns momentos da vida esses infiéis depositários?
    Ponhamos toda a nossa hipocrisia de lado e tenhamos o bom senso de dizer que já o fizemos e isso até nos deu um certo prazer.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Que atire o primeiro pecado quem nunca escondeu no bolso uma ou duas pedras, estimada e duplicemente misteriosa Maracujá

  6. Pedro Bidarra diz:

    Um segredo

    Os outros bichos terão segredos
    ou será só coisa nossa?
    Também se atormentam
    ou o segredo só a nós faz mossa?

    Os segredos de cão,
    que são os ossos que ele enterra,
    são verdadeiros segredos
    pois só ele sabe onde estão.

    Os nossos são muito diferentes
    o que se deve, muito provavelmente,
    à nossa compulsão
    pra dar com a língua nos dentes.

    É como se o segredo
    tivesse que ser contado para existir.
    Lembra a máxima confuciana,
    que a árvore na floresta só faz som ao cair
    se lá estiver alguém para ouvir.

    Já o cão fica contente em manter os segredos enterrados.
    Nós não… Nós ficamos ansiosos, desesperados.

    Se calhar não os enterramos no sítio certo,
    que seria no esquecimento
    e enterramo-los antes na memória
    que é sítio de muita actividade
    e muitíssimo tormento.

    E também fazemos segredo
    de tudo e mais alguma coisa,
    coisa que os outros bichos não fazem.

    Claro que há mais bichos aldrabões,
    infiéis e ladrões, só que disso
    não fazem segredo.

    Os bichos também se comem uns aos outros
    também são maus e estúpidos como calhaus

    mas não escondem
    quando comem o que comem.
    Esse é um género de segredo
    que é coisa do bicho homem.

    in Almeida poeta sem assunto

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Almeida, poético, glorioso Pedro, quando somos cães, e de vez em quando somos, a ver se não escondemos bem o osso! Escondemos, sim senhor.

  7. fernando canhão diz:

    Era perseguido por crianças que o insultavam e que a isso eram incitadas pelas mães.
    Lichtenberg, Aforismos, 2º caderno, 1772-1775

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ferdinand, deixe-me que lhe diga um segredo: fiquei com um bocadinho de raiva de nunca ter lido e de não ter estes aforismos. Foram publicado cá?

  8. Manuel, não posso estar mais de acordo (por falar nisso, os ‘Aforismos’ estão publicados naquela série negra ‘livros B’, da Estampa)

    • fernando canhão diz:

      Caro Manuel, pois não é que a Don António não se lhe pode esconder nada.
      Rebato-o com uma afirmação, que uso vai para um horror de anos, surgida num livro, e que tal como a luz emitida pelo sagaz Espírito Santo, o da Trindade, (luz essa) que passa pelo hímen da Santa Virgem, qual vinha vindimada dando origem ao que se sabe(?), me ajudou e muito, mas voltando à frase, para mim redentora, aqui vai ela – Tudo o que não é da tradição é plágio.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        António, agora já sei onde é que tenho de ir procurá-los… (aos aforismos).
        Ferdinand, completamente de acordo, eu copio tudo da tradição. Um ódio danado à inovação.

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