A Casa e o Mundo

RÚSSIA

“Elena”, de Andrei Zvyagintsev

Se não está disposto a observar a cuidada mecânica de um drama de família, filmado como se Stanley Kubrick tivesse trocado Londres por Moscovo e Nabokov por Tchekov, é melhor ficar em casa. O terceiro filme de Zvyagintsev é uma análise fria e esteticamente irrepreensível do quotidiano de uma mulher de origens modestas, Elena (Markina) e de um empresário ricaço, Vladimir (Smirnov). A relação é um negócio de sucesso: Elena cuida de Vladimir e da casa, Vladimir vela pela segurança financeira de Elena. Porém, Elena tem um filho de um anterior casamento, Sergey, preguiçoso pai de dois filhos, e Vladimir não está disposto a sustentá-lo. Quando Vladimir sofre um ataque cardíaco, dá-se uma inesperada reconciliação com a filha Katerina, até aí ausente. Vladimir decide redigir um testamento que beneficiará Katerina com toda a fortuna. Para proteger o futuro dos seus netos, Elena vê-se obrigada a agir. Ao som da “Sinfonia Nº 3” de Philip Glass, Zvyagintasev afasta-se do thriller e concentra-se no subtexto das personagens, sem moralizar sobre nenhuma delas – descreveu-as como “tarântulas num frasco”. Retoma os temas de memória e solidão, comentando a sangria ética da Rússia contemporânea. Não é um filme fácil, mas a arte que vale a pena raramente o é.

FRANÇA

“A Princesa de Montpensier”, de Bertrand Tavernier

Imaginem por um momento que a anti-heroína do “Madame Bovary” de Flaubert é um portento de desajeito e falta de inteligência. Emma Bovary não era propriamente a mulher menos fútil do mundo, mas a sua beleza via-se correspondida pelo charme. O erro de “A Princesa de Montpensier” é esse: Marie de Mézières (Mélanie Thierry), a protagonista do filme, tem cara e corpo de estalo, mas conhecê-la é tão interessante como ver erva a crescer. Isso não a impede de se tornar cobiçada por todos os varões franceses do século XVI. Henri de Guise (o amante da “rainha Margot”, que terá um papel importante na luta verídica entre católicos e huguenotes) anda louco por ela desde os treze anos. O príncipe que a desposa, por acordo de conveniência, mal a conhece mas fica apaixonado desde a primeira noite, apesar de a penetração da praxe ser assistida por criados e convidados da boda. O veterano conde de Chabannes (Lambert Wilson, actor irrepreensível) também rebola como um cãozinho, embora Marie se revele mais do que desastrada em todas as conversas que travam. E até o garboso duque de Najou, irmão do herdeiro ao trono gaulês, se confessa rendido. Este filme não é um romance, é um mistério. Uma pena, pois Tavernier tem dois ou três óptimos trabalhos no currículo – “O Juiz e o Assassino”, “A Morte em Directo”, “Um Domingo no Campo” – e pelo menos uma obra-prima, “À Volta da Meia-Noite”, o melhor filme de sempre sobre a paixão do jazz. Mas “A Princesa de Montpensier” é música de elevador.

CHINA

“As Flores da Guerra”, de Zhang Yimou

Era uma vez, há mil anos, um realizador chinês que mostrava uma nova face de cinema ao mundo, composta por expressões severas, palavras minuciosas, um respeito pela cultura do seu país e um trabalho plástico sobre as cores – o inesquecível laranja das lanternas de “Esposas e Concubinas”, os ocres de “Milho Vermelho”, os purpuras de “Ju-Dou” – que reproduziam o estado interior das personagens, aprisionadas nas convenções de uma sociedade repressiva e patriarcal. Chamava-se Zhang Yimou, representava o expoente – com Chen Kaige – da 5ª Geração de directores do seu país e, a partir dos anos 2000, descaracterizou-se. As bilheteiras do Ocidente apreciaram a metamorfose, rendidas à mestria de um cinema de luxo de artes marciais, com imagens belas como xilogravuras do século XI, apoiado em lendas e contos da Ásia Central – é o tempo de “Herói”, um magnífico filme de aventuras, mas onde o artificialismo e a estetização da violência já espreitam a cada golpe de samurai. Dois dos filmes seguintes, “O Segredo dos Punhais Voadores” e “A Maldição da Flor Dourada”, com a diva de sempre, a estrepitosa Gong Li, já não mostravam a força mítica de “Herói”. Eram apenas serigrafias, e a intensidade do drama desaparecera. “As Flores da Guerra” é o ponto mais baixo da carreira de Yimou: em Dezembro de 1937, a cidade chinesa de Nanquim é ocupada pelo exército japonês, despoletando um massacre. John Miller (Christian Bale) é um agente funerário norte-americano com a missão de enterrar o reitor do colégio católico local, vendo-se encurralado pelos acontecimentos. Acaba por fazer-se passar pelo padre protector das jovens alunas do colégio, enquanto um grupo de doze prostitutas buscam refúgio na igreja…

A história, retirada de um romance de Geling Yan, tinha tudo para resultar. Há um herói improvável, “peixe fora de água” que encontra a redenção junto das crianças que auxilia. O inimigo é poderoso, e a rara aliança entre a ingenuidade das alunas e a luxúria das concubinas daria pano para mangas. Acontece que Yimou está mais ocupado com as balas a entrarem no corpo dos japoneses, em câmara lenta e ao som de coros celestiais, do que em garantir a força dramática da intriga. São tudo maneirismos, da aproximação da líder das meretrizes – a estreante Ni Ni, mais sensual do que Kate Upton em tarde de biquíni para a “Sports Illustrated” – ao recurso à imagética cristã (quantos vitrais se podem explodir para mostrar que a inocência se perdeu?). Estas flores são murchas, e o seu aroma é o da rendição.

AUSTRÁLIA

“O Coração da Tempestade”, de Fred Schepisi

Numa mansão dos subúrbios de Sidney, Elizabeth (Charlotte Rampling), a septuagenária matriarca dos Hunter, está a morrer. Os filhos, Basil (Geoffrey Rush), uma glória dos palcos do West End com a carreira em declínio, e Dorothy (a sempre aconselhável Judy Davis), falida e divorciada, com um título de princesa nos cartões de apresentação, chegam à Austrália para farejar o património da mãe. Mas Elizabeth, embora com quebras crescentes de lucidez, não está disposta a despedir-se da vida tão depressa. Adaptado da novela homónima de Patrick White, o filme é de uma singular vacuidade. Fred Schepisi, um dos maiores talentos da Oceânia – é recordar o cínico e lapidar “Seis Degraus de Separação” ou o picaresco western “Barbarosa” – prefere explicar-nos a intriga a revelar-nos a origem das rupturas deste ninho de egoístas. Para construir um filme a partir da cabeceira da cama de uma anciã é preciso ter o talento de Visconti ou de Resnais, e as personagens de “O Coração da Tempestade” não suscitam um sopro de empatia. Schepisi recusa-se a oferecer flashbacks aos espectadores (à excepção de uma Rampling de vestido branco na praia, prestes a devorar o noivo da filha), como um pasteleiro avaro que nega doces às crianças. Poderoso soporífero.

EUA

“4:44, Último Dia na Terra”, de Abel Ferrara

Cisco, um actor divorciado a caminho dos sessenta anos (Willem Dafoe), vive com Skye (Shanyn Leigh, bailarina do harém artístico de Ferrara), talentosa pintora, trinta anos mais nova, espécie de Jackson Pollock de mini-saia. Estamos no final de um dia nova-iorquino, a camada de ozono da atmosfera esfumou-se muito mais rapidamente do que se previra, e às 04h44 da madrugada, o mundo terminará, num gigantesco churrasco celestial. É o concerto de câmara segundo Ferrara, em espaço único (há uma breve saída do apartamento do casal), com duas personagens que discutem e fazem amor enquanto a Terra agoniza lá fora. A fé, o sexo e o desespero sempre foram a santíssima trindade do cinema deste italo-americano, espécie de comparsa demoníaco do asceta Scorsese. É a incompreensão da fé, e a destruição da inocência, que levam o Tenente (Harvey Keitel) aos infernos no extraordinário “Polícia Sem Lei” (1992). A fome de compaixão é a verdadeira epidemia de “Os Viciosos”, onde a SIDA se revela uma doença de vampiros, e o Holocausto a prova da impossibilidade redentora. Enquanto Scorsese mostra as agruras crísticas dos seus protagonistas mas acredita nos respectivos sacrifícios, Ferrara tortura-os, mostrando em carne viva todas as dúvidas quanto à salvação. Seja no policial “pulp” (“O Rei de Nova Iorque”) ou na ficção científica (“Violadores: a Invasão Continua”), a doença é o Homem, e a fé uma hipótese – impossível – de cura. A obra-prima “O Funeral” sugeriu, como um anti-requiem, essa utopia, e imaginar um Ferrara “crente no amor” é o mesmo que pensar em Nietzsche como um romântico incurável. Ora, “4:44 Último Dia na Terra” é a mensagem de paz de Ferrara: entre homenagens mais ou menos cínicas ao visionarismo de Al Gore, dedicatórias sinceras ao Dalai Lama e odes à força libertadora do rock’n roll, Ferrara mistura imagens televisivas de crença, violência e revolta como um VJ amador sob o efeito de ácidos. Mas a síntese é “O amor vence tudo, até a morte do Universo”. Após 25 anos de um cinema do desespero, nem o menino Jesus acredita nisto.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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11 respostas a A Casa e o Mundo

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Que pena o Yimou e o Tavernier. Não vi, mas são-me ambos simpáticos. (O Tavernier porque sempre filmou mais ou menos mal, mas sempre escreveu muito bem.) Fui ver o Ferrara e gostei muito de uma coisa – está escrito e sai para a semana onde tu sabes. Gostei mais do que tu, mas bem sabes que já não tenho idade para não gostar seja do que for – e sempre arranjo ponta para me interessar.

  2. Que síntese Pedro! Parece fácil escrever assim sobre cinema…gostei muito de Helena, já muito menos de “O Coração da Tempestade” , os outros não vi…

  3. Doutor, estou ansioso por ler esse prazer do Ferrara. E tens razão, o Tavernier escreve melhor do que filma (mas o “Round Midnight” quebra-me o coração). É muita gentileza tua, Bernardo. o “Elena” é uma flor maligna que vale a pena cheirar.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      concordo, pedro. não tem como não gostar do ‘round midnight. é um daqueles filmes do afeto, que ajudou toda uma geração a se aproximar de vez do jazz.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Deixou-me sem discurso. Texto assim impede-me o atrevimento de ir além destas tristes palavras.

  5. A Mª do Céu não diz nada mas eu digo. Jantar já! Depois destes parágrafos só mesmo histórias e copos, ah! e aquela coisa que fica sempre na mala do carro. É desta.

  6. Ainda está na mala, querida Rita. Maria do Céu, é demasiado amável.

  7. Pedro Bidarra diz:

    Muito obrigado por esta volta ao mundo. Muito bem dada

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