A mulher de Jesus Cristo

O artigo da Smithsonian ainda não tem uma semana. Há-de aparecer outro, em breve, na Harvard Theological Review. Nesta reportagem, que recomendo, conta-se como, às mãos da professora Karen King, da Harvard Divinity School, chegou o fragmento de um papiro – uma coisinha do tamanho de um cartão de crédito – com 33 palavras dispostas em 14 linhas incompletas, contendo o relato de uma discussão entre Jesus e um discípulo. Jesus rebate reservas do discípulo sobre a presença de Maria Madalena e há uma passagem onde se lê: “… e Jesus disse-lhe: “A minha mulher…”

Este fragmento de papiro foi agora apresentado, no Congresso Internacional de Estudos Coptas, em Roma, na sala 2 do 4º piso do Institutum Patristicum “Augustinianum” da Biblioteca Apostólica Vaticana, das 19 às 19:30, do dia 18 de Setembro. Leu o paper a professora Karen King. A apresentação teve lugar no quadro da discussão de uma série de short papers subordinados ao tema Gnosticismo e  Maniqueísmo, de que foi moderadora a professora Madeleine Scopello.

Os papirologistas consideram o papiro credível, estando em curso a sua definitiva autenticação. Mais do que provar que Jesus Cristo seria casado com Maria Madalena, o fragmento é importante por revelar que o ensinamento de que Cristo seria casado passava entre os primeiros cristãos, antes de ser, posteriormente, silenciado e reprimido como herético.

Se chegaram até aqui, corram a ler o artigo da Smithsonian.

A professora Karen King

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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33 respostas a A mulher de Jesus Cristo

  1. curioso (dia gnóstico) diz:

    aqui diz-se que são 8 linhas, como a foto mostra, e menciona ter sido escrito no séc. IV, não aludindo aos primeiros cristãos.

    num dos 1522 comentários, há argumentos bem interessantes:

    JA Bronx, NY
    ..In the Coptic “Gospel According to Thomas,” Jesus’ disciples ask him to send Mary Magdalene away because “women are not worthy of the life.” Jesus replies that he will turn her into a man. All these texts show is that people in the Coptic church were speculating about the prominence of Mary Magdalene in the gospel stories.

    The question of whether Jesus was actually married is not important. If he had considered this to be an important subject, he would have talked about it and it would have been mentioned in the earliest Christian

    writings.http://www.nytimes.com/2012/09/19/us/historian-says-piece-of-papyrus-refers-to-jesus-wife.html?pagewanted=all&_moc.semityn.www

    texto das linhas:

    not [to] me. My mother gave to me li[fe]
    The disciples said to Jesus
    deny. Mary is worthy of it
    Jesus said to them, “My wife
    she will be able to be my disciple
    Let wicked people swell up
    As for me, I dwell with her in order to
    an image

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Obrigado pela precisão novaiorquina. Mania minha, só ler revistas bizarras. É esta e a Texas Monthly Review…

  2. fernando canhão diz:

    “sabeis por que Cristo não respondeu a Herodes quando este o interrogou? Porque Herodes era um homem lascivo, vicio pelo qual o nosso salvador sentia um horror profundo”.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Espero que o Fernando também não goste nada do velho Herodes. Tinhamos, quando eramos miúdos, um verso para ele que nem aqui nos comentários me atrevo a citar…

  3. Orvalho diz:

    Realmente, cristo é quem tem uma mulher de papel passado.

  4. Panurgo diz:

    É uma pena ver textos tão belos (na acepção grega do termo) na mão de americanos. Conversa fiada. E nada mais.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Desta vez é que não tem mesmo razão nenhuma, caro Panurgo. Quem vendeu a coisa aos americanos foram os caralhos dos alemães. Um bufo qualquer do Leste teve a coisa guardada até o Muro se esfarelar e depois não foram capazes de se segurar, acagaçados com os egipcíos…

      • Panurgo diz:

        Quando alguém chega a esta conclusão, “All these texts show is that peo­ple in the Cop­tic church were spe­cu­la­ting about the pro­mi­nence of Mary Mag­da­lene in the gos­pel stories.”, não vale a pena.

        Lógion 22, do mesmo Evangelho

        Jesus disse-lhes:
        Quando fizeres de dois um
        e o interior como o exterior,
        e o exterior como o interior,
        e a parte superior como a inferior,
        de modo a fazer com que o homem e a mulher
        seja um só,
        para que o homem se não faça homem
        e a mulher se não faça mulher,
        quando obtiverdes olhos em lugar de um olho
        e uma mão em lugar de uma mão
        e um pé em lugar de pé,
        uma imagem em lugar de uma imagem,
        então, entrareis no Reino.

        Você que gosta tanto deles, leve-lhes lá aos labregos do Tio Sam a edição portuguesa da Estampa, com os comentários, notas e bibliografia recomendada, do José Martins Ramos.

  5. Panurgo diz:

    E, segundo os papagaios: “The Greek word for “companion,” koinonos, does not necessarily imply a marital or sexual relationship”

    Bom, de acordo com o meu Greek-English Lexicon of the Septuagint, compilado por J. Lust (nome apropriado para um estudioso da religião), Eynikel e Hauspie, não significa, de todo, isso – nem surge sequer nos Evangelhos do Novo Testamento. E basta consultar Platão, a República, ou o Fedro em especial (com a biblioteca de Nag-Hammadi, nunca, nunca nos devemos esquecer de Platão) para verificar que a conversa destes estudiosos (?) é merda.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      É em ocasiões como esta que percebo o mal servido que estou de dicionários. Tenho uma velha enciclopédia, mas só lá chego com um escadote. Uma trabalheira.

  6. curioso (escriba) diz:

    nem só com escadotes se lá chega… 😉

    mas é presunção querer fazer passar a ideia de que o Jesus casado foi silenciado.
    talvez como a do camelo passar no buraco da agulha foi propagado (camelo em grego era foneticamente cordel em aramaico).

    «Jesus disse: Sem dúvida, os homens pensam que vim lançar paz sobre o mundo, e não sabem que vim lançar divisões sobre a terra, fogo, espada, guerra. Porque haverá cinco numa casa e três estarão contra dois, e dois contra três, o pai contra o filho, o filho contra o pai, e manter-se-ão de pé, sendo unificados», Lógion 16. A tradução portuguesa, revista por José Augusto Martins Ramos, é-nos oferecida em: O Evangelho segundo Tomé , Estampa: Lisboa 2 2001.»

  7. Toda a especulação é presunçosa, sobretudo quando é a dos outros.

  8. JP Guimarães diz:

    J. Lust é de facto um nome excelente para um estudioso da religião. Fez-me lembrar o “brave” Lovejoy que era pastor (no sentido clerical do termo, claro).

  9. curioso (se senta) diz:
  10. Sandra Barata Belo diz:

    – ó Deus, já estamos pra lá de fartas que nos pintem sempre de santas, virgens ou putas… (démodé)
    tem algum problema contra as Mulheres, meu deus?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Sandra, Deus não é um argumentista muito imaginativo. Isto de ser motor imóvel, causa incausada e o raio (para não falar do trovão) também cansa e desinspira um gajo.

  11. blimunda diz:

    jesus casado ou não, o certo é que as mulheres foram e são muito mal tratadas pelos senhores das igrejas e todos sabemos muito bem porquê… nem sei como suportam a ideia de passar entre as pernas de uma para nascer…

    • Panurgo diz:

      Pois são! Está na altura de dizermos porquê! Há evidências mais do que suficientes: Cristo gostava de levar no cu! Nunca gostou de cona,daí a confusão que à malta da Igreja faz a gente nascer dali. Nunca a Igreja Católica prestou culto a uma mulher… e por aí afora na lista de maus tratos.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Com o nível a que a conversa está, a alegações de cu e cona, não sei se será altura de trazer para aqui Nossa Senhora, mas uma religião que ajoelha mais de mil milhões de pessoas para beijar a fímbria do manto de uma regina coeli nem será das piores a tratar de Marias.

        • Panurgo diz:

          É tudo tenebroso na Igreja! Fala-se da Igreja como se fosse uma casa de strip, é preservativos, abortos, mulheres, celibato…sem perceberem um símbolo, a Tradição, a História, a longa caminhada de Agostinho a Tomás de Aquino, a Paideia helénica no pensamento cristão, o Cristo, nada… o que interessa é o meio das pernas.

  12. V diz:

    Se Jesus amou uma mulher e com ela procriou, então nós tal como Jesus somos seres divinos. Quer dizer então que não precisamos de intermediários para chegar a Deus, o que por sua vez quer dizer que o papel da Igreja deixa de ser necessário.

  13. Maria diz:

    É isso ai Panurgo! Pelo meio das pernas controla-se o mundo. Eles, os homens de carne e osso, que tomaram as rédeas da Igreja perceberam isso muito bem.

    • Panurgo diz:

      Pareço o Divino Marquês: uma pessoa denuncia e combate uma ideia (tudo o que você disse) e acaba a ser visto como um estandarte da mesma. Paciência.

      • Panurgo, uma vez desanquei tão revolucionariamente o Maio de 68 que o ar libertário da coisa levou o pessoal soixante-huitard, bendit incluído, a dar-me os parabéns pelo elogio. A língua portuguesa tem um caparro semântico que é o diabo…
        ps – ah, eu calei-me bem caladinho que sou muito agradecido, ao contrário do seu mau feitio

        • Maria diz:

          🙂 🙂 🙂

          • Panurgo diz:

            Bah. Ligar a estes casamenteiros é a mesma coisa que ligar a um qualquer louco que venha para aí dizer que avistou dragões; embora, a lampionagem garanta que viu um equipado de amarelo no passado sábado em Coimbra, coisa que não me convence, porque o lance do penalty nunca era para cartão vermelho.

            Na reacção, o Jesus do Glorioso em flash interview sintetizou: “foi uma vergonha… e perante isto não há factos! Não há factos!”

            Haja Filosofia!

  14. curioso (pedq) diz:

    mas mais de meio mundo também trata de modo bem diferenciado a mulher, por razões religiosas e culturais e não se ficam só pelos considerandos… para quê alimentarmos aqui também esta (velha) polémica?

    claro que somos divinos, as igrejas não fazem falta, como não deveriam fazer os ginásios, os nutricionistas, esteticistas, calistas, cabeleireiros, etc… depende do que queremos preservar/salvar (pedq)

  15. Maria diz:

    Ó Panurgo, entendi muito bem que você contestou que as pessoas se perdem nos enrodilhanços comezinhos e triviais do dia-a-dia esquecendo a essência da coisa “sem per­ce­be­rem um sím­bolo, a Tra­di­ção, a His­tó­ria, a longa cami­nhada de Agos­ti­nho a Tomás de Aquino, a Pai­deia helé­nica no pen­sa­mento cris­tão” Mas, apeteceu-me pegar nesse caminho que contestou … ainda iniciei o texto (mas outros afazeres me chamaram) sobre a questão do sagrado e da sexualidade. Escrevi “O sexo conjugal era uma constrangedora aventura, embora João Crisóstomo e Metódio concedessem que, se o marido e a esposa racionassem seus carinhos, a felicidade matrimonial não seria necessariamente um obstáculo insuperável para a salvação. A dificuldade fundamental, então, era ligar a sexualidade ao casamento. Necessário à procriação, o acto sexual é um bem; ele está, porém, sempre maculado da busca do prazer, que é um mal.” Fica para outro post em que o assunto venha à baila 🙂

  16. Panurgo diz:

    Ó Maria, sabe que você lembrou-me um livro pelo qual tenho uma grande paixão, O Amor e o Ocidente. Um livro que é um trovão! Com sua permissão, cito-lhe um sublinhado meu:

    «É que no homem de hoje já não há a autenticidade primitiva. Aquilo a que se chama hereditariedade, no calão do nosso século, aquilo a que a Igreja chama pecado original, isso designa a perda irremediável do contacto imediato com as nossas origens. E a partir de então, descer abaixo da nossa moral não é libertar-nos das suas interdições, mas entregarmo-nos a uma loucura que repugnaria aos animais selvagens. Descer abaixo da expressão criada e regulada pelo espírito (mesmo se o espírito, como o creio, nos levasse para as vias irreais), não é regressar ao real mas sim perdermo-nos na zona de terror e nos terrenos vagos onde desaguam todos os rebotalhos duma civilização intoxicada. O autêntico, cujo desejo nos obceca, não o poderemos encontrar. Ele não está no termo dum movimento de abandono ao instinto excitado e ao ressentimento da carne. Não está escondido mas sim perdido. Ele só pode ser recriado por um esforço contrário à paixão, quer dizer, por uma acção, uma ordenação, uma purificação – um retorno à sobriedade. Agora não é evadirmo-nos para fora dum mundo declarado diabólico. Não é matar esse corpo incómodo. Mas não é tão-pouco disparar o revólver contra o espírito a pretexto de que eles nos enganou.»

    Isto é tão bonito. Mas a malta acha graça é a broncos como o Foucault. Fica para a próxima.

  17. curioso (foucault dixit) diz:

    If repression has indeed been the fundamental link between power, knowledge, and sexuality since the classical age, it stands to reason that we will not be able to free ourselves from it except at a considerable cost.

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