A probabilidade do improvável ou a estupidez do «pré-conceito»

Se for vista peixeira entretida a ler Boris Vian no «aguarda-clientes», é inconveniente pergunta sobranceira – que lê, dona Rosa? Umberto Eco? Arrisca despacho na resposta: _ Não. Cansei-me de tanta semiótica. Prefiro o desconcerto de Vian no “Outono em Pequim”.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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23 respostas a A probabilidade do improvável ou a estupidez do «pré-conceito»

  1. Panurgo diz:

    Uma peixeira a ler Boris Vian? Não percebo qual seria o espanto. Até porque é essa gente que ainda vai conservando o bom da nossa língua. Talvez lhe devesse dizer que há por cá muito melhor, com a vantagem dos nossos grandes escritores não ligarem patavina ao jazz. Agora, espantoso seria ver um advogado a aprender uma tabuada, um economista a ler um livro (qualquer que seja), um artista que soubesse ler, um «pensador» (e em Portugal há tantos) que conseguisse escrever sem massacrar a gramática. Ou então um professor que soubesse ler, escrever e fazer contas, mas isso já seria do domínio do fantástico, ou pura alucinação.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Maria, desde que não arranquem as páginas para embrulhar as sardinhas… E, pensando melhor…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      … Se tormenta acudir, de que seremos capazes na irracionalidade do instante?

  3. curioso (pescador) diz:

    o que é uma peixeira? um pré-conceito?

    o que quis mostrar? uma bagagem?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Porque leve, a “bagagem” não me pesa. E quem se interessa por mochila pequena cheia de nadas?

  4. Astrid diz:

    Obrigada, curioso, pescou-me as palavras que nadavam, dicretas, nas grutas húmidas da língua.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Favor a não esquecer. Sabe, certamente, ser a língua o único músculo das gentes que nunca se cansa.

  5. Rita V diz:

    Não li o Outono em Pequim. É a estação do ano que gosto mais, mas prefiro o Inverno!
    😀

  6. curioso (desanuviado) diz:

    para desanuviar, uma peixeira (arte) que não sabe ler e que exige muito saber e muita paixão

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    tenho uma queda por peixeiras. e gente que usa de pregões para viver. senão porque eles estão sempre a nos convidar a viver. é o grito da rua, que passa por ela. ou está nas bancas e quiosques, quando passamos por ela.
    peixeira, por aqui, no entanto, é uma faca de cabo terçado, bem amoladinha. (e que os rufiões enfiam no bucho de gente que fala demais).

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Partilho o fascínio por pregões e quem os faz voar. Desde há muito, os publicitários engendraram mensagens subliminares nos apelos. Facas também, todavia sem o encanto do apitar dum amolador.

  8. curioso (apregoando) diz:

    tristemente obrigado, pelo pregão evocado 😉

    semiótica bem mais saudável (e genuína) que a de Vian (nem outono era!)

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Quanta beleza nas palavras e imagens!
    Grata.

  10. curioso (amochilado) diz:

    a dona da dita, habitualmente 😉

  11. curioso (deslocado) diz:

    é triste que, ao escrever ‘a responder’, a resposta apareça desligada da questão a que responde: solução? continuar triste… ou

    • Maria do Céu Brojo diz:

      … Mudar o rumo. Analisarei a sua opinião. Nada do aqui comentado cai em saco roto.

  12. jose rosa diz:

    estou triste comento pensava!

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