A propósito de cigarras e formigas

Um ministro?

Toda a vida estive convencido que era cigarra. Não por rimar fácil com o meu apelido, embora tenha sido uma das muitas rimas com que o dito foi brindado na escola, numa espécie de bullying verbal tão típico da crueldade infantil, mas porque sempre trabalhei nas “indústrias” criativas e por isso passei muito do tempo a pensar, a congeminar, a inventar; já para não falar do tempo que passava a ler tudo e mais alguma coisa com os pés em cima da secretária para desespero dos que, a meu lado, tinham funções mais rotineiras e contabilísticas.

Apesar das horas passadas a bulir, das noites sem cama, dos esgotamentos tratados a químicos, julgava-me cigarra por causa da fábula de Esopo, recontada por La Fontaine, onde a cigarra é simpática e cantadeira e anima o verão da pobre formiga que se recusa a ajudá-la quando chega o inverno e com ele o fim dos festivais.

Mas nem Esopo nem La Fontaine eram homens de ciência, nem no seu tempo se sabia tanto de biologia, nem tão pouco havia a prática e amiga Wikipédia que tão rapidamente – e, segundo os especialistas com o mesmo nível de rigor da Enciclopédia Britânica – põe os pontos nos is e que neste caso são dois:

“A importância da cigarra no ecossistema é positiva, por um lado, por servir de alimento para os predadores, e negativa, por outro, porque constitui-se em pragas de algumas culturas. As suas ninfas vivem alimentando-se da seiva das raízes das plantas, causando sensíveis prejuízos pela quantidade de líquidos vitais que retiram e pelos ferimentos causados às raízes, facilitando a penetração de fungos e bactérias” diz-nos a Wikipédia.

Afinal a cigarra não é simpática e a formiga tinha razão. E o ministro Miguel Macedo não usou uma metáfora mas uma sinédoque conforme tento explicar melhor aqui:

Uma praga, Miguel, uma praga

28/09/2012 | 11:19 |  Dinheiro Vivo

Durante anos estive convencido que os portugueses eram o povo mais criativo, moderno, divertido e elegante da Europa, talvez mesmo do mundo. Quando ia a Nova Iorque ou a Londres, conhecia gente interessante mas que não chegava aos calcanhares dos “meus” portugueses. Claro que em Portugal eu passava os dias e as noites fechado na minha agência, a trabalhar com designers, criativos e planners espertíssimos e bem vestidos; e por isso tinha a impressão que tinha. Era esse o meu mundo.

Hoje, como o meu mundo é o mal pago mundo da escrita e estou rodeado de jornalistas, artistas, cineastas subsidiados e gente que se dedica a subir e a descer o eixo Bica/Bairro Alto, tenho a nítida sensação que os portugueses são um povo baixo, mal vestido, encardido, sem grande sentido de humor e, maioritariamente, do Bloco de Esquerda.

Já se passar meses na praia, entre surfistas e nadadores-salvadores, posso extrapolar que os portugueses, embora lindos e em excelente forma física, são muito limitados no que às competências verbais – tanto lexicais como no domínio das leis combinatórias – diz respeito.

E felizmente não sou de frequentar bordéis, lupanares ou as páginas de classificados do Correio da Manhã, senão ainda insultava o leitor escrevendo que Portugal era um país de homens e mulheres lúbricas, cafetões e cafetinas.

Sempre que fazemos este tipo de raciocínio usamos uma sinédoque, a figura de estilo que consiste em tomar a parte pelo todo. No caso, o nosso pequeno mundo pelo mundo todo. Acontece-nos a todos. Imagino que um pastor, lá na serra, imagine as portuguesas e os portugueses todos cabras e borregos. O nosso mundo é até onde a nossa vista alcança e se o quisermos maior temos de sair dele e acrescentar-lhe mais. Mais mundo.

O ministro Miguel Macedo, ao citar a fábula da cigarra e da formiga, pensou estar a usar uma metáfora colorida quando, na verdade (acto falhado), utilizou uma sinédoque que tomou o mundo todo pelo seu. Atente-se neste parágrafo da Wikipédia e digam-me lá se não vos lembra qualquer coisa.

“A importância da cigarra no ecossistema é positiva, por um lado, por servir de alimento para os predadores, e negativa, por outro, porque constitui-se em pragas de algumas culturas. As suas ninfas vivem alimentando-se da seiva das raízes das plantas, causando sensíveis prejuízos pela quantidade de líquidos vitais que retiram e pelos ferimentos causados às raízes, facilitando a penetração de fungos e bactérias.” [in Wikipédia]

Miguel Macedo começou a sua carreira na JSD. Vive, desde pequeno, rodeado de cigarras. Ele próprio é uma das muitas cigarras que durante anos fizeram – e continuam a fazer – um barulho ensurdecedor nos media e que só se calam quando, finalmente, acasalam com o aparelho de Estado e o começam a comer.

Agora que não há nada para comer, que a seiva secou, Miguel deu-se conta que há cigarras a mais. Pois há Miguel, uma praga delas.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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18 respostas a A propósito de cigarras e formigas

  1. Rita V diz:

    ‘mais mundo ‘ é uma bela ideia.

  2. Maria diz:

    “Ganhar mundo” foi uma das, muitas, expressões que aprendi com o Pedro e que hoje é recorrente no meu discurso, sempre que alguém lamenta a saída das suas crias de casa …

  3. Panurgo diz:

    Deixe-se destas coisas e volte lá para as indústrias criativas, que nem aí há alguém com quem valha a pena embirrar. É uma tristeza 🙁

    Esse Macedo é um tipo que trata por filhos da puta quem protesta contra ele e o governo. É um monte de merda e nada mais.

  4. Pedro Bidarra diz:

    Se é para ter com quem embirrar volto já. Estava à espera de encontrar motivação. Ora aí está!

  5. fernando canhão diz:

    Acerca de “E felizmente não sou de frequentar bordéis, lupanares ou as páginas de classificados do Correio da Manhã, senão ainda insultava o leitor escrevendo que Portugal era um país de homens e mulheres lúbricas, cafetões e cafetinas.”, peguei logo ali num Correio da Manhã, e tive uma surpresa. A coisa está dividida por cidades e vilas, e no geral existe homogeneidade na oferta, até se chegar ao Porto, Gaia, e mais outras tantas cidades ali da zona. Senhoras carenciadas economicamente, mulatas onde vale tudo, etc. etc., nada disso está a nossa disposição, que no norte é diferente com um nº de travestys activos e passivos a disparar à força toda, como o nº de elementos do BE que irão substituir o acabado Louçã. O que se passará lá por cima? Mas então o norte, não é e desde sempre o berço da viril nacionalidade?
    Acerca das cigarras e outra bicharada, duvido que algum pássaro coma aquilo. Qualquer pessoa sabe que o doce trinado dos melros e outros tentilhões, se deve a uma rigorosa dieta de alpista e milho painço, preferencialmente dada á mão.
    Do senhor mencionado não sei quem seja, não me recordo dele na Lapa, aliás tal como do actual Presidente Cavaco Silva, que se bem que votando na delegação do Pedro Nunes, também nunca vi na Cristal ou Valquíria.

    • Pedro Bidarra diz:

      Tudo muito estranho é o que lhe digo. Deve ser o apregoado fim do mundo.

      • fernando canhão diz:

        Já imagino uma idosa, por exemplo familiar de Pinto da Costa, transformada em estátua de sal, isto só para começar a aquecer o ambiente. Uma fraquissima formação religiosa impede-me saber a ligação de Loth à sua idosa de qualidade salina equivalente, daí o escusar-me a dizer que é sogra, mãe ou prima.
        Uma nota, nos anuncios do Correio da Manhã enquanto que no Sul se insiste que a coisa é sem pressas e de sigilo garantido, no Norte sugere-se que aquilo é de descasca pessegueiro e que quem experimenta volta sempre, à politica bem entendido.

  6. Pedro, o que é uma formiga?

    • fernando canhão diz:

      Se não é descrita no Herr Eugen Dühring’s Revolution in Science, normalmente chamado Engels’ Anti- Dühring, então é apenas fruto da imaginação, de pessoas que não teem com que se entreter.

    • Pedro Bidarra diz:

      As formigas são o gênero animal de maior sucesso na história terrestre, constituindo de 15% a 20% de toda a biomassa animal terrestre.
      Em partes de África, as formigas são consideradas mensageiras dos deuses. Algumas religiões dos índios norte-americanos, como os Hopi, consideram as formigas como os primeiros habitantes do mundo. Outras usam picadas de formigas em cerimônias de iniciação, como teste de resistência.

      A maioria das espécies de formigas domésticas são altamente repulsivas ao cravo, sendo este um bom agente para combater invasões.[carece de fontes]

      • fernando canhão diz:

        Os animais são nossos amigos e contra isso nada posso fazer. Agora que 15 a 20% é muita fruta, isso é um facto, pelo que deixo, e desde já de confiar no Anti– Düh­ring, aliás nesta obra nada se dizer acerca de por exemplo girafas e elefantes já me tinha colocado a pulga atrás da orelha. O seu a seu dono. Sugiro inclusive a quem de direito a elaboração de uma lista dos bichos aceites como tal, ou de qualidade equivalente, para evitar daqui em diante mal entendidos. se possivel este documento seria apresentado antes do Natal, de modo a facilitar adopções, uma vez quea miudagem vai lerpar nas prendas e muito. É sabido que os miudos adoram animais, preferindo-os a prendas sempre caras e dificeis de escolher.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Pode carecer de fontes, mas assim, empiricamente, termos cá tido uma revolução que foi de cravos, será que…

  8. nanovp diz:

    E as formigas verdes??? ” where the green ants dream” é um interessante filme de Herzog, que toca em alguns dos assuntos aqui discutidos…mas que eu saiba não se fala de cigarras verdes…

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