Amantes, favoritas, amásias, concubinas

 

Nelly Gwyn, favorita do rei e estimada pela rainha, a portuguesa Catarina

Penso nas amantes, favoritas, amásias, concubinas, Madame de Pompadour, Ana Bolena ou Madame Du Barry, Coco Chanel ou Kiki de Montparnasse, Katharine Hepburn ou Marilyn. A literatura conferiu-lhes alguma dignidade, por vezes vestiu-lhes uma tiara de lenda. Mas os costumes, o olhar da rua, o do palácio também, foi cruel com elas. A maior parte dos estudos feministas contemporâneos também. Gosto de pensar que essas mulheres e os intermitentes homens delas viveram histórias (ou pelo menos pedaços de histórias) de ternura e de amor. Mais arrebatadas umas vezes, superando humilhações outras. E até roçando o sublime mesmo quando era sórdida a cama em que se deitavam.

Também essa outra história é a história desses humanos. Está dito nos romances, na poesia, na pintura e na ópera de um século. Que aquelas pessoas foram felizes e infelizes, sublimes e canalhas, que é isso afinal a humanidade que somos. E provavelmente a que temos de ser, se é que Darwin tem algum valor.

Insisto num ponto: há sempre outra história na história dos humanos. Acrescento: a história de um tempo dá depois, nos outros tempos, muito mais histórias do que as que teve no seu tempo — algumas delas, se as ouvissem, matariam de susto os que as viveram. “Não foi nada disso,” digo eu a tantas evocações do passado que conheço dos anos 60 e 70.

Hoje diz-se: “porque o amor exige liberdade”. É o que toda a gente diz hoje e ai jesus. Não tenho essa certeza. Há mesmo quem pense que só há amor onde e quando se prescinde da liberdade. Como narrativa e estética prefiro esta segunda hipótese.

Também discordo que se pense um tempo não com as suas categorias mentais e morais, mas com as nossas, que esse tempo não tinha ou desconhecia. Como discordo das generalizações  que garantem uma secular infelicidade das mulheres, as casadas, as amásias, concubinas, teúdas e manteúdas e mais os mil qualificativos que as põem em cama legítima ou alheia. É o mesmo que dizer, hoje, que o casamento é apenas uma fonte de permanente infelicidade (e é-o em tantos casos, mas…). Será? Seriam?

Gosto da liberdade que hoje temos, da igualdade que nos assiste ou perseguimos. Mas também, daqui a 100 anos, alguém há-de olhar para este nosso tempo com desdém e altivez, realçando, com os óculos do tempo que há-de vir, a fraqueza, desconcerto e miséria dos terríveis tempos sentimentais, económicos, espirituais que nós hoje vivemos. O que não há-de ser totalmente mentira, nem totalmente verdade…

Não ficaria de bem comigo se não dissesse que algumas dessas mulheres – amásias, amantes e concubinas – mesmo falando só de séculos que ainda se roçam por este incipiente século XXI, para não me meter noutras arqueológicas escavações, foram mulheres assombrosamente livres. Pelos critérios da época delas, claro, mas mesmo pelos de hoje, quando conscientes de ser retrospectivo o nosso olhar. Gostava de lhes dizer que, do “sanitário” século XXI, ainda há quem (e não é só a Camille Paglia) lance uns olhares enternecidamente concupiscentes ao muito amor com que tanto amaram e foram amadas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Amantes, favoritas, amásias, concubinas

  1. Paula Santos diz:

    Que texto triste! Que é como quem diz, que texto delicioso! 😉
    Obrigada por estes momentos.

  2. Ivone Costa diz:

    Manuel, os franceses não lhes rejeitavam tributo. Não foram eles que criaram o título de “Maîtresse en titre”? E mais, muita história da História terá passado por essa camas paralelas, mais talvez do que pelas legítimas.

  3. Luciana diz:

    Vou evitar os adjetivos, seriam enfáticos e você já os leu todos. Só digo que tratei de divulgar em todas as redes sociais que frequento. E que me doeu um pouco não estar – tal post – também no meu Biscate. Era como luva! Enfim, digo que a pobre Eleanor Herman escreveu este que segue o link, em 272 páginas e não disse assim, tão bem.

    http://migre.me/axhyd

    (foi-me dado com uma dedicatória peculiar, se não estivesse guardadinho em outra cidade, bem a copiava aqui)

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Ei Luciana, olhe que é um post de circunstância e em que saio de tom. Tenho um bocadinho de receio de que esteja a gostar mais do que a prosa (e o argumentário) merece. Obrigado pela entusiástica simpatia…

    • Luciana diz:

      Manuel, terei que discordar – e com a ênfase (ou entusiasmo) que me é própria. Há mesmo posts nos quais já chego com o olhar admirativo que a estima qualifica. Quando se trata de cinema, por exemplo, pode-se sempre contar com a complacência da minha parte. Mas este não é o caso. É o tema – que me é caro – mais a argumentação – que se mostra fluida. Talvez, ah, talvez, sair do tom seja a forma afinada de ser original.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    As outras e a ‘respetiva’. O amor versus lubricidade. No texto, julgo, estas dualidades são aparências. Real é o âmago onde a vida é jogada: liberdade, arrojo, conveniências, valores precários, afetos. A enguia que é o tempo, como afirma o Manuel, assentirá ou não.

  6. oh! realmente o Manel tem razão. duma maneira ou doutra estamos sempre a falar de amor.
    que enjoo …
    (leia-se, sinta-se , cheira-se, )
    ai … o amor!

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