Arte poética

 

Estendo a mão aos dias por vir

como se rezasse a deuses

de uma ordem tão antiga

que nem as teogonias soubessem

onde têm eles morada e donde lançam

os anjos que pisam em desafio

o tapete rubro da desmesura.

Tenho com o caos uma proximidade de sangue

e aceito-lhe a herança incómoda

no locus crepuscular de cada poema.

Este é o caminho

que não vai a parte alguma,

a rota dos fantasmas que procuram

navios onde ancorar.

Sei da vida pelas sombras

na parede onde desenho

pequenos sinais e taças de veneno

ou a adaga certeira de uma sílaba

como se, também para mim, o verbo

se dispusesse

a pacientes epifanias.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Arte poética

  1. curioso (homen agem) diz:

    beleza sentida, cheia de sentido, agora terá nascido?

    Dúvida

    Amor
    a tua voz
    e a minha sensação de vácuo

    de liberdades paralelas
    ontem
    esquinas encontradas
    no ângulo dos lábios

    Amor
    a tua lâmpada de nevoeiro
    sulcado
    manhãs de aves
    súbitas
    com noites inventadas

    nada
    é o teu rosto
    insetos de vertigem
    sem paisagem.

    MTH

  2. Ivone Costa diz:

    Curioso, obrigada pela companhia que aqui me deixou. Mas é de um tal calibre que a não mereço, por certo.

  3. Poucas palavras, a abrir o horizonte…”sei da vida pelas sombras” e ficamos nós também a saber…

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    um poema mesmo.
    que não é pastiche ou poema-piada. eles são cada vez mais raros. talvez por conta da ‘indecibilidade’ e da ‘indiferencia’ dos poetas pós-modernos. 🙂 obrigado, ivone, por ser pós-pós-moderna. ou será eterna, como diz o drummond?

  5. Ivone Costa diz:

    Se o Drummond diz, é verdade. :)Obrigada digo eu, Ruy.

  6. Helena Sacadura Cabral diz:

    Já tinha saudade dos teus poemas!

  7. Ivone Costa diz:

    Obrigada, Helena. Eles andam um bocado afastados ou, muito provavelmente, foram-se embora de vez.

Os comentários estão fechados.