As Voltas no Tempo

Balthus, “The Triangular Field”, 1955.

Era um campo amarelo de trigo, a eira de granito a olhá-lo de cima. Tu vestias um vestido branco de verão, passavas a mão pelo cabelo, e lançavas o sorriso como se de uma arma se tratasse.

-Fui ontem lá abaixo, e já não reconheci ninguém!

Muitas vezes colocávamos as cadeiras coloridas e ajustáveis mesmo junto ao muro baixo, coberto de erva, onde as lagartixas esverdeadas se escapuliam por entre fendas de sombra; o muro a olhar para o campo, por cima das primeiras filas da vinha fresca, as bagas pequenas antes da época de podar os ramos, na vindima.

De noite conversávamos dentro do carro, as luzes apagadas, a serra escura na noite. Era como se fosse um outro mundo, imaginado, tudo o resto estava longe.

-Ninguém lá em casa ficou a saber, acreditas? E eu a pensar que dávamos tanto nas vistas, tu então, que não conseguias disfarçar…

As idas à vila, ao princípio com alguma vergonha e timidez, com o correr dos anos ficava-se até de manhã, a ver o dia a aparecer no rio espelhado. Não havia tempo nem se contavam as horas, apenas o cheiro da pele que perdurava na noite, embranquecida nos lençóis. Durante o dia, na época de feiras, trocavam-se despercebidamente olhares, e qualquer momento era propício a um encontro apressado de troca de palavras, o toque de uma mão que passa a correr, mas obriga a um olhar.

-Lembras-te do António João, que nos metia medo com a sua tosse profunda, cavernosa? Enorme, no seu fato de macaco, sentava-se à porta do lagar numa cadeira que gemia de peso,  a bebericar tragos de vinho verde. Gostava de receber visitas, oferecer um copo, oportunidade de acompanhá-las no acto. Servia o vinho, que guardava, frio, num tanque de água de pedra, em copos imundos de vidro grosso, que sempre imaginei terem aranhas minúsculas no fundo.

Os jantares arrastavam-se pela noite quente a dentro. Com o passar dos anos os ruídos lá de fora mudavam, a porta que se abria sobre a varanda imóvel no verão sem vento. Lembro-me da história de um lobo que tinha aterrorizado as gentes, e imaginava as montanhas frias no inverno com os uivos dos pobres animais, que nunca cheguei a ver.

O cheiro era dos bois misturado com os pinheiros, e de terra seca, o sol transformava o campo em transparências de verde. À tarde ouviam-se os melros sobre as árvores de fruto.

-Pois é mas isso é tudo imaginado, não percebes? É a tua imaginação! Eu já não sou capaz de me lembrar como é que as coisas se passaram.

Aos poucos a era foi crescendo, tomando conta das paredes caiadas de branco. Envelheceste, os cabelos brancos tornaram-se mais finos, passavas horas baloiçando numa cadeira em frente da janela da sala.

-No fundo nunca nos habituamos à mudança.

A paisagem mudou com a construção das estradas modernas, sinuosas, à volta das quais medonhos edifícios foram nascendo, escondendo os plátanos, a vinha e toda uma vida verde.

Não nos habituamos à mudança porque nada é diferente de nada, e tudo se repete sem que nos apercebamos disso.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a As Voltas no Tempo

  1. sid diz:

    Uma vez alguém me respondeu: “progredimos mas não evoluímos”
    Muda-se o forma mas a essência é sempre a mesma, não passamos de um animal, um animal racional
    um ser ao qual a vida dá a faculdade emocional, a felicidade da criança, a dor do amadurecimento e a inevitabilidade da morte.

    • nanovp diz:

      No fundo é isso mesmo, o que muda acaba por ser pouco, (o tal progredir que pode não ser evolução) e felizmente também…mesmo a inevitabilidade da morte como diz, penso que não suportaria a ideia de uma existência terrestre que não acaba nunca….Obrigadonpelo comentário!

      • sid. diz:

        acontece que a natureza humana ignora e esconde esse facto, principalmente quando esta no auge da vida, quando tem o poder de transformar o mundo, falo-o maioritariamente para alimentar o seu ego.
        Depois…um dia sente que a morte vem e que afinal não é mais do que um pequeno fragmento de vida a morrer, lamenta… procura o perdão para morrer em paz.
        Infeliz daquele que tem de confiar o seu destino ao perdão oferecido pela morte,pois para esses de nada lhes serve o tempo que por cá andam, já estão mortos.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Bernardo, gostei das idas à vila e, é verdade, por mais que se tente nunca se consegue disfarçar. Nada é diferente de nada.

  3. nanovp diz:

    E o melhor disfarce eram as idas à vila!!!!

  4. Rita V diz:

    Oh! não sei. é um bocadinho ‘tiste’
    🙂

Os comentários estão fechados.