Bater

Ele bem que consegue dispersar-se. E retirar as chaves da ignição com um sorriso. Algo raro, pois costuma seguir de bicicleta ao trabalho. Mas a gostosa facilidade e o barulho em clique antes que o chaveiro de couro sinta-lhe a pressão dos dedos. 

Sereno, sobe os degraus na direção da portaria. Nenhum peso na consciência. Ou mesmo nas mãos. Está de volta.

Quer chegar ao apartamento, pôr tudo em ordem, suar um pouco antes do banho. A serenidade dele não bate com a aflição que o momento só poucos passos depois instalaria. Reapanha ao bolso, joga o molhe de chaves para cima, e acrobaticamente o colhe com a outra mão às costas. Uma pantomima que diverte a pequena, a segui-lo com os olhos pelos jardins do condomínio. Mas as chaves engancham nos galhos do jambeiro. E ele tem de saltar para desenganchá-las. E, então, ela contém o riso, mão à boca.

No elevador, conversa não além de protocolar com a vizinha do 907. E há uma suave fragrância.

Sobem.

Se temos tempo, o tempo grita que não será longo. Será tempo uma espiral batendo à porta de uma linha reta?

Num piscar de olhos, está em casa. E já bem depois de arrumar os livros. Acertar a correspondência. Assistir o telejornal. Discutir com a mulher o destino das férias. Louvar o sabor do robalo ao molho remoulade. (Que seria da vida sem essas refeições de peixe?) Dar alguns longos telefonemas. Verificar meia-dúzia de planilhas. Brincar a desistir com a filha – o cão a pular em torno. E ajudar-lhe com a tarefa de casa do inglês.

Está em casa. Mais precisamente dentro da banheira. Descontando, sob a água morna, a profusão de curvas que o olho batera contra e ao acaso, no elevador.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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22 respostas a Bater

  1. Rita V diz:

    ah ah ah
    bela resposta

  2. Os batimentos do acaso … 🙂

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    tu o dizes, ivone.

  4. Foi a “suave fragância”, que a curvas não olham os homens!!!!

  5. Panurgo diz:

    Uma vida assim é que eu gostava.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    espinho entranhado no outro, é sempre mais em riba, mr. peter panurgo.

  7. Panurgo diz:

    É uma maneira de ver a coisa. Essa intoxicação de limpeza e normalidade, chegar a esse estado em que qualquer mulher estranha nos excita; você diz que é espinho? Está bem.

    Isto lembrou-me aquela chegada pessoana na Hora do Diabo, e já não leio isso há anos. Ando a precisar dum banho desses.

  8. Ruy Vasconcelos diz:

    raro modo de ler. mas a conclusão não corre um pouquinho? por que supor a vizinha como ‘qualquer mulher estranha’? pode até ser.
    mas também pode não ser. imagine que ambos cheguem de volta do trabalho + ou – no mesmo horário. e compartilhem o mesmo elevador, vez em quando. ou antes haja alguma conversa no estacionamento…e, talvez, não tão unilateral, apesar de respeitosa…
    então, plausibilidades também dependem bastante do leitor, da intenção…

    e gostei dessa inesperada associação que propõe com a ‘hora do diabo’.

    • Panurgo diz:

      Tinha respondido, mas isto pifou. Não me recordo bem do que tinha dito, mas era qualquer coisa como ser igual se é estranha ou não. Nesse estado-idade um tipo acabou. Qualquer mulher estranha ou feia, mais ou menos da mesma idade, é uma tesão do piorio. E se dá um bocado de conversa, então nada feito! Um tipo vai para a casa de banho a toda a hora. É aproveitar, que com a crise esta vida maravilhosa com uma mulher por quem ninguém dá nada, uma filha labrega, um trabalheco estúpido e fútil, meia dúzia de livros da margarida rebelo pinto por arrumar, férias e umas punhetas à conta da vizinha, está acabar.

      Cá está: “E foi, sorrindo, mas sem lhe dar um beijo – o do costume, que ninguém ao dar sabe se é costume se é beijo. Nenhum deles reparou que se não tinha beijado”.

      Fez-me mesmo lembrar a Hora do Diabo e agora vou ter de lê-la. Muitíssimo obrigado.

  9. Panurgo diz:

    É indiferente; um tipo quando está nesse estado-idade acabou. qualquer mulher estranha ou feia (esqueci-me de acrescentar) é uma tesão; mesmo que a conversa de elevador seja, Então, vizinho, hoje vem tarde, hã?, aquilo dá a volta à cabeça dum gajo. O verbo vir, fora de brincadeiras, é tramado.

    No fundo, uma carrinha renault mégane, uma mulher que ninguém dê nada por ela, um t2 a 50 anos, um par de filhos labregos, sogros, férias, um trabalheco estúpido e umas punhetas à conta duma vizinha qualquer. Uma vida de sonho.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Elevadores cúmplices pela demora no ascender e descer estão prestes a extinguir-se. Algum anjo malévolo poderá decidir arrasá-los; substituí-los pelas comuns engenhocas velozes. Nestas, a correria linear entre o piso 0 e o 10º mal dá para lobrigar curvas apetitosas. “Vai-se a ver” e o desgraçado nem passou disso mesmo. A banheira talvez o apaziguamento.
    Belo texto Ruy!

  11. Ruy Vasconcelos diz:

    esplêndida observação. folgo em saber, céu, que os elevadores de lenta ascensão estão em extinção. porém minha hipótese é bem outra. é a de que no futuro, eles serão virtuais. e, quem sabe, nossas rotinas também virtualizando-se, o desgraçado não precise mais (literalmente) lançar mão do recurso.

    mas, não. acho improvável. e parece que seria jogar fora a fricção, ops, digo, a solução (ainda que paliativa) junto com a água suja.

  12. Manuel S. Fonseca diz:

    “Que seria da vida sem essas refeições de peixe?” Pois hoje, meu velho Ruy, naquela hora em que Lisboa estava de ananases, comi um robalo. Que a mão tirou à brasa. Juntei-lhe o seu texto que soube a molho remoulade.

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