Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon

Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon salvaram-me. Salvaram-me da ignorância, do preconceito, da teimosia.

Tavernier é um septuagenário de Lyon, a cidade das avenidas azul-bebé e dos carniceiros nazis, dos irmãos Lumière e de Joel Robuchon, das luzes alpinas e dos cafés angelicais, de Saint-Jean e do melhor soufflé do planeta. Tavernier é realizador – “”Round Midnight”, ou Charlie Parker, Lester Young e Mingus por Dexter Gordon – mas, sobretudo, é pai europeu e mediterrânico do cinamor, o amor pelo cinema (a cinefilia é uma doença, não se aconselha a ninguém). Tavernier é filho de um membro da Resistência francesa, cineclubista, redactor dos Cahiers, mas a sua casa semiótica foi a “Positif”, uma revista por vezes tão indispensável como os cadernos amarelos, embora menos bafejada pelos ares do tempo.

Desde o início dos anos 60, Tavernier procedeu à maior revisão europeia de um dos períodos artísticos mais importantes da história da Humanidade: o Cinema Clássico Americano. Uma década depois, ele e outro pelintra de luvas brancas, Jean-Pierre Coursodon, historiador luminoso e salteador de arcas perdidas a viver nos EUA desde 1965, ergueram uma catedral românica (e romântica) nos escombros ideológicos da escrita engagé: “30 Ans de Cinéma Américain”. Reviram-no, viram mais, escreveram mais, pensaram melhor, e vinte anos mais tarde, nova catedral, esta gótica (por vezes exótica), de vitrais a perder de vista: “50 Ans de Cinéma Américain”.

Após preciosa actualização em 1994, “50 Ans de Cinéma Américain” tornou-se o Novo Testamento do cinamor: um enquadramento histórico do sistema de estúdios, uma explicação da censura (do Código Hays e da “Caça às Bruxas”, sem sanguinidades ou proselitismos) um dicionário de guionistas – e bum! apaixonei-me – com 300 entradas, um resumo quantitativo mas ricamente comentado da produção entre 1939 e 1991 e 800 páginas dedicadas aos realizadores mais importantes do período entre 1927 (o advento do sonoro) e 1975 (o arranque da “era blockbuster”). São mais de 1500 páginas em dois volumes.

Em 1995, numa viagem a Paris, comprei a recém-publicada “edition de poche” numa livrariazinha de Montmartre. Custou 45 euros, uma pechincha. Gorda como um porco-preto, com 1274 páginas em letras miudinhas, faz-me companhia há 17 anos, como um amigo bom conversador e erudito. Apanhei uma gripe nessa visita a Paris – estava um frio do Trocadero – e passei três dias na cama. Devorei o livrão de bolso em 48 horas. Recomecei-o logo a seguir.

Imaginem uma obra que resuma toda a História do Pensamento da Grécia Antiga com sageza, cultura, espírito crítico, mundividência. Imaginem um livro que resuma toda a História social, artística e estética do Renascimento. Para o Cinema Clássico Americano (1929 – 1968), “50 Ans de Cinéma Américain” é esse livro e Tavernier o seu noivo, mentor, soberano, garimpeiro. Trata-se de um dicionário? Sem dúvida. Mas lê-se como o romance épico e intimista de uma das maiores aventuras do engenho humano: Hollywood.

Tavernier e Coursodon não se limitam a comentar/criticar filmes, realizadores, estúdios, tendências, géneros. São descobridores de mundos, lanternas mentais, câmaras escuras da alma, abre-corações, académicos do espírito, melhores amigos do olhar. Tavernier explica com clareza cristalina porque os melhores filmes de Mervin LeRoy são os produzidos entre 1931 e 1933. Coursodon ilumina “They Won’t Forget”, uma grande obra desconhecida do mesmo LeRoy.

Foi Tavernier que me apresentou – vi-os em cada parágrafo antes de os ver em cada cinema – “Petulia” de Richard Lester (elegia fúnebre num carrossel de slapstick), “The Reckless Moment” de Max Ophuls (ciúmes cinzentos por crimes húmidos), “14 Hours” de Henry Hathaway (mise en abime da polícia de giro), “Boomerang” de Elia Kazan (a espessura do “Rashomon” de Kurosawa, uma década mais cedo). Foi Coursodon que me mostrou pela primeira vez “The Gambler”, de Karel Reisz (acreditam que há um filme do nível – e da gravitas – de “Taxi Driver” rodado um ano antes?).

Devo mais a Tavernier e a Coursodon do que devo a alguns tios, amigos, ruas, luas, cidades, saudades.

45 francos? É o preço da alegria.

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon

  1. Ivone Costa diz:

    Gostei muito, Pedro. E é mesmo isso: pode dever-se mais a um livro ou a alguns autores do que às ruas, luas e que tais.

  2. Já queria ter o livro. Agora ainda mais.
    Gramo à brava do Tavernier. Quase tanto como dos meus amigos amarelos. Dele só tenho o “Amis Américains” que tem as entretiens avec les grands auteurs du cinèma américain. Abençoada livraria de Montmartre.

  3. Estou conquistado, absolutamente conquistado! Essa edição de “poche” sabia bem agora nestes tempos mais comlicados…Gostei muito do Tavernier no documentário sobre os estúdios RKO…

  4. Rita V diz:

    esse seu entusiasmo é contagiante. fiquei a pensar nas dívidas.

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    é. há livros…

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