Breve encontro em Paris

O hall do Georges V parecia-lhe à primeira vista não exibir qualquer sinal da crise. Salvo quando se olhava para fora, para a avenida, por uma das grandes janelas que ladeavam a clássica entrada: da fila de automóveis de luxo que há quatro anos o espantara um pouco, quando visitara Paris pela primeira vez, restava apenas um Bentley Continental verde musgo e um Ferrari qualquer (achava-os todos iguais, os modernos, claro).
Também no quartier Drouot – onde conseguira licitar uma magnífica edição ilustrada de Quijote, dos finais do século XVIII, e um incrível rinoceronte de prata montado à volta de um ovo de avestruz, uma coisa portuguesa já do século XX – o negócio das antiguidades mantinha um viço que desdizia o ar profundamente neura, quase irritado, com que o comércio parisiense em geral ia tratando os seus clientes, fossem eles quem fossem.
Talvez tivesse sido sempre assim, afinal da primeira vez permanecera na capital francesa apenas os três dias que durara o seu espectáculo… O sucesso inequívoco da sua actuação não lhe permitira escrutinar minimamente a cidade humana, até porque a outra, a de pedra, de rio, de ruas e pontes, de luz, o encandeara literalmente.
Já no bar, sentado confortavelmente à frente de um dry-martini (os franceses não faziam ideia do que era, por isso tivera de dar a receita – uma parte de martini vulgar, duas de gin, muito gelo e duas rodelas de limão), Rowitt Battlefield nem deu pela chegada de uma velha senhora de turbante de seda preso por um belo alfinete Art Déco nacarado. Altíssima e elegante no seu fato creme de calças bem vincadas, estacara a dois metros de si de bengala bem cravada no tapete, junto aos pés, mas de castão afastado do corpo, em nítida pose de desafio.
Quando a detectou, periférica no campo de visão, dirigiu-lhe o olhar aberto de forma instintiva, como que lhe reconhecendo familiaridade imediata.
O que era impossível, nunca a vira na vida – nem em fotografia.
Só soubera da existência de Ada há pouco menos de dois meses, quando lera numa revista sobre pintura que ela se intitulava baronesa italiana e filha da danseuse que posara com o marido para Van Dongen, no seu quadro fauve Lucie and her partner. Achara um pouco estranho que uma mulher de cor, ainda que bastante clara, pudesse ser baronesa na Europa, e, ao que tudo indicava, muito rica. Quanto à falta de ilustração, o articulista explicava-a com a negação da entrevistada em permitir qualquer fotografia.
O interesse de Rowitt era concreto: a sua mãe possuía uma litografia da obra que, segundo ela, retratava os seus avós em Paris, pouco antes da Primeira Guerra Mundial.
A serem verdade uma e outra versão, a velha mulher de olhar brilhante e face marcada por uma infinidade de finas rugas que lhe acentuavam a expressão irónica, era filha de Lucie e, consequentemente, sua avó.
Rowitt, momentaneamente intimidado pela presença dominadora da velha senhora (deveria andar pelos noventa, no mínimo), ergueu-se do sofá…, e esperou alguma reacção.
Ada reagiu:
Bem, se você se intitula meu neto o melhor é convidar-me para uma bebida, não é?!…
A mulher falara alto, bem alto (talvez fosse já um pouco surda, pensou Rowitt), o que o obrigou a mover-se com algum nervosismo à procura de um fauteil, que aproximou da mesa para que Ada ficasse perto de si.
Já comodamente sentada, de perna traçada, Ada assumiu a despesa da conversa:
Battlefield, então… Digamos que não é assim um nome tão invulgar como isso… E se pensa que vai herdar alguma coisa de mim pode ir tirando a ideia da cabeça: o meu testamento está feito e registado, acrescentou Ada – pondo de seguida a fina mão côr de canela no braço de Rowitt ao mesmo tempo que lhe sussurrava um «pede-me um Riesling, que à tarde só bebo vinho branco…».
Não prefere champagne?… inquiriu, quase a medo, o ainda jovem americano.
Xixi de francês? Par Dieu non!… Só o meu Riesling alsaciano, detesto bebidas borbulhantes, sentenciou a velhota enquanto acenava a um barman que passava por perto. – Mas diga-me lá, Row… Rowitt, é isso: como chegou à conclusão que somos parentes?…, e logo assim tão chegados?!…
Tirando a carteira do casaco de linho mostarda,  Battlefield entregou a Ada uma fotografia que reproduzia o retrato de Van Dongen.
O gritinho abafado de Ada Negri sinalizou a situação positivamente. A pergunta que fez de seguida foi retórica, mas Rowitt apercebeu-se de certa agitação nervosa no rictus quase instantâneo que as mil rugas desenharam com precisão e alto contraste. Recuperada a brônzea impassibilidade, a mulher proferiu nova pseudo-acusação:
Você soube da minha ligação a esse quadro, está a explorar a situação, quer aproveitar-se duma velha solitária… Não há forma nenhuma desse quadro nos ligar em algum lado…
Rowitt riu-se. Duas curtas gargalhadas, apenas.
Depois abriu outra vez a carteira, que pousara ao seu lado, e passou a Ada – com a face virada para baixo – uma velha fotografia a preto e branco.
A imagem mostrava um par de jovens mestiços numa típica imagem de casamento.
Permaneceu calado.
Ada não se mexia. Nem uma das suas mil rugas denunciava qualquer espécie de emoção. Apenas os olhos se abriam e cerravam devagar, como se focasse no seu interior uma memória coincidente.
Ada poisou a foto – virada para si – e bebericou pensativamente. Por fim disse:
Esta rapariga lembra-me realmente alguém…, no que foi imediatamente interrompida pelo putativo neto.
Claro que lembra, é a sua filha Clarissa Falco – e minha mãe. Mas antes que recomece a choramingar que está a ser enganada e que eu a quero roubar deixe-me dizer-lhe uma coisa: não quero saber do seu dinheiro para nada, vivo muito bem, sou reconhecido na minha actividade, tenho tudo o que quero em termos materiais. Portanto esqueça lá o herdeiro perdido e deixe o testamento em paz.
Suponho que sabe que ela chegou aos Estados Unidos em 1944…, com sete anos…
Agora a interrupção chegou da idosa senhora:
Aos Estados Unidos?!… Tanto quanto sei foi para o sul de França…, depois tentaria ir para Portugal, e depois logo se veria. Ela seguiu com uns amigos que ficaram de comunicar… Muitas mensagens mandei eu a ver se alguém respondia… Havia um serviço rádio em ondas curtas que enviava essas mensagens para todo o lado… Nunca tive uma resposta, como se pode ver… Esses foram uns tempos muito maus, muito confusos, não se sabia quem estava vivo, ou morto, ou só perdido sabe-se lá onde…
De novo a expressão inquisitória, numa cara completamente imóvel.
Morreu sim, há cerca de onze anos. Cancro. Mas contou-me tudo o que sabia, a história dos meus bisavós…, informou Rowitt.
Bisavós uma treta, que o arborícola não era meu pai!…
Arborícola?! Como pode dizer isso dum seu irmão de raça, mesmo que não seja seu pai?!… E já agora, como tem a certeza de que não era o seu pai?…
Ora!… Lucie contou-me, ela só me deixava tratá-la pelo nome próprio, nunca por mãe… As mulheres normalmente sabem quem são os pais dos seus filhos… Era um arborícola sim! Do Congo Belga, metade da família ainda era canibal por lá! E viveu sempre à custa do sucesso de Lucie, era um incapaz completo!…
Mas deu-lhe o seu primeiro nome civil, veja lá…, que por sinal é o que uso. E se não servia para nada porque o queria como seu par exclusivo a… a Lucie?…
Ela dizia que só sabia dançar com ele… Aliás, o quadro mostra bem que o… enfim, que ele nada tinha a ver com ela.
Como assim?…
A laranja, meu filho, a laranja… Se fosse de outro modo o Van Dongen tinha posto lá uma maçã, não acha?… É óbvio!, declarou Ada sem apelo, marcando a sua opinião na forma segura com que entrecruzou os dedos finos à volta do castão da bengala, apoiando o queixo no conjunto.
Rowitt Battlefield sorriu levemente a estas palavras, para depois perguntar:
Sabe o que faço na vida?… Sou bailarino e coreógrafo de uma das mais importantes companhias de bailado contemporâneo de Nova Iorque…
Não me digas! És maricas, aposto…
Não sou maricas coisa nenhuma! Acho o corpo dos homens feiíssimo, cheio de pelos e protuberâncias obscenas, além de que genericamente são burros como penedos.
O quê?… Um esteta, como certamente serás, não vê nada de belo num corpo masculino?… Num David?…
Recostada, de copo na mão, Ada exibia agora o ar de quem gozava a situação. Rowiit condescendeu:
Sim…, como um belo animal…
Ahhhh!… Então eles são animais, mas o meu arborícola, que nada tinha de belo, não pode ser um arborícola… Ce n’est pas trop juste, on peut dire…
Bem, esqueça isso agora. Só lhe falei da minha profissão porque sei uma coisa que a… a Ada!… talvez não saiba.
O silêncio estático, o porte quase hierático daquela velha mestiça clarinha e teimosa – que devia ter sido muito bela, ainda o era – denunciava uma desconfiança inata por quem lhe pretendesse ensinar qualquer coisa.
Battlefield prosseguiu:
Quando alguém só consegue dançar com um único par, isso quer dizer que quem realmente ali sabe dançar é o par requisitado, e não a requisitante…
A resposta de Ada Negri não permitiu réplica:
Ah!, não acredito em nada disso. Mudando de assunto: gostas de ostras?…
Apanhado no desvio, o jovem fez que sim com a cabeça, sugerindo o Café aux Huitres.
Nova resposta letal:
Nem pensar nisso é bom! Vamos a Pigalle, ao Champagne, por exemplo. Pigalle é o único sítio em Paris onde ainda há gente decente.
Enquanto dava o braço à velha senhora, que recusara com irritação qualquer ajuda para se levantar, Rowitt Battlefield sentiu-se muito bem disposto consigo e com o desenrolar dos acontecimentos: iria agora saber como é que a sua reencontrada avó sobrevivera a duas guerras, e se tornara baronesa e riquíssima. E, claro, porque detestava tanto o homem que a perfilhara.
Adorava a memória dos velhos…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

19 respostas a Breve encontro em Paris

  1. excepcional escrita, Kiki

  2. teresafont diz:

    António, engana-se que também cá estou…E em boa hora.
    E vá escrever JÁ o II cap.!
    Sobre o texto, parabéns, mas isso já sabe.

    (JÁ! deixe os dragões e os leões e as águias! Mau.)

  3. É, isto podia ser o início dum conto maiorzinho…
    Agora vou é dormir, os dragões é só amanhã e o viciozinho da bola nada mo tira.
    Um beijo!

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Que excelente “Curta” deu entrada no museu! Nela, os ícones parisienses, a laranja que interpela e se escusa explicações enquanto estimula as do observador.
    Cornelis Theodorus Marie Van Don­gen, fauvista, anarquista e mundano holandês, deslumbrou o ’tout Paris’ ao retratar fielmente os loucos anos vinte na capital francesa. Os rostos das telas são meditativos, sérios. Enigmáticos como a laranja nesta obra de 1911 – “O Parceiro de Lucie”. Na maioria, cristalizados sem um sorriso.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    A abrir a Bentleys e Ferraris e a acabar no Pigalle, quem é que não quer seguir este estranho par. Até se dança com eles, assim tu, António, deixes.

  6. Claro que deixo!
    Um abraço e um ‘pas de deux’…

  7. Rita V diz:

    António, sentei-me quietinha a ler. Lá fora um calor dos diabos, cá dentro fresco e acabei o Santini da semana. O portátil avisa-me que só tenho 10% de bateria e estou a torcer que pelo menos dê até ao fim deste maravilhoso princípio de conto. Não esteja tanto tempo sem ‘nos’ escrever. Gostei imennnnnnnnso.

  8. Ivone Costa diz:

    António, muito gostei eu deste texto e que bem as desenhou às personagens e à história pressentida. E tem pano para mangas de continuar por aí adiante …

  9. Luciana diz:

    que a saudade de textos que nos pegam pela mão (diria mesmo, toma-nos no colo) e leva-nos a passeios já andava a me incomodar. Gosto especialmente das descrições precisas, do turbante, por exemplo, que colocam a história aqui bem perto. Tão sua que é nossa. Reivindico, pois, nosso desenrolar 😉

  10. Maria Joao Calder diz:

    Depois de tanta interrupcao, acabei por ler, e fiquei a espera da continuacao… Ia mesmo lancada!!! Gostei muito! I can’t wait for the continuacao 🙂

  11. Fiquei preso do principio ao fim , fim que se espera que seja provisório! Queremos mais, agora que nos aguçou o apetite, venha o Pigalle e tudo mais…

  12. Pois, Bernardo, já percebi que arranjei responsabilidades…

  13. ruyvasconcelos diz:

    sua habitual destreza com palavras nestas curtas. chega causar certa inveja branca, antónio. desejava, no entanto, vê-lo desenvolver com mais fôlego o seu assunto da postagem passada: as breves e intensas peripécias de seus pais no rio.

Os comentários estão fechados.