Caída a rede de seda e a caxemira

Malangatana

Evitaram o das estrelas costumadas. As maçãs verdes na taça metalizada. Os tons terra e os almofadões alvos. Para o reencontro transgressor, apetecia-lhes alternativa de outras eras – o hotel do elevador revestido com ‘plexiglass’, vidro para os incautos. Em baixo, sabiam o panorama com genuínos verdes tropicais. Beira-rio, quase barra do Tejo, mais adivinhada do que vista. Mas fora antes o abraço estreito quando ele tocou e ela desceu. Trocaram os perfumes dos cabelos, a seda pela caxemira e viram-se depois. Meses e desencontros passados, era a primeira vez. (Re)Iniciação cautelosa. Em fundo, o medo de ter decorrido tempo demais. Entretanto, houvera silêncio, imagens como analepses na penumbra do cinema, a presença ausente. Por tudo, ensaiaram conversar no ‘lounge’ a céu aberto colado à água do estuário. Demora escassa, pois das palavras, em idos, houvera fartura.

Era de pecado a proposta. De todas, fora sempre essa a ilusão major. Transgredir como ar respirado. Na falta, definhavam e com eles os companheiros ou quem com o papel se identificasse. Não que o dissessem – protegiam a verdade que os roía e, pela omissão, anuíam à suposta partilha de corpo e ser. Corajosa cobardia de quem gosta de gostar. De quem troca gosto pelo amor ofertado. E a valentia ali tão perto, na suite onde a prometida venialidade do hall ganharia texturas, sabores, aromas e fantasias. Depois e antes, também servidas frente à vidraça debruçada sobre telhados modestamente encastelados até ao rio. O Douro, tom abaixo do rubi, no balão dos copos. O poncho de fina rede preta por vestido breve, a caxemira caída.

Corria solto o verbo, quando a inevitabilidade dos benquistos jogos do espírito correu. O dinheiro confere, a prazo, bom gosto àqueles cuja nascença e crescimento o depreciou? Sendo o dinheiro forma outra de poder, motiva integração em meios onde gosto educado é comum. Concertos, bailado, ópera ou teatro associam poderosos. Por imitação, cobiça?, das obras de arte alheias, é iniciado o cultivo da estética. E, porque do ouro bruto nascem jóias, modelar os humanos é propósito intemporal das sociedades. O dinheiro como propina na escola do bom gosto. Isto disseram eles.

Poncho despido, foram outros, em silêncios, os dizeres. A rede entretecida com seda caiu ao lado da caxemira.

Nota: texto que publiquei aqui.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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3 respostas a Caída a rede de seda e a caxemira

  1. Curioso (lamegando) diz:

    Quando?

  2. O dinheiro desapareceu, com a queda da caxemira e da seda, e se calhar levou com ele o “bom gosto ” e o “cultivo da estética”…só a autora saberá….

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Maria, o dinheiro nem se pode dizer bem que seja um veículo, eu acho que é logo uma limusina. Vai bem com seda e caxemira.

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