#3, Capri pas fini

 

 

Capri chega-lhe em flashes como fotografias.

Zarco não sabia se estava a viver aquilo ou se eram memórias que lhe chegavam em linhas de cristal, no momento em que o cálice está em tensão total antes de rebentar. Zarco estava no segundo antes. O metro a andar, ele parado. Sem perceber se antevia um futuro próximo ou se recordava um passado que não era dele.

– O futuro só foi criado para estragar o presente – ouviu a Bardot sussurrar.

E não quis escutar mais nada, nem um longínquo ‘Mind the gap!’.  Ela avança para ele e não existe outra coisa senão aquele olhar francês entre pestanas. Nova Iorque não existe, Londres desapareceu, ela um íman, ele de ferro. Por fora, claro.

Capri, capri cho de estrela. Nascida de um gap no meio do oceano.

Como não seguir-lhe os passos. Cinecittá para trás, o motorista Marco assegurava que de Roma a Nápoles seriam ‘Due horete, dottore!’, de pastilha elástica e olhar engasgado para a passageira ao lado de Zarco. Levou as bagagens até ao barco, por ele teria enfiado o Sedan mar adentro só para não a perder de vista. Adeus, Marco.

A ilha surgiu a preto e branco, fantasma translúcido na neblina das 6 da tarde. Zarco evitou a confusão no cais com a reserva antecipada por telefone. Luigi Vesuvio foi ao encontro e resgatou-os do assalto dos taxistas. Sorriso largo e bigode farfalhudo, era o motorista com o descapotável mais vistoso da ilha, amarelo e toldo às riscas. Falava sem parar, o que ajudava ao silêncio e às mãos apertadas no banco de trás. Mas Brigitte não resistia à paisagem. Quis parar para um mergulho numa enseada.

A caminho do hotel, Luigi parou a meio da longa subida. Saiu para colher as flores amarelas campestres que ofereceu ao rosto surpreendido e ainda molhado de Brigitte. Piscadela de olho ao dottore: o dia de Zarco estava ganho.

A noite também.

‘Vien!’, e despiram os nomes em devaneio inteiro, esquecidos ao luar. Os relógios tinham sido desinventados.

A angústia regressou com um galo estridente. Brigitte amparou John na alvorada e nos dias seguintes. A receita é antiga, nenhuma mulher resiste a um homem perdido.

Mas Zarco continuava inquieto. Sabia que a ilha não lhe tinha acontecido por acaso ou por desejo. Sabia que algo mais ía acontecer, algo que lhe tinha escapado nos papéis, que não soubera interpretar. Havia perigo neste regresso a Capri, tanto tempo depois.

E a ansiedade crescia, mal iludida entre golos de chianti e limoncello, frutas e doces cantos, entre a apanha de conchas e passeios de barco à grotta azzurra. Nem uma diva apaga tudo. Não o tempo todo.

Foi no dia do passeio solitário que as coisas se precipitaram. Zarco precisava de rever a figura esfíngica que interroga o mar. A estátua comunica sem gestos, guarda histórias antigas, sonhos escondidos. De súbito, o rosto fê-lo recordar Org.

O tiro veio sem aviso. ‘Mau, nem com data marcada isto pára! Não é hoje, não é hoje!’ Zarco fugiu pelos arbustos sem olhar para trás. Não tinha sido ferido. Alcançou a zona mais densa de árvores e só aí parou a espreitar, atrás de um tronco.

Do lado oposto ao do tiro, duas figuras negras caminham na sua direcção. Estão em contraluz. Zarco apenas pode distinguir os mantos a esvoaçar. Está encurralado. Só quando se aproximam mais consegue respirar. São as freiras do convento que se avista na colina. Percebe que vieram para falar com ele.

– Meu filho, sabemos o que se passa, mas não podemos dar-te guarida. Vem connosco, temos algo para te entregar.

Zarco seguiu as duas Irmãs, entre as árvores da encosta. Em baixo, o mar enchia o horizonte. O mar que em Capri existe como se fosse o céu. Ou o inferno.

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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10 respostas a #3, Capri pas fini

  1. Rita V diz:

    Fantásticooooo ….. ah ah ah.

  2. curioso (pouco mas bom) diz:

    só pela bagagem: 20 valores 😉

  3. Uau! Capri, Bardot, Zarco e freiras….isto promete!!!

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Teresinha, espero que uma das freiras seja a Catherine Deneuve… e a outra o Maurice Chevalier. So funny: vê-se que gostas mesmo de Capri.

  5. Gosto de ilhas, sim, Manel. E Capri convoca boas recordações. Encontrei de facto as Irmãs de S. Giacomo. Estas aqui no Cadavre devem ser outras, aquelas de Deneuve pouco tinham…

  6. curioso (ba gajeiro) diz:

    só a sua: bússola e farnel deu para descobrir bem Escrever 😉

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