Cinema e bambolinas

Edward Hopper

Por quem ama bambolinas e panos de boca é dito ter o cinema vocação para tontarias. Conteúdos servidos por diálogos significantes pertencem ao teatro que escassos recursos cenográficos não contaminam. O cinema vive do falso nos efeitos especiais – enche o olho aos espectadores com catástrofes, aberrações galácticas, viagens no tempo. Infantil tudo, classificam os bem caídos na paixão pelo teatro, mas com palas que limitam pensar abrangente. Acrescentam: a computação gráfica finou a sétima arte. Travessos ou maliciosos vão além: a arte sete respeita agora à culinária e à Disney o futuro nos ecrãs que iluminam os negrumes cúmplices das salas de cinema. Woody Allen e pares, vestígios dinossáurios.

Conciliatório na aparência, quem vive o teatro como amante enciumado admite haver bons filmes. Óbvio. Tanto como a peçonha do acrescento: qualquer filme excelente é peça de teatro encapuçada sem a possibilidade de, no final, deambularmos pelos camarins cumprimentando atores e encenador. E martela a frase: “bom cinema é teatro democrático”.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

10 respostas a Cinema e bambolinas

  1. curioso (de monóculo) diz:

    apetece afinar com aquele finou e remover os dinossáurios dali, perguntando: e não há mau teatro?

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Maria, isso é que era bom. Mas o cinema tem uma vantagem, tem as costas largas: ele é literatos em fúria, ele é o vetusto pessoal do teatro, uma fila interminável de despeito a recusarem o que é tão evidentemente original e singular.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Publiquei este parecer ouvido tão frequentemente pela minha cansada paciência. Falaciosa a argumentação, intolerância que desdenho.

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    instigante, céu. mas e quando se pensa nos documentários, e em como não são menos ficção? e então, como abrir conversa com as pessoas de uma aldeia que se acha do outro lado do mundo?
    já quanto a seguir aos bastidores e cumprimentar os artistas, a equipe de produção, parece que essa possibilidade ainda existe. em tese, de forma limitada, nas pré-estreias, nos lançamentos.
    e talvez fosse melhor que não existisse.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Cinema versus teatro é polémica antiga nos meus ouvidos. Cavaqueiras amenas ficam ácidas quando o interlocutor é radical nos horizontes que lobriga.
      E sim, concordo, o mistério nas artes reside muitas vezes em ignorarmos características reais de autores e atores.

  4. Rita V diz:

    eu sabia que os espetadores haviam de aparecer
    http://www.escreveretriste.com/2012/06/o-que-pena/
    Lol

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Também ri ao dar conta dos espetadores. Visitei o link e gostei de saber ter sido eu a estreá-los. 🙂

  5. Cada um como cada qual não é ? Teatro é teatro, cinema é cinema…o pior de tudo? Cinema a querer ser teatro, e teatro a querer ser cinema…

Os comentários estão fechados.