Conversa com uma montanha pelo meio

Com a preciosa ajuda da Rita, foi possível bater à porta da Cristina Ataíde e falar com ela, em São Paulo, como se estivéssemos aqui.

Cristina Ataíde, Another Day, 2007

Para si, a montanha é mágica?  CA – Sim, mágica e transcendente.  Por que são umas montanhas vermelhas e outras pretas? Vermelhas de paixão e ascensão. Pretas de silêncio e recolhimento. Elas representam, de alguma forma, a tensão essencial do mundo, Eros e Thanatos? Sim, um diálogo constante entre os dois. Quantas cores esconde o vermelho? Não esconde, revela. Vermelho solar  – energia masculina. Vermelho nocturno – energia feminina.  Qual o tipo de letra usado no título? American Typewriter? Courrier? Já não me lembro. O verbo ser, no corpo do é, vem a cair montanha abaixo. Ser é estar em queda? Ou a escorregar suavemente para recomeçar a subida. Cada ser humano é uma montanha, um corpo isolado no grande mapa do mundo? A montanha nunca está isolada. Está rodeada de outros corpos que, também eles, ascendem à sua montanha. Que perguntas vai fazendo a si própria pelo caminho? Não faço perguntas, deixo o tempo fluir. O alpinismo começa acima de 2 mil metros e até aí é montanhismo. É alpinista ou montanhista? Já fui algumas vezes alpinista, mas sou uma montanhista ferrenha. Qual a verdadeira altitude das suas montanhas de papel? Depende da altura de cada um.  A sua obra tem um lado nipónico, pela elegância minimal das formas e pelas duas cores eleitas, o vermelho e o preto? O Oriente fascina-me, talvez noutra encarnação tenha andado por lá. Como explicaria a sua obra a um marciano? Volátil. Qual o maior elogio que já deram à sua obra? Que se sentiram tocados. Se a obrigassem a escolher um rótulo para a sua obra, qual seria? As obras de arte não têm rótulos. E função? Nas obras de arte não há função, há fruição. Teve de remover montanhas para se tornar artista? Sim, e bastante altas. Qual a montanha que gostaria de subir? O Monte Branco. Que montanha se esconde atrás das montanhas do Escrever é Triste? Anapurna. Esta conversa foi tão rápida e sem obstáculos, que apetece perguntar: não há montanhas entre Lisboa e São Paulo? Claro que há. O Pico, por exemplo, que é avassaladoramente belo.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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13 respostas a Conversa com uma montanha pelo meio

  1. Rita V diz:

    alfinetes, agulhas e linhas, compram-se em qualquer retrosaria.
    Coser não é para toda a gente. Bordar palavras é uma arte.
    Afinal pelo meio, também temos uma colcha de perguntas e respostas à medida deste EéT.
    Que sorte temos.
    Obrigada às duas.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    uma conversa límpida, sem desperdício. só de chegadas ao ponto.
    parabéns às meninas.

    • Maria João Freitas diz:

      Ruy,
      Agradeço pela parte que me toca – os pontos de interrogação.
      Lembro-me que quando a Cristina me disse, ao telefone, que estava em São Paulo, pensei que estaria muito mais perto do Ruy do que de mim.

  3. Pedro Norton diz:

    bonita conversa indeed. E o que eu gosto que gostem do Pico!

    • Maria João Freitas diz:

      Pedro,
      Quando a Cristina deu a última resposta, pensei logo que havia um Triste que ia ficar feliz.

  4. Carla L. diz:

    Antes todas as obras de arte fossem acompanhadas de entrevistas assim. A conversa estava tão boa que esqueci de desligar.

    • Maria João Freitas diz:

      Carla L.
      A mim também me soube a pouco. Gostava de ter feito muitas mais perguntas, mas não queria abusar da simpatia da Cristina Ataíde. E quando as fiz, ainda mal tinha começado a escalar a obra dela. Não tinha conhecimentos para ter mais (e melhores) dúvidas.
      Mas agora, tenho uma certeza: quero agradecer-lhe o seu comentário.

      • dalila diz:

        Ainda bem que não fez mais perguntas, Maria João. Está uma entrevista deliciosamente perfeita, menos seria de menos e mais seria de mais. E quem ainda não conhecia o trabalho da Cristina Ataíde, vai com certeza querer conhecê-lo

  5. Não há Thomas Mann, há algo parecido com o saara:

  6. É tão bonito que parece mentira. O que, digo eu, ainda parece mais bonito.

  7. Maravilhoso diálogo com a arte a subir e descer encostas. Gostei das perguntas, e gostei das respostas!

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Tenho propensão à mudez quando é bela a surpresa. Obrigada, Maria João.

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