Conversas improváveis

A irresistível colecção chama-se Quotable Notables e tem mais de 80 cartões, com direito a envelope e ainda uma folha de stickers com frases, perguntas, pequenos ícones e a assinatura de notáveis escritores, artistas e pernsadores da humanidade. E como se isso não bastasse, ainda tem originais citações deles próprios e clichés comuns a toda a humanidade, como o desejo de Happy Birthday, Good Luck, Congratulations, Happy Mothers Day, Thank you ou Sorry. Os cartões abrem para um interior em branco, como se espreitássemos a alma de cada um deles.

Um dos meus preferidos é o de Franz Kafka. Traz uma pasta de couro na mão, demasiado pequena para ser a mala do caixeiro-viajante de A Metamorfose, onde se pode ver um insecto negro. No bolso direito do sobretudo guarda a cultura alemã com um dos seus vários diários. Virgínia Woolf, quem sabe caminhando decidida rumo ao farol, tem um vestido comprido com flores. Nos autocolantes do seu cartão lê-se: É mais difícil matar um fantasma do que a realidade.

Van Gogh traz pincéis no bolso do casaco e uma palete com tintas na mão. Ele próprio parece uma pintura impressionista e a sua famosa orelha cortada, assim como uma tesoura, fazem parte dos autocolantes disponíveis. O existencialista Jean-Paul Sartre fuma pensamentos e confirma que o inferno são os outros. Michel Foucault, vestido todo de cabedal negro, de mãos na cabeça, pensa no próximo capítulo da sua História da Sexualidade.

A Mona Lisa renasceu em carne e osso e tem corpo até aos pés e um bouquet de flores na mão. Salvador Dali traz um relógio persistente como a memória a cair do bolso e os famosos bigodes a subirem-lhe pelo rosto. Friedrich Nietzsche, com a mão no queixo, em atitude pensativa, desfila com umas calças de fazenda em tweed e um blazer verde com uma rosa na lapela (será para Lou Andreas-Salomé?). Andy Warhol passa, apressado, vestido de ganga e magenta, a caminho da Factory, com uma máquina de filmar numa mão e uma lata de tinta vermelha na outra.

Ignorando o tempo e o espaço em que se moveram, a sua ideologia e gostos, a língua, e a personalidade artística, sinto a infantil tentação de pegar nestes bonecos de papel que medem 21 centímetros e não pesam mais de 8 gramas e formar pares improváveis. Pares para a conversa, para a escrita, para o amor, para a vida, ou simplesmente para beber uma chávena de chá ou tomar alguns copos de cerveja.

Entre figuras reais e imaginárias, apetece fazer um par com Alice do País das Maravilhas e Sigmund Freud de Viena.

Espreitar um improvável diálogo entre Salvador Dalí e Jean-Paul Sartre.

Imaginar Simone de Beauvoir a conversar com Frida Kahlo.

Ensaiar uma curta troca de palavras entre Michel Foucault e Friedrich Nietzsche.

Transformar Che Guevara e Virgínia Woolf num par romântico.

Testemunhar o encontro de Andy Warhol com Mona Lisa.

Escutar as confidências de Vincent Van Gogh a Franz Kafka.

Mas há mais, muito mais. As combinações são quase infinitas na encenação de pares e conversas: Dorothy Parker e Karl Marx, Sócrates e Sherlock Holmes, Albert Einstein e o Chapeleiro Louco. Scott Fitzgerald e Newton, Jesus e Harry Houdini, Shakespeare e Ludwig Wittgenstein. Charles Darwin e a Vénus de Botticelli, a Rainha de Copas com Dante, Charlie Chaplin com George W. Bush. O que teriam para dizer uns aos outros caso se encontrassem, contra tudo o que seria de esperar? Não sabemos, porque o mundo foi demasiado grande para marcar estes encontros. E se o espaço os separou, o tempo não os juntou. Mas fica a certeza de que nos enganamos sempre que espreitamos a vida dos outros, como se a realidade fosse mais inesperada do que a mais fantasista das hipóteses. Entretanto, descobri outra utilização magnífica para esta original colecção de cartões criada pelos Unemployed Philosophers, onde funcionam muito melhor em separado, permanecendo na sua inevitável solidão. Dão uns excelentes marcadores de livros (por exemplo, gusto muito de ver Alice a espreitar entre duas páginas de O Triunfo da Morte, de Augusto Abelaira), vivendo em silêncio entre duas páginas, enquanto cumprem o mistério da sua existência de papel.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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23 respostas a Conversas improváveis

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Acho muito mal que o Witt fale com o Shakespeare. Devia era estar a falar consigo, Maria João.
    Agora diga-me, como é que faz para descobrir estas maravilhosas prendas: eu tenho a certeza de que vive num reino subterrâneo de mil e uma grutas de Ali Babá. Delícia.

    • Maria João Freitas diz:

      Manuel,
      Talvez viva num reino subterrâneo, mas é apenas na imaginação. Na vida real, vou-me deparando com objectos curiosos e também tenho os meus informadores, que quando encontram pequenos tesouros me vêm a correr contar (embora não tenha sido o caso).

  2. Ivone Costa diz:

    Coisa mais engraçada, Maria João! Gosto da Virginia Woolf a ver As Horas. E dos outros todos. 🙂

    • Maria João Freitas diz:

      Ivone,
      Se visitar o site dos Unemployed Philosophers, vai ficar encantada com todos eles.

      • quase a comprar o Buhda e o texto?

        Buddha Little Thinker
        Most toys are pretty shallow. Barbie might be doing yoga now, but she’s still an airhead. Ken never read anything deeper than GQ, and Mr. Potato Head’s practically a vegetable. But thanks to the Little Thinker Buddha Doll, you can now bring some enlightenment to your toy collection

  3. Já há muito tempo que eu não batia os pezinhos de contente … Boa ! Boa!

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    ora, todo mundo esbanja estilo. especialmente de beauvoir, kafka e warhol. e alice — talvez na perspectiva de freud — não possui exatamente um pescoço.

    • Maria João Freitas diz:

      Ruy,
      Tem razão, Mas para mim, confesso que a grande surpresa foi mesmo o grande estilo do Nietzsche.

  5. muito bons – o post e a colecção – dá vontade de ter.
    três notas sobre os pares improváveis:

    1 – alice e freud daria pano para mangas, mas não me parece improvável. afinal, para além da enorme sexualidade subjacente ao aparentemente ingénuo mundo de alice, desde a queda no buraco sob a árvore, às constantes alterações de tamanho, à obsessão da raínha de copas por cortar cabeças, ao cavaleiro branco, etc., etc., não faltam (entre alice e freud) afinidades.
    e charles dogson (o matemático conhecido como lewis carroll) era um (quase) comprovado pedófilo e apreciado fotógrafo de menores. os académicos gostam de duvidar da primeira acusação e de mitigar a relevância da segunda. seja como for, entre a cocaína de freud e as desventuras de alice não faltariam desabafos.

    2 – cristo e houdini é um par delicioso. imagino cristo a pedir dicas a houdini para sair da cruz e o outro a dizer-lhe que já tem problemas que cheguem para sair da máquina de lavar.

    3 – gostava de ver o sócrates grego, o filósofo, a discutir filosofia (e, porque não, política) com o sócrates português, o político – pós-sorbonne – seria um teste extraordinário para ver até onde vai a eficácia da maiêutica; ou, para os cinéfilos, michael mann e manoel de oliveira a rever o argumento de um filme de acção… contemplativa – qualquer coisa entre o miami vice e o non ou vã glória de mandar – bastava o princípio…

  6. Ana Rita Seabra diz:

    nada como o improvável…
    que conversas tão engraçadas!

    • Maria João Freitas diz:

      Ana Rita,
      Agradeço o seu comentário com um provável e sorridente obrigada.

  7. Extraordinário. Um universo criado a partir de cartõezinhos….e tudo o resto imagina-se…

    • Maria João Freitas diz:

      Bernardo,
      É quase como brincar aos bonecos com algumas das maiores figuras da humanidade, fazendo aquele exercício da imaginação que começa assim: E se…

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Ora aqui está belíssimo presente de Natal para mim! E aceite grato e repenicado beijinho.

  9. Filipe João diz:

    Simplesmente delicioso!!!!!! tudo!!!!

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