Cuba Deus Nos Livre

“Selvagens”, de Oliver Stone

Oliver Stone, o realizador de “Platoon”, “Wall Street” e “Natural Born Killers”, regressa com mais um cocktail Molotov de clips musicais, montagens alucinantes (e alucinadas), sangue a escorrer pelas ruas e humor negro de quarta categoria. É o método Stone: hiper-violência em tom de sátira para disfarçar o fascínio, voz-off de tapar buracos (a narração de O, a personagem de Blake Lively, está ali para explicar tudo muito bem explicadinho), mistura de registos de imagem – preto e branco, cores puxadas ao limite do espectro, grandes angulares, “paralíticos”, granulados, vídeo HD, super slow-motion, há para todos os gostos, frequentemente na mesma cena – e figuras secundárias próximas do “cartoon”. Se a esquizofrenia segundo Stone funciona quando o homem se apoia na história contemporânea, afinando o maniqueísmo político – “JFK” e “Nixon” são magníficos exemplos de manipulação panfletária -, tudo dá para o torto nas paródias aos géneros. Stone adora estilizar a violência, mas tem a mão pesada quando a tenta disfarçar de comédia, e “Natural Born Killers” ou “U-Turn” mostram um cinema duvidoso na ética e estéril na arte. “Selvagens” segue esse caminho: mostra o ménage à trois de O (Blake Lively, sensual como uma marguerita), Chon (Taylor Kitsch), antigo Navy SEAL, e Ben (Aaron Johnson, o desastrado herói de “Kick-Ass”), um amante de drogas leves com alma de ecologista. Chon e Ben têm a mais lucrativa rede de produção e distribuição de haxixe do sul da Califórnia, mas o idílio pessoal e profissional termina quando a dupla é “convidada” a integrar o cartel Baja mexicano, que anda com dificuldades na conquista de novos mercados. Eles recusam, preparam-se para fugir rumo ao exílio de um ano numa ilha da Indonésia quando O – o diminutivo de Ofélia, é a caução literária, até aparece o quadro de Millais – é raptada pelos facínoras de “La Reina” Elena, líder do cartel (Salma Hayek, numa saborosa Lady MacBeth em versão Guadalajara). Há um Benicio del Toro a fazer de torcionário com seis neurónios (porque é que um grande actor se sujeita a isto?), Travolta a brincar com a imagem de Travolta – como gordo e calvo agente da DEA – e o habitual roteiro de cabeças decepadas, torturas com chicote, imolação por gasolina e banda sonora a piscar o olho à caricatura. Ainda sobra o mais irritante clímax da última década, portento de aldrabice: quando julgávamos que a intriga terminara, hei, espera aí, volta tudo atrás… Aos 65 anos, com o terceiro documentário sobre Fidel Castro a caminho, o senhor Oliver Stone (que, com “Salvador”, “Platoon” e “Wall Street” soubera tomar o pulso à nação americana) parece não ter mais nada para dizer. “The End?”

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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5 respostas a Cuba Deus Nos Livre

  1. Pedro Bidarra diz:

    Amigo PMS. Estes textos são verdadeiro serviço público. Mais um par de horas poupadas na minha vida

  2. Entre o “vodka” puro e o “cocktail Molotof”, fico pelo primeiro! concordo que a esquizofrenia cinematográfica de Stone nem sequer resulta em grande cinema.

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    sua análise é elegante, pedro marta.
    mas eu diria que stone é kitsch mesmo. ou, como se diz por cá: brega!
    e acabou-se.

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