Demiurgia e Imobilidade (ou Mais Triste: Impossível)

Hoje, depois do café da manhã – que os portugueses chamam à francesa de pequeno almoço – passei uma mensagem para meu amigo Emmanuel S. Fonteles, cristão-novo que abjurou. Era para sublinhar uma associação inesperada. Uma entre muitas. Ele costuma fazer isso. Eu que não costumo dizer que gosto.

Particularmente afiada, a de hoje.

Meu amigo faz associações entre filmes e vida. Quer dizer, entre cinema e não cinema, mas que desaguam em outros filmes, quase mais cinemáticos que os primeiros. Na de hoje, aproxima demiurgia de imobilidade. Pode ser.

Porque de certo modo, a imobilidade leva à reclusão. E a reclusão, à maior possibilidade de ver sem ser visto. Ou seja, ao voyeurismo que todo escritor pratica: uns mais, outros menos. Mas em geral uns mais. E de forma ampla, semi-irrestrita. Lembram os heróis de Bresson, foras da lei, do circuito mas iluminados.

Era assim que eu seguia no pensamento. E o pensamento seguia aos dedos, que mal-digitam como o diacho:

-Dê-me uma resposta – disse a meu amigo – Não precisa elaborar muito. É apenas uma curiosidade, um detalhe que chamou atenção: o Emmanuel faz ideia de onde, mais racionalmente vem essa ligação entre demiurgia e imobilidade (ou reclusão, talvez? Ou por consequência)? Algum autor, livro, filme, quadro? Trecho de ensaio filosófico, quiçá? Ou, ainda melhor: passagem bíblica?

Ainda cogitei lançar mão do dicionário de ideias análogas. Mas era domingo. E isso vai contra minha religião. E seria impertinente adensar conversa. E eu sei, embora Emannuel talvez se encontrasse àquelas horas tantas na Biblioteca Joanina ou na Torre do Tombo, conferindo velhos tratados sobre a Infância e o Cinema (sic), não custava nada importuná-lo.

Emmanuel, no entanto e pra valer, encontrava-se em Peniche, venturoso, numa praia a perder de vista, a 34ºC, com golfinhos a boreste, um grupo de Nausícaas em torno e uma prancha de surf, just in case. E eu que não suspeitava. Eu nessas condições, não. Não responderia. Nem a pau. Ainda mais pelo telemóvel.

Emmanuel respondeu. E com algo próximo do que disse certa vez William Carlos Willliams: “if anything of moment results, so much the better”. Mas, friso, sem a menção a Williams, borra de biblioteca,  firula no passe. E lançou de trivela, feito Didi cobrando a falta à folha seca:

-E digo-lhe: imobilidade e demiurgia foram associação espontânea. Talvez uma reminiscência do motor imóvel aristotélico, mas sobretudo um impulso inconsciente de quem gosta de escrever depressa e sem pensar muito as crônicas… – disse, desde seu dolce far niente.

E pediu licença pra ir comer uns crustáceos.

*

E eu que pensava que estava nos trópicos. 

Mais triste: impossível.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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29 respostas a Demiurgia e Imobilidade (ou Mais Triste: Impossível)

  1. Ivone Costa diz:

    :):):) Nunca deixei de crer nessa associação entre imobilidade e demiurgia e muito me enfado quando algum aristotélico acidente perturba as minhas tardes de domingo. Mas que sei eu? Nem vivo nos trópicos, nem nada …

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    ivone, ivone. começo a desconfiar que você, ainda mais que certos espertinhos por aqui, é quem descobriu o mapa do sol. ou tomou-o de empréstimo a enéas, com todas as indicações das terras ao sul (e muito) de cartago.

  3. Ivone Costa diz:

    🙂

  4. primo, parabenizar é muito mais giro que dejejum mas mata-bicho não lhe fica atrás
    🙂

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    ora, rita, pois não vejo a hora de acordar amanhã. e decretar solenemente, a plenos pulmões, à casa inteira, que vamos ao mata-bicho.

  6. Panurgo diz:

    não percebi; é preciso ir ler a Física do Filósofo?

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    só em meio termo, panurgo. no outro, lê-se a filosofia do nada (meta-)físico triste. e para contrastá-la à apropriação indevida do bergson de ‘matière et mémoire’ feita por deleuze. talvez para afirmar, ao fim, como tarkovsky evocando pushkin, que “a poesia tem de ser um pouco estúpida”.
    ou seja, que às vezes, num domingo, mais vale passar ao largo de blogues e brochuras, ir à praia, dar algum consolo ao olhar, pegar um bronze e uma onda.
    e, na segunda, como sugere a rita, amanhecer com muita fome e disposição antes do primeiro mata-bicho da semana.

    • Panurgo diz:

      sabia lá eu que isto metia as bestas do bergson e do deleuze pelo meio; mas a praia está uma maravilha, abençoada crise. quase que se podia criar uma agência de rating e classificar o mulherio de acordo com os títulos de dívida pública europeia; da alemã para baixo.

  8. Mais triste que Tristano Trisnaldo não há, até balada há que compõe tristeza nossa:

  9. curioso (levado sim) diz:

    o sol (luz) vai muito elevado e já levou de demiurgo a demi-urgia num ápice 😉

    como a de ‘hoje’ é muito afiada, ficam dúvidas sobre aquele duplo m que não corresponde a um duplo l (Emmanuel S. Fontelles) mas como o amigo em questão era de Peniche, está tudo lá, mesmo sem duplos

    e se quiserem aproveitar o interessante aproveitamento de outra fantástica associação… vão por mim (que também fui lá levado por vós)

    http://umjeitomanso.blogspot.pt/2012/09/o-expresso-revela-tudo-sobre-o-sexo-dos.html

    valeu 😉

  10. Ruy Vasconcelos diz:

    grato pela trilha sonora, respingante amigo.
    valeu.

  11. fgh diz:

    “Era para parabenizar-lhe uma asso­ci­a­ção ines­pe­rada.”
    Será que queria dizer “era para o parabenizar por uma associação inesperada”?
    Ou parabanezá-lo. “Parabenizar-lhe” é erro, já que implicava que o verbo estivesse a ser usado como indirecto, quando é directo.

  12. Ruy Vasconcelos diz:

    o caso é precisamente este: direto. muito obrigado! e desculpe-me a desatenção.

  13. Ruy Vasconcelos diz:

    vai uma anedota?

    é, parece que na pressa, a gente acaba inevitavelmente por errar algo. outro dia, por aqui mesmo, em um comentário, errei feio: pus ‘iminência’ por ‘eminência’. quase não desculpável. e, no entanto, ninguém me avisou. e, ainda assim, percebi o equívoco, ontem, relendo os comentários a um texto que havia postado, semana passada.
    e, no caso, há um acontecimento atenuante. vou contá-lo:

    não tivesse nomeado uma banda em que tocávamos em festinhas universitárias, aí pelos fins dos 80′, justamente de a ‘iminência parda’, assim, com “i’, por umas poucas ‘gigs’ em provocação e trocadilho, talvez tivesse sido mais difícil cair no logro. o nome da banda aludia a certa tensão apocalíptica, bestial, prestes a ocorrer. algo como, digamos, uma hecatombe nuclear (afinal, ainda era guerra fria e antes da queda do muro)… e daí o trocadilho infame, para o nome de uma banda, quase anônima, cantando letras supostamente provocadoras (mal a ditadura deixara de viger no brasil) e rente ao fim dos tempos: uma ‘iminência parda’! parda como o ‘napalm’ sobre o vietname, ou os gatos pardos e dissidentes, que sumiam de noite, nas mãos dos esbirros dos militares. tudo era cifras. esta ‘iminência’, então, não seria o cardeal richalieu. ou outros eminentes cardeais por este mundo (virtuais ou não). ou a figura de poder, encoberta, do regime, senão uma grupo musical desconhecido e obscuro. mas, quem sabe num futuro, que não nos pertence…após a hecatombe, do espaço viessem esses seres que não concebemos, e, sob os escombros, catassem alguns destroços, e descobrissem as fitas com as canções da ‘iminência’. e até apreciassem o som…e o som os ajudasse a estar, de algum modo, mais confortáveis neste universo…

    e, ainda assim, eles não iriam saber nunca quão doce era aquele tempo, apesar de tudo…

  14. Panurgo diz:

    Que é feito do Mestre Manuel?

  15. Ruy Vasconcelos diz:

    está para peniche, a surfar. e pernoita nas berlengas, num acampamento de escoteiros.

  16. Panurgo diz:

    foi à procura da lúcia, está visto.

  17. curioso (vi-gi-li-ante) diz:

    caro Ruy, a sua provocação merece nova gorjeta e o mais substancial disponível.

    o amigo de Peniche confere um elevado grau de pontaria ao instrumento de adivinhação existente nesta banda, eminentemente parda e brilhante.

    bom seria que, além de escoteiro, fosse também escuteiro e outras galas cantaria.

    ali em cima, atenuante terá que ser feminina.
    postado, seria melhor na semana passada?
    a meio, viger seria viver?
    richalieu seria promotor de richas?
    no fim, quão doce deveria ser plural.

    e a gralha, para chatear, ensarilhou de tal maneira que, longe de qualquer bandeira, só poderia ser parabentear 😉

  18. Ruy Vasconcelos diz:

    e lá vamos nós:

    escoteiro – no português do brasil, até mais próximo do inglês: ‘scout’. [1×0]

    atenuante – dois gêneros, qualquer dicionário, inclusive os vossos. e em linha. consulte-os, por favor.
    que tal este:
    http://www.dicionarioinformal.com.br/atenuante/%5B2x0%5D
    (bem, na verdade, não todos, mas sem um pouco de falácia não se ganha nem no amor nem no jogo)

    viger seria viger mesmo. de vigência de leis. de vigorar. para aprender a conjugá-lo, aí vai:
    http://www.conjuga-me.net/verbo-viger [3×0]

    oui, ‘richelieu’, vous avez gagné cette bataille, sacripant! mais non la guerre![3×1]

    acho que seus olhos são a flor da paisagem, e andam vendo coisas naqueles tempos… hahaha. havia um ‘s’ a mais no tempo, tirei-o…[4×1]

    *

    ‘parabentear’? não brinca: você já conhecia esta forma antes? quem mais conhecia: josé leite de vasconcelos?

    ‘parabenizar’ é uma forma popularíssima de norte a sul do brasil. quantos portugueses sabem o que é parabentear? bom, vejamos:

    parabenizar=2,320.000 entradas na busca do google.
    parabentear=4.470 entradas, detalhe: ainda com as ressalvas: “será que quis dizer: parabenizar”? (no google portugal) e “você quis dizer: parabenizar”? (no google brasil)

    um abraço, boa noite! 🙂

  19. Eu gosto imenso desse impulso inconsciente, mas nunca consigo ficar-me só pelo impulso.
    É azar!
    Atão o Maneli anda a berlengar?!…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      é o que dizem, tónio kröger. mas sabe como é, né: dom manuel é uma legião. e por vezes, essa legião is melted into air, into thin air. e quem sabe, um manuel transubstanciado pode estar mais perto do que a suspeita ou a evidência.

  20. Ruy Vasconcelos diz:

    panurgo, mon vieux, parece que a lúcia anda lendo em excesso. de momento, encontra-se em casa, coitada, às voltas. muito empenhada, decide se tudo que é numericamente muito possui matéria. mas depois vai a peniche pegar um bronze. e tomar umas e outras. a prescrição da praia é de seu terapeuta lacaniano. a do licor, dela mesma. e é ela quem irá ter com o o grupo de gnósticos. há a bardot 56′, lupcínio rodrigues, sócrates, primo de rivera, james stewart, billy the kid, além dessa figura rabelaisiana: emmanuel s. fonteles – este ao que tudo indica um dissidente. e mais meia dúzia de gatos pingados (sem contar mexicanos). todos ali, naquele botequinho por nome: ‘o estagirita’. eles pensam que descobriram a pólvora. como? assim: “a ausência de movimento produz matéria. mas isso ainda não atribui à ausência de movimento um caráter demiúrgico. afinal, pode ser apenas matéria de que são feitos os sonhos, percebe? e não matéria, matéria mesmo, não sabe? matéria-prima, essa que se produz no brasil e processa na china. a que se pode dar de comer e vestir a partir”. ah, tss, tss: que é isso lúcia, darling? esses teus amiguinhos de boteco, hein? vão lascar o país antes de arrotar a reiminiscência do motor imóvel, gasta assim tão levianamente entre anúncios de tv, consultorias, subsídios, auditorias de encomenda… e não será esse o mesmo grupelho que rematerializou sócrates, aquele que há não muito lhes quebrou a banca e fodeu com o país?
    ah, não, mas isso é já outra teoria: a do eterno retorno.
    como assim, quais seriam os passos desse retorno?

  21. Panurgo diz:

    isso chama-se democracia; primeiro o eleitor vai à urna; depois, a urna vai ao eleitor.

  22. curioso (upside down) diz:

    Ruy, vamos acertar as contas:

    escuteiro, o que escuta, também igual a escoteiro (1-0)

    atenuante, sf adj 2 gen (2-0)

    viger (2-1)

    c’est bataille non: cette bataille (3-1)

    uma grupo musical (4-1) (para pagar o s do tempo que tinha ignorado)

    gosto de parabenizar e não conhecia parabentear: foi ‘apenas’ para a gralha descodificar… e fiquei 😉

    [email protected]ço

  23. Podemos discutir essa conversa como um dos autores? Se possível a olhar a areia branca deglutando uns belos mas já não vivos animaizinhos de casca cor de rosa….Mas claro que sim, a imobilidade permite propíciamente o acto da criação…

  24. Degustados os crustáceos, devolvida a Nau­sí­caa ao rei dos feácios, delirei com esta sua digressão demiúrgica, meu velho amigo Ruy. Só lhe digo, estou que nem me mexo.

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