Diga-me com alegria … não me diga com tristeza!

Foi com esta frase, várias vezes dita e entoada também de várias maneiras, que regressei de Ponte de Lima.

Aproximam-se as Feiras Novas, uma época bastante festiva e emblemática desta cidade minhota. A zona ribeirinha já está preparada para receber os visitantes. Carrosséis, farturas, artesanato típico, socas, filigrana, xailes, bonecos de madeira, tudo o que uma menina e moça possa ter gosto em comprar. Tudo isto e muito mais meninos e meninas, senhores e senhoras! Tudo com muita alegria e sem tristeza. Uma feira nunca será uma boa feira se não tiver os seus genuínos e fantásticos feirantes. Ora esta feira tem o exemplo de um bom feirante.

Uma enorme bancada com mais de 5 metros de altura e com certeza mais de 10 metros de comprimento (o equivalente a um camião TIR desdobrável) está recheada de tudo aquilo que precisamos e especialmente do que não precisamos. Tudo amontoado até se perder definição…um verdadeiro arco íris. Ou se preferirem, um gigante lolly pop de cores garridas. Aspiradores, máquinas de café, bonecos gigantes de peluches, lençóis, luzes, muitas luzes a piscar, alguidares, loiças, máquinas de calcular… sei lá! Eram coisas a mais para o meu poder descritivo. Mas não posso falhar a caixa. Uma caixa misteriosa que guardava um prémio surpresa.

O feirante, de sotaque meio minhoto meio galego, elegante e com um penteado dos melhores tempos do Elvis, falava a bom ritmo ao microfone preso à orelha. Escolheu do “público” o Fernando e a sua mulher como felizes contemplados – e começou o espectáculo. Eu recuei para os tempos de tensão e suspense que o Carlos Cruz nos fazia viver com o “Um Dois Três”. “Quer a Bota ou o trem de cozinha?” “Quer a Bota ou a máquina de café?” … os exemplos seguiam-se sempre entre a Bota e outro qualquer bem necessário para um jovem casal.

Este Feirante (tenho pena de não saber o nome) era uma espécie de Carlos Cruz e a sua Bota Botilde , uma caixinha misteriosa.

– Diga-me lá Fernando, quer a caixa ou o boneco?

– Não sei.

– Pense bem Fernando e diga-me, diga-me com alegria, não me diga com tristeza. Quer a caixa ou quer boneco?

– Já tenho uma boneca. Quero a caixa.

– Tem uma boneca. E tem uma máquina de café? Então diga-me Fernando. Diga-me com alegria não me diga com tristeza. Quer a caixa e o desconhecido ou quer a máquina de café?

Depois de tantas e tantas ofertas o Fernando e a sua mulher, desesperados, suados, viraram-se para o público e pediram opinião. E o feirante insistia.

– Fernando pense bem, pense com o coração e diga-me com alegria, não me diga com tristeza. Siga o seu coração: Quer a caixa ? Ou quer o boneco, a máquina de café, o barco insuflável e ainda uma colher de pau?

O público gritava os seus palpites. O Fernando e a mulher cada vez mais indecisos.

Com isto se passou meia hora e pelo andar da carruagem mais meia hora terão por lá ficado, em plenos anos 80, a jogar ao “Um Dois Três”. Eu preferi sair, enquanto ainda podia, para 2012.

Continuei o meu passeio. Com alegria e sem tristeza por ter visto um magote de gente entusiasmadíssima e enroladíssima no discurso daquele feirante e solidária com o Fernando e sua mulher.

Com muita pena minha, não assisti ao veredicto final. Mas assisti ao verdadeiro espectáculo. Ao verdadeiro artista. Do que não precisa de grandes complexidades (apenas um simples camião TIR) , ou teorias rebuscadas para comunicar e captar a atenção dos que por ali passavam. E garanto-vos que não foi só entretenimento. A convicção, a vida e o talento daquele feirante puseram-me a pensar na vida com alegria e com tristeza.

Gosto de coisas simples. De pessoas generosas. Por isso gosto da arte.

 

Nota: Feiras Novas de Ponte de Lima – 07 a 10 de Setembro 2012

 

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo.
Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte.
interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.

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16 respostas a Diga-me com alegria … não me diga com tristeza!

  1. muito giro
    filmei um feirante diferente no alentejo há uns anos. pode ser que o traga para aqui se ao rever ainda lhe achar alguma graça.
    giro Sandra

  2. Sandra, há mais de 20 anos que não meto o pé nas Feiras de Ponte de Lima. Mas foi com alegria e não com tristeza que li a sua crónica. Foi como se estivesse lá estado, como se tivesse lá voltado, depois do longo interregno. E não viu por lá um dos nossos co-bloggers (não digo qual, veja se descobre), há muito um grande frequentador das festividades de Ponte de Lima?

    • Sandra Barata Belo diz:

      hum… um jogo/adivinha. vou descobrir.
      fico muito contente que tenha gostado da minha alegria.
      aproveite e dê lá um saltinho este fim de semana. as Festas começam já amanhã!

  3. curioso (rindo) diz:

    também partilho dessa alegria e das muitas artes que por ali aparecem, ressuscitando tempos bem festejados.

    mas não consigo rever a cena do microfone preso à orelha (devia ser triste) 😉

    • Sandra Barata Belo diz:

      pode ir lá este fim de semana. de certeza que “o melhor feirante do mundo” vai estar por lá.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    que bulício, sandra. esses ambientes de feira são pura eletricidade e comunicação. verdadeiros viveiros de tipos ladinos, um pouquinho charlatães — se assim pedem ocasião e freguesia — a exemplo do feirante minhoto de topete à la elvis da sua crônica. nunca fui à feira de ponte de lima. mas deu vontade.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Saudade das feiras nortenhas. Saudade do bulício. Da ingenuidade e da ‘banha da cobra’. Das guloseimas na infância. Dos turcos de 500g que sobram daqueles enviados diretamente para exportação. Das rabanadas no estio. Das gentes do Norte que também são raízes pessoais. Grata pela viagem à volta de quem fui e sou.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Sandra, mas que grande ritmo. Passei o tempo aos gritos: “quero a bota, quero a bota”. E tu a dares-me o trem de cozinha!!! A sério, arrancaste-me, lá do fundo, a primeira vez, em Luanda, que fui a uma feira. Foi à noite, uma festança de cheiros e algodão doce e uma roda com números onde ganhei logo um jogo de tachos. Foram os melhores tachos da minha vida…

  7. Excelente retrato animado, aliás animadíssimo, como é costume nas Feiras Novas.
    Adoro Ponte de Lima e tenho amigos lá (recomendo o bacalhau no restaurante do rio)

  8. Sandra Barata Belo diz:

    estas feiras fazem-nos recuar muito no tempo e o bom é que ainda existem.

  9. foste à minha terra :)… esse senhor está lá todos os anos. este ano pensei: “tenho de filmá-lo antes que desapareça para sempre” mas não foi desta.

    • Já agora, todos os anos o meu irmão ia lá porque queria a mota (mini-mota)… o resultado disso é que tenho umas 5 ou 6 bonecas e facas de cozinha lá arrumadas hehe

      • Sandra Barata Belo diz:

        para o ano estou la de novo.
        aquele é um espectáculo imperdivel enquanto existir!
        faça filmes Beatrixkiddo!
        o desejo do seu irmão era fazer-lhe o enxoval… parece que consegui, ou quase!

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