Do salto de um 4º andar inventa-se sem querer o circo

 

Do salto de um 4º andar inventa-se sem querer o circo.

(excerto de um diário de uma criança de 6 anos que ainda não sabe escrever)

Tomo coragem. Subo. Ganho equilíbrio.

Fico em pé. Direita em cima do corrimão da janela.

Não posso olhar lá para baixo. O chão parece mais perto, engano-me. Se me engano morro.

Respiro fundo e lanço-me para as cordas do estendal sem medo. Não é um salto lá para baixo. É um salto para o estendal. Agarro as cordas com as minhas mãos. Fico pendurada. Não posso olhar lá para baixo. O chão engana-me. Estou pendurada. Aproveito ainda o balanço que sobrou para alcançar as linhas do eléctrico. Não estão perto. Balanço o corpo todo três vezes. Balanço-me com toda a força. As linhas do eléctrico estão no segmento do meu olhar. Ali mesmo à minha frente. Sei que se me esforçar irei alcança-las. Três. Larguei-me.

No ar. Sinto a ausência de peso por breves segundos demorados. O corpo tem de ser mais esperto do que a cabeça. Ela é inteligente e engana-me. O chão está lá em baixo. Se me engano morro. Estico-me para as linhas do eléctrico. Foco o olhar. Foco o olhar – As mãos esfoladas e a arder dão o primeiro sinal de que as agarrei.

Novamente pendurada. Iço-me. Sento-me nas linhas do eléctrico.

Olho agora para a minha janela e para o meu estendal. Já estão do outro lado onde há bem pouco não queria estar. Descanso e contemplo o que acabei de fazer.

Levanto-me. Testo o meu equilíbrio. Caminho sobre as linhas. Olhar em frente e todos os pensamentos para trás. Pé ante pé, ao ritmo da respiração. É tudo o que sou – um passo e uma inspiração, um passo e uma expiração. Caminho sem rede sobre as linhas do eléctrico. Ainda não a inventei. Que jeito me dava ter uma red… e… uma ratoeira da mente. Fui apanhada a pensar no não devia, no que nem sequer existe. Perdi o ritmo da respiração. Antecipei-me – o desequilíbrio. O chão lá em baixo está tão perto.

A mão é mais rápida do que tudo: não caí.

A rapidez do meu corpo salvou-me de um encontro imediato com as pedras da minha rua. Tenho uma mão que me segura e escorrega. Sinto-me a escorregar. Não consigo ter força para ajudar com a outra. Vejo que no fim da linha do eléctrico está um poste de electricidade. Estava quase a chegar lá, não fosse pensar na rede que ainda não inventei, que nem vi em lado nenhum. A mão não está a aguentar. O meu pequeno corpo é demasiado grande para a minha mão. Lanço as pernas para tentar chegar ao poste. Travo uma batalha de várias frentes – a mão que luta para ter força, a perna que se esforça para chegar ao poste. A cabeça que não sabe para que luta mas luta e o corpo a tentar comandar as operações.

A mão desiste e solta-se. As pernas enrolam-se à volta do poste mesmo a tempo. Agarro-me como uma lapa a este pilar da minha rua e deixo-me deslizar com os olhos fechados. Por momentos, o conforto de um colo.

Mas a gravidade faz-se sentir e começo a ganhar uma velocidade que não quero. Escorrego inevitavelmente até ao chão. Caí – a pés juntos – em cima dos carris do eléctrico.

As linhas que estavam no ar estão agora na terra.

A minha rua é a descer. Não consigo travar o impulso do meu corpo nem da minha aventura. Tento pôr-me em pé. Percebo que a sola dos meus sapatos em contacto com o ferro dos carris, escorrega. A rua é descer e eu ainda escorrego mais. Ganho mais velocidade. Abro os braços para me equilibrar e sinto o vento na cara. Deslizo nos carris. Sinto o vento na cara e equilibro-me.

Um Muro.

Reparo em pânico que no fim da rua inclinada existe um muro. Não sei como se travam sapatos que deslizam em carris, mas tenho de evitar esbarrar contra o muro. Estou tão incrivelmente encaixada nos carris do eléctrico que não ouso grandes movimentos contraditórios à força da descida. O muro está cada vez mais perto. O chão ganhou verticalidade e agora é um muro. A velocidade aumenta. Eu não sei travar. Sei que ao mínimo movimento, desequilibro-me, caio e rebolo até ao fundo da rua. Que verbo será preferível, esbarrar ou rebolar?

Na encruzilhada final, mesmo antes da tragédia, um eléctrico sobe a rua em sentido contrário. Atiro-me sem pensar para as portas do eléctrico em andamento. Um rapaz que vai “ à pendura” percebe a minha intenção e estica-me o braço. Eu agarro-o.

Vou agora à boleia no eléctrico. A subir. Inteira sem tragédia. A única coisa que oiço é o meu coração e não quero ouvir mais nada.

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo.
Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte.
interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.

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4 respostas a Do salto de um 4º andar inventa-se sem querer o circo

  1. curioso (so corrista) diz:

    grande artista, com a bela sorte de ter apanhado o desejado eléctrico 😉

  2. Fiquei com vertigens…e saudades dessa inocência que se revela em coragem e na ausência do medo…

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