Ela

Ela mal consegue concentrar-se e meter as chaves na fechadura. Um acto diário repetido infinitas vezes pode revelar-se uma grande dificuldade.

Ela está aflita. Vem carregada com sacos do super mercado. Quer chegar a casa, largar tudo de qualquer maneira e ir para a casa de banho. A sua casa de banho é tudo o que ela mais deseja e está mesmo ali, do outro lado da fechadura. A aflição dela não corresponde à facilidade do momento. Deixa cair as chaves. Ao apanhá-las coloca mal um dos sacos e as laranjas rebolam. Apanha as laranjas. Apanha as chaves e num acto incrível de calma e confiança, coloca-as na ranhura da fechadura. Conseguiu finalmente abrir a porta do prédio. Falta o elevador, a porta de casa, atravessar o apartamento e chegar à casa de banho.

Quando estamos em urgência o tempo aumenta dolorosamente. Não cabe em nós nem no estúpido círculo que inventaram para o contar. Quanto tempo demora um elevador a chegar? Horas. O equivalente a malditas horas que temos de esperar pelos breves segundos do elevador.

Do outro lado da fechadura, dentro do apartamento onde ela vive – reina a calma. Uma luz alaranjada entra pela janela e pinta as paredes com o final de dia. Das colunas sai uma música daquelas intemporais que achamos que nos pertence. Ela gosta de ouvir rádio. Tem plantas por todo o lado e de vários géneros. Aquáticas sobretudo. Uma das paredes do seu quarto é coberta por um grande aquário. 2,50×3,50m ocupam toda a área. São alguns os peixes que dançam as suas cores. Todos eles diferentes entre si, entre os quais, um cavalo marinho. As plantas naturais tornam o aquário verossímil e por momentos acreditamos que estamos debaixo de água. Candeeiros de luzes delicadas pontuam o quarto. Da casa de banho ouve-se o barulho da água. Ela deixou a torneira da banheira a correr.

Ela está finalmente entre pisos a viajar os intermináveis breves segundos do elevador. Aflita. Coça-se e contorce-se com o mal-estar. A pele começa a acusar irritação, largando uma espécie de caspa, típica da desidratação do final de verão. Ela tenta beber a água que uma garrafa já não tem. Vai no 3º piso. Ainda faltam 7. A pele dela está cada vez mais gretada e no chão do elevador já são visíveis algumas camadas de pele desintegrada.

O sinal sonoro. Abrem-se as portas. Ela sai a correr agarrando sacos. A porta de casa fechada e mais uma fechadura. A ultima até chegar à sua casa de banho. O desespero de não conseguir aguentar mais a aflição. A frustração de não conseguir ter calma para abrir a porta. Enfiou as chaves à primeira. Frações de tensão. Ouviu o barulho da fechadura a rodar e sentiu o começo do alívio. Fechou a porta com força. Poisou os sacos no hall e procurou desesperadamente algo num deles. Retirou, depois de ter espalhado as compras todas no chão, um pacote de flor de sal e começou a correr pela casa em direcção à casa de banho. A sua deslocação de ar levantou pequenos pedaços de pele já existentes – escamas de pele. Iguais às que tinha deixado no chão do elevador.

Ela espalhou o sal para dentro da banheira. Tirou a roupa ansiosamente e afundou todo o seu corpo na banheira cheia de água.

Silêncio.

Paz.

Respira normalmente debaixo de água. Sem esforço, como se sempre o fizesse. Como se o fizesse para sempre. Tem agora a sensação de alívio que tardou em chegar. E com o alívio – o prazer.

O corpo ficou de novo hidratado. Macio e gelatinoso como um peixe…

 

 

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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12 respostas a Ela

  1. Rita V diz:

    ah ah ah
    não tenho dúvidas que depois de entrar aflita saiu uma sereia feliz
    … rica sabrina ou será ‘sandrina’
    😛

  2. Água. A água é sempre uma boa solução.

  3. Uma sereia disfarçada de mulher, a pele disfarçada de escamas, a vida disfarçada de ficção…

  4. Sandra Barata Belo diz:

    O que seria da realidade sem ficção…?
    Uma grande tristeza.

  5. Panurgo diz:

    As mulheres e as suas tretas. A mulher estava aflita para ir à casa de banho, acontece a toda a gente. Não é preciso meterem-se com imitações más do Vian ou coisa que o valha, só por um desarranjo intestinal.

    • Sandra Barata Belo diz:

      quem sabe o que Ela foi fazer à casa de banho sou eu. fui eu que escrevi o texto.
      as opiniões e os desarranjos cerebrais, deixo para quem lê.
      como qualquer triste pode comentar, o seu comentário é bem-vindo.

      • Panurgo diz:

        Muito obrigado pelas boas-vindas! E um milhão de desculpas pelo desarranjo cerebral e a triste figura. É que perante o génio não há opinião possível. Não serve de atenuante bem o sei – não me precisa de recordar que o próprio verbo «graphein» também significa condenar. Perante uma prosa discípula de Ovídio e Apuleio – à beira, diria eu, de superar os mestres da Metamorfose – e que ao mesmo tempo incorpora em si elementos da prosa de Keller – Kleider machen Leute -, o vulgo confunde-se, torna-se incapaz de, para citar outro e maior alemão, «apreciar a matéria com que o espírito criativo se insuflou». Então, quando o génio criativo leva a língua portuguesa a um cume tão alto, torna-se, para um aleijado mais habituado a discutir com ingleses apenas por gestos, torna-se, dizia eu, impossível alcançá-lo.

        • Sandra Barata Belo diz:

          que tese!
          se comentar o meu texto o deixa mais leve…
          faça-o com alegria, não o faça com tristeza!

  6. Orvalho diz:

    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim
    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim

    Será que alguém resiste
    A texto tão triste
    Da desidratada …

    À espera de banheira segura
    Do lado de lá da fechadura
    Para dar a mijada …

    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim
    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim

    Macio como um peixe
    Deixe ou não deixe
    Só a peixeira rouca d’Alfama

    Lampreia ou enguia
    Quem a comeu sabia
    O que era feito da escama

    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim
    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim

    Vou cantar este fado
    Por todo o lado
    Que é como quem diz

    Que estou triste
    De tristeza em riste
    Que até sou feliz !

    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim
    Trelim-tim-tim, trelim-tim-tim, trelim-tim-tim

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Pode-se lá não gostar de uma mulher que gosta de ouvir rádio…

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