“In Memoriam” do público

Nas matinés da RTP, pública como devia e deve, passou a trilogia “Sissi”, preto no branco. A miúda esboçou Romy Schneider cuja beleza honrava o “Século Ilustrado” e a “Jours de France”.

Tem a ver com os rabiscos o requiem de Alfred Tennyson.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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18 respostas a “In Memoriam” do público

  1. Rita V diz:

    Foi a Mª do Céu que desenhou? Apanhou-lhe uma certa tristeza.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Sim, fui, estimada Rita. A verdade é que por aquele tempo desenhava como lia: compulsivamente. Os pais viram-se obrigados a numerar as páginas dos cadernos tal era a quantidade de folhas que arrancava para esboços durante as aulas. Como desenhar requer continuidade, perdi o traço. ‘Fait divers’ da minha infância.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    um ar belo, mas carregado. a quem está faltando uma praia e jogar frescobol. ou seja, alargar os espaços entre a porta de casa e o automóvel

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Pode crer. A Romy parecia adivinhar os dramas da sua vida. «Eu sou mais praia» e campo e caminhadas. 🙂

  3. curioso (requi(e)ntado) diz:

    está devidamente assinado

    e em defesa do bom inglês, aproveite-se esta vez http://www.youtube.com/watch?v=wLryC-N196s

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    A Romy, de peito nu, foi um estandarte de liberdade contra a ditadura: o filme era “A Piscina”.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Na quentura atmosférica e dos corpos, a trama policial do “A Piscina. Jane Birkin belíssima, embora sem estofo para o papel.

  6. curioso (romy-nado) diz:

    faça-se justiça, a César a moeda… a Romy o resto 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Alain Delon e Romy Sch­nei­der, separados havia pouco tempo após relação de dez anos, protagonizaram “A Piscina”. Foi bom lembrar. Obrigada.

  7. Diogo Leote diz:

    Maria do Céu, ainda bem que nos trouxe a lembrança da Romy e o seu belo desenho. Para mim não podia calhar melhor: é que aproveitei uma noite das minhas férias que agora estão a acabar para, finalmente, ver o magnífico Ludwig do Visconti, onde a Romy brilha no papel (quem havia de ser) da… Sissi.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Obrigada, Diogo. Há muito não revejo. Quem me dera fazê-lo com olhar adulto, conquanto jamais esqueça o da infância.

  8. Não conhecia Alfredo Tennyson, quando a Romy tão cedo desaparecida, “A Piscina ” foi como um relâmpago que entrou e queimou a casa…um assombro!

  9. curioso (moi non plus) diz:

    o que falta no estofo dela e quem poderia melhor tê-lo?

    para comer arroz com pauzinhos é preciso treinar 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      – Talvez maturidade.
      – Precisamente. Faltou-me o treino quando interesses outros se «alevantaram».

  10. curioso (estofador) diz:

    mas àquela Penelope bastava apenas ser (uma belíssima?)pascacinha… não acha que eles tinham perfeitamente essa noção?

    http://www.youtube.com/watch?v=9Gs9CQf1FWw

    a cena dos pauzinhos era lá entre eles… 😉

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