Influências

                                                                      Matisse, “O Estúdio Vermelho”, 1911 

Na vida, como na arte, andamos incessantemente à procura de sentido e de um caminho. Cada um à sua maneira. Todos parecem ser possíveis. Delineados por uma intuição inconsciente, por uma experiência marcante, por uma vocação que não se deixa derrotar nas encruzilhadas da vida.

Mark Rothko visitava repetidamente o Museu de Arte Moderna de Nova York, em Manhattan, para se sentar em frente do ” Estúdio Vermelho” de Matisse (1911). Admirava-o sossegadamente. Anos mais tarde diria à sua mulher “desses meses e desses olhares diários, toda a minha pintura nasceu”.

Do outro lado do oceano alguns anos antes, Rainer Maria Rilke surpreendia-se e emocionava-se com a exposição de Paul Cézanne no “Salon d’ Automme” em Paris, no ano de 1907, ou seja um ano após a morte do grande pintor francês. Tão surpreendido que voltou, também ele, varias vezes à exposição, e mais tarde refere Cézanne como uma das grandes influências na sua obra. Este encontro com Cézanne leva-o a descrever, em cartas, a cidade de Paris como se de um quadro fosse, referenciando cores e atmosferas pictóricas.

Rothko sentiu que o quadro de Matisse abria uma nova porta ao mundo da representação pictórica. Por essa nova porta era possível vislumbrar um pouco do futuro da pintura, e Rothko, apaixonado da arte representativa a duas dimensões, sentiu também ali o pulsar do seu futuro. O quadro de Matisse retracta um espaço interior que é construído sobre um fundo vermelho, que tudo embarca. A perspectiva é dada na forma dos objectos que se definem em linhas que são, elas próprias, negativos na superfície vermelha. É um espaço plano, e é um espaço profundo, criado pelos negativos impressos na superfície de cor. Lembra, claro está, as grandes obras de Rothko a partir dos anos cinquenta, quando simplifica a superfície da tela em variações subtis de tonalidades, pintadas em camadas sucessivas de tinta.

                                                                         Rothko, Nº16 (red,brown,black), 1958

O fascínio de Rilke por Cezanne é diferente, até porque se trata de uma relação de escritor para pintor. Entende-se nas cartas uma profunda admiração, desencadeada pela experiência dessa exposição. Não é só a pintura em si, os quadros, é também a atitude de Cézanne, que para Rilke se reduzia à total dedicação do “artista” à sua “arte”. O poeta Rilke descreve o pintor como um “profeta de dimensão bíblica”, indo ao ponto de  referir que “desde Moisés que ninguém olhou assim para uma montanha, de forma tão grandiosa”, referindo-se às sucessivas pinturas do “Mont de Saint Victoire”.

As cartas à sua mulher traçam uma influência subtil da experiência pictórica que se confunde com a admiração da própria personagem, Rilke parece invejar a forma como Cézanne, mesmo já sem dinheiro para pagar modelos, continua obstinadamente a pintar, dia após dia, usando antigos desenhos como modelos, maçãs sobre cobertores de cama, garrafas de vinho e tudo o que aparece à mão. Mas, esvreve Rilke, “como Van Gogh, ele constroi os seus “santos” de objectos do quotidiano, e obriga-os, sim “obriga-os”, a serem belos”.

O episódio sobre Rothko encontra-se na primeira grande biografia crítica sobre o pintor, da autoria de Dore Ashton, intitulada “About Rothko”, escrita nos anos oitenta. A história da admiração de Rilke por Cézanne é o tema de um pequeno, mas belíssimo livro, “Letters On Cézanne”.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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12 respostas a Influências

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    “obriga-os a serem belos”: que monstros esses caras. e saber melhor deles através do seu texto. aliás, bernardo, recentemente em são paulo levou-se uma peça, ‘vermelho’, bastante louvada, que é baseada em certo momento da vida de rothko:
    http://bit.ly/Io3V1d

    • caro Ruy, apanhei a peça aqui em Lisboa…bastante interessante, centra-se na fase da encomenda dos painéis para o restaurante “Four Seasons” em Nova York, que Rothko acabou por recusar ( estão na Tate hoje em dia), por achar que não era o sítio propício para colocar as suas pinturas.

  2. Revisitei a atmosfera criada pelo Bernardo e o Ruy levou-me até Pinheiros, São Paulo. Foi bom.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Apetece tudo, Bernardo. Ver as telas, fechar e abrir os olhos a Matisse e Rothko, ler as cores de Cézanne, a incolorida metafisica dos versos de Rilke,

    • Embora tenham sido todos juntos à força acho que não se zangaram! E é como diz Manuel, pode-se escolher olhar o Matisse ou os Rothko, as naturezas mortas de Cézanne ou a poesia de Rilke, cada um a seu gosto…

  4. Maracujá diz:

    Consigo sentir o cheiro inebriante da tinta neste seu texto, meu caro Bernardo.
    Mas que prazer não é para mim que a arte em tela, que não mais sei do que aquilo que os meus olhos conseguem capturar, me seja aqui mostrada por si, desta forma de “influências”, como se o controlo do meu cérebro fosse agora tomado de assalto e me perdesse num vicio encantado entre pinceladas deste talento que é o seu para pintar, também as palavras.

  5. Anos depois da história retratada, era eu que me sentava em frente do Matisse no MOMA, com as palavras do Rothko a deambularem na cabeça…Obrigado pelo seu muito simpático comentário…até breve…

  6. Pedro Marta Santos diz:

    Não conhecia estes cruzamentos. Obrigado ,Bernardo, até porque gosto cada vez mais do Rothko.

  7. Só descobri Rothko há pouco (descobrir é errado, refiro-me a admirar a sua obra), mas gostei imenso deste texto porque fala de três «amigos» de longa data – e ainda por cima, copiando Maracujá, trouxe-me o cheiro das tintas, da terebintina, dos óleos, e até das telas em branco, que também têm um cheirinho só delas…

    • Rothko marcou-me quando pela primeira vez visitei o MOMA, nunca até então tinha entendido que a “abstracção” pudesse ter tanto significado. Matisse é uma referência incontornável, no MOMA (também) deliciava-me com “A lição de piano” , um quadro intrigante e poderoso…Rilke e Cézanne recomendo a leitura das cartas…é o talento do poeta sobre um fundo colorido do pintor…

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