Isto ainda acaba mal

Isto ainda acaba mal. Ai acaba mal acaba. Os homens que se cuidem que a revolta do mundo feminino pode estar para breve. O desespero pode estar logo ali, onde os machos menos o esperam, na porta ao lado, ao longo do corredor. E convém não descurar o potencial do desespero. Sobretudo se a câmara e o microfone forem entregues aos apocalípticos Willem Dafoe, Marina Abramovic e Antony Hegarty.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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23 respostas a Isto ainda acaba mal

  1. Então não é que passei a gostar do António …

    No que diz respeito ao mundo feminino só tens que ter o cuidado de não te pores a jeito.
    (risos abafados deixando cair pétalas murchas com um copo na mão no hall do carlton ritz)

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    que plangente balada, dom diogo. suave assim, não supõe a carnificina.
    talvez mais pelas imagens, lembra a clássica canção dos who: “behind blue eyes” — embora a motivação desta seja qualquer outra coisa.
    suntuoso solo de metais, flautas e clarineta na ponte.
    ah, e lembra também (o clip) certo filme de chantal akerman, em que a tesoura surge como arma mais à mão.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    O duelo entre sexos já esteve mais assanhado. O efeito Hegarty é um de muitos que bem pode danar a situação. Mulheres e homens cuidem-se!

  4. Sandra Barata Belo diz:

    o desespero persegue-nos. ou nós é que o perseguimos.
    a ideia de revolta também.
    ainda estamos à procura das melhores manifestações. entretanto tentamos.

  5. fernando canhão diz:

    MACBETH, ACT III, SCENE III. A park near the palace.

    BANQUO – It will be rain to-night.
    First Murderer – Let it come down.

  6. Rita, para tua informação o António, que está a meio caminho dos dois sexos, é ainda mais radical do que o video pode sugerir: para ele, só com as mulheres no poder haveria condições para um mundo melhor. Acho que também concordo com ele…

  7. Ruy, a propósito de Chantal Akerman e do excessivo poder que os homens ainda têm no mundo, a dita foi, até tempos bem recentes, uma das poucas mulheres (não me lembro de outras além da Ida Lupino e da Agnès Varda, antes das Kathryn Bigelow que agora vão aparecendo)a que foi permitido (ou que tiveram vontade e meios para isso) dirigir um filme. E nada como ver o mundo mais vezes pelos olhos de uma mulher.

  8. Como muito bem diz, Maria do Céu: que se cuidem os homens e as mulheres, ou não fosse a solução do Antony (que o vi aliás defender com grande veemência num recentíssimo concerto em Cascais) tão radical como tornar o homem mais feminino, deixar emergir a mulher que cada um tem dentro de si.

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, esta é a Abramovic que o Herói, no “outro” blog, uma vez encontrou, não é. Bastou-me ver o olhar dela na rua para me lembrar…

  10. Essa do «António está a meio caminho dois sexos», bem…, e talvez fosse uma boa vivermos como zangões, com as nossas equipas de pólo e as nossas sestas e longas libações, enquanto as mulheres governavam…
    A música é óptima, mas o Defoe sempre podia dar alguma luta!
    Eu dava.

  11. Se acabar os homens sempre podem lavar a roupa na banheira:

  12. CC diz:

    Bom Diogo, no último ano morreram 24 mulheres mortas pelos seus companheiros e só ontem foram três! Parece que ainda falta muito, muito…
    ~CC~

  13. Sandra, se é que isso serve de consolação às mulheres, pelo menos os gritos de despero já nem sempre se calam. E, também, já há quem os ouça. Ainda não há gritos suficientes, ainda não há ouvidos suficientes, é certo. Resta-nos a Arte, felizmente. E eu ainda sou dos que acredito que a Arte pode salvar o mundo.

  14. Caro Fernando, lá me vai obrigar a ir espreitar o Macbeth.

  15. Manuel, correu mundo esse encontro do teu Herói, olhos nos olhos, com a Abramovic. Há quem diga que a Abramovic também não se esqueceu da bela prosa em que esse encontro de olhares foi retratado.

  16. António, a culpa é da Rita, que decidiu aportuguesar o Antony. Eu nunca me lembraria de fazer do Antony um António. Coisas de mulheres, que gostam muito de generalizações. E cá para mim, o Defoe até deu luta antes do assalto final. Deu tanta, tanta luta, que a secretária explodiu de raiva e desespero. Ela e todas as outras.

  17. Taxi, e nós não somos já especialistas em lavar roupa suja?

  18. Cara CC, estou certo que um Dafoe morto com banda sonora do Antony e a Abramovic a conduzir o inquérito pode ajudar a que as coisas fiquem mais equilibradas. E eu não me importava nada que o mundo fosse governado por mulheres.

  19. Maracujá diz:

    Gosto, meu caro Diogo, mas sabe a pouco…hoje apetece-me matar e vou faze-lo aqui se me der permissão.
    “Ele não teve que dizer nada, li-lhe nos olhos que me queria e deixei que o meu excesso de volúpia me lançasse para cima daquela secretária. Nunca antes lhe havia notado tanta força.
    Vesti-me. Era o meu vestidinho preto Christian Lacroix que ele mesmo me oferecera.
    – Puxa-me aí atrás.
    – “Tal como a noite o preto é irresistível”, sussurrou enquanto me puxava o fecho éclair.
    Virei-me e bang!
    Acerto em cheio no córtex frontal e rebento-lhe os miolos com a minha elegante dourada companheira Taurus 85, calibre 38.
    Na sua última sinapse lá estava eu de costas, semi-nua a erguer o meu tronco levemente bronzeado para que ele pudesse torná-lo, agora, eterno.
    Caiu na cadeira. Procuro-lhe o peito e beijo-o na boca apunhalando-o com aquela navalha bem afiada. Rasguei-o com precisão. A minha mão fina penetra-o e segura o seu coração apertando-o com toda a força terrestre, para que não mais circulasse sangue nele.
    Zás! Acabei de o arrancar. Vou apenas esquartejá-lo de uma forma suavemente delicada, tal como fez com o meu.
    Volto-me. Quero sair, ainda tenho que ir buscar os miúdos. Calço-me e seguro na mala.
    No chão há sangue. Baixo-me. Ainda consigo sentir o seu calor ali escorrido. Toco-lhe com o dedo indicador e passo-o pelos lábios.
    Sempre gostei do tom vermelho nos meus lábios.”

  20. Assustador, Maracujá.

  21. Maracujá diz:

    Permita-me que discorde da sua avaliação, caro Diogo, pelo menos não foi essa a intensão do autor do texto.
    Matthew Bellamy descreveria, e muito bem, como apenas e só “Undisclosed Desires”.

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